Ana Cristina Cesar

Constituído por correspondências, originais de poesias e prosas, artigos de periódicos, material de divulgação, documentos pessoais, fotografias, dedicatória e livros, o acervo pessoal de Ana Cristina Cesar está sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 1998 e foi doado mediante uma promessa: que ficasse no Rio de Janeiro

A fotografia colorida foi feita em Paris em 1980 e publicada no livro A teus pés (Ática/IMS). A imagem da direita, datada de 1977, foi tirada em Brasília. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Participante de uma geração típica carioca, Ana C., como também era conhecida, se destacou por mérito próprio. Sua coleção é rica em informações, que possibilitam não só conhecer a escritora Ana Cristina como também resgatar uma época da história e da literatura brasileiras. A geração mimeógrafo, o mercado marginal, o teatro mambembe, a ditadura e outras manifestações ocorridas a partir da década de 60 no nosso país podem ser resgatados por meio da consulta aos documentos.

Acima original de poema lançado em Luvas de pelica, com as correções da autora, e, abaixo, a versão que foi publicado com o título Epílogo. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

A escritora aos 4 anos. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Ana Cristina viveu apenas 31 anos. Nasceu em 2 de junho de 1952, cursou o colégio Bennett, o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti e finalizou seus primeiros estudos no Colégio de Aplicação da UFRJ. Em 1971, aos 19 anos, inicia o curso de graduação em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Fotografias 3×4 tiradas nas décadas de 60 e 70. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Em 1979, é mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ainda em 1979, viaja à Inglaterra e dois anos depois é master of arts (with distinction) in Theory and Practice of Literary Translation pela Universidade de Essex (Inglaterra), com a qual encerrou com a tese sobre a tradução anotada do conto Bliss (Êxtase), de Katherine Mansfield. Foi também na Inglaterra que produziu seu Caderno de desenhos, reproduzido postumamente com a organização de Augusto Massi. Entre uma graduação e outra, exerceu o magistério, a pesquisa e as atividades editorial, jornalística e de tradução, contribuindo para publicações como Opinião, Beijo, o suplemento Livro do Jornal do Brasil, Revista José, revista Almanaque e traduzindo poetas como Silvia Plath, Emily Dickinson, o polonês Czeslaw Milosz e outros. As cartas para seus editores e demais correspondências de trabalho nos mostram uma Ana Cristina extremamente profissional. Seus manuscritos, uma Ana Cristina estudiosa e atenta, com muita facilidade de expressão. Sua biblioteca é uma inesgotável fonte de co-relações das suas leituras teóricas com seus manuscritos.

Poema do Caderno de desenhos, publicado pela Livraria Duas Cidades, em 1980, e a transcrição abaixo. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

descuido não (concentração)
lembrar da caretice que você não gosta.
reaproveitar o casaquinho de banton.
quando você mal pensa que é novidade, não é.
Existe uma medida entre o descuido e a
premeditação — trata-se do cuidado (floating
attention). Daí escapam maps of England birds, pessoas seguindo numa certa direção,
bichos que vão virando gente, discretamente eróticos, desejando
mancha transparente e diluída de aquarela cor de rosa,
see?
Medida exata entre o acaso e a estrutura.
Aprender fazendo, baby.
começar pelas médias (daí para pequenas, depois para grandes)

Ana C. em 1982
Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Ana Cristina estreou no livro 26 poetas hoje, organizado por Heloisa Buarque de Hollanda e publicado em 1976. A intenção de Heloisa era fazer um retrato da geração de poetas da época: Afonso Henriques Neto, Cacaso, Chacal, Charles, Francisco Alvim, Geraldo Carneiro, Leila Miccolis, Torquato Neto, Waly Salomão e outros. Poesia vendida em bares, na porta de teatros, nas faculdades, poesia impressa em edições planejadas e realizadas pelos próprios autores, expressa em linguagem coloquial e informal, mais próxima do diálogo. Geração que lia os Modernistas de 22 como Oswald e Mário de Andrade, que lia João Cabral de Melo Neto, Nietzsche, Roland Barthes e Baudelaire. Ana Cristina transcendeu aquela geração, com sua linguagem apurada e sofisticada. Também as primeiras publicações foram financiadas e confeccionadas por ela mesma, os livros de poesia Cenas de abril (1979), Correspondência completa (1979) e Luvas de pelica (1980). Pelo MEC / Funarte, teve a sua pesquisa sobre documentário e literatura publicada com o título Literatura não é documento. Em 1982, pela Editora Brasiliense, publicou A teus pés, seu quarto livro de poesia que também reunia os três primeiros. Este ano o livro completa 25 anos do seu lançamento

O jovem corre, apanha
a luva, mas reluta se deve aceitar ou não o desafio.
Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas
mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito desta noite.

Primeiras obras lançadas por Ana C.: estréia em 26 poetas hoje (1976); os primeiros livros confeccionados por ela em 1979 – Cenas de abril e Correspondência completa – e a pesquisa sobre literatura editada pelo MEC/Funarte, Literatura não é documento (1980). Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Ana C. em 1982
Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Ana Cristina Cesar faleceu no dia 29 de outubro de 1983. Seus livros foram traduzidos na França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Venezuela, Colômbia e Argentina. A leitura (ou releitura) de sua obra ainda instiga muitos estudos, principalmente no meio acadêmico, porque, como escreveu o poeta Armando Freitas Filho, amigo de Ana Cristina e curador do acervo, no prefácio de A teus pés (Ática / IMS): “Os raros que possuem esta percepção sabem que a poesia nesse estado de latência somente se deixa surpreender em plenitude quando a violência que reduz sua quantidade, paradoxalmente, amplia e concentra seu extrato, seu leque de significados, o número de suas raízes, agora expostas, como as de uma planta que se arranca do vaso. E que está sempre pegando de muda, variando no vento das releituras que propicia.”

Documentário:
Ana C. Documentário em vídeo de Cláudia Maradei com depoimentos de professores, amigos e familiares, (Taipiri Vídeo / Apoio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo), 1988

Bibliografia complementar:
MORICONI JR., Ítalo. Ana Cristina Cesar: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996. (Perfis do Rio)
MALUFE, Annita Costa. Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar. São Paulo: Annablumme / Fapesp, 2006

Pesquisa e texto: Manoela Purcell Daudt d’Oliveira

Capa das publicações A teus pés (1998); Inéditos e dispersos e Crítica e tradução (1999) lançadas pela Ática/IMS e Correspondência incompleta (1999) da Aeroplano/IMS. Acervo Ana Cristina Cesar / Instituto Moreira Salles

Bibliografia de Ana Cristina Cesar:

HOLLANDA, Heloisa Buarque de (sel, intr). 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976. (Bolso)

CESAR, Ana Cristina. Cenas de abril. Rio de Janeiro: Edição da autora, 1979
________________. Correspondência completa. Rio de Janeiro: Edição da autora, 1979
________________. Luvas de pelica. Rio de Janeiro: Edição da autora, 1980
________________. Literatura não é documento. Rio de Janeiro: MEC / Funarte, 1980
________________. Caderno de desenhos. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1980
________________. A teus pés. São Paulo: Brasiliense, 1982
________________. A teus pés. São Paulo: Ática / IMS, 1998
________________. Inéditos e dispersos. São Paulo: Ática / IMS, 1999
________________. Crítica e tradução. São Paulo: Ática / IMS, 1999
________________. Organização de Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda. Correspondência incompleta. São Paulo: Aeroplano / IMS, 1999

Tradução das obras de ACC: Antología poética. Tradução de Alicia Torres, em colaboração do Centro de Estudios Brasileños de la Embajada de Brasil, Caracas: Planeta Venezolana, 1989
Antología poética: bilingüe. Tradução, introdução e seleção de Alicia Torres, em colaboração da Fundación para la Investigación y la Cultura, Tiempo Presente: Bogotá, 1990
Guantes de gamuza y otros poemas: bilingüe. Seleção, tradução e notas de Teresa Arijon e Sandra Almeida, Córdoba: Bajo de la Luna, 1992
Intimate diary. Tradução de Patricia E. Paige, Celia McCullough e David Treece, Londres: Boulevard Books, 1997
Dir zu Füben. Tradução de Mechthild Blumberg, Aachen: Karin Fischer, 1997

Álbum de retazos: antología crítica bilingüe: poemas, cartas, imágenes e inéditos. Comentários de Gonzalo Aguilar e Florencia Garramuño; seleção de Florencia Garramuño, Luciana di Leoni e Carolina Puente, Buenos Aires: Corregidor, 2006

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6 pensamentos sobre “Ana Cristina Cesar

  1. Neto disse:

    Muito bacana seu blog! tenho lido algumas postagens e fiquei tentado a escrever pois adoro o pouco que conheço da Ana Cristina Cesar… um abraço

  2. Yuri Jacob Lumer disse:

    Legal o Blog. Sabe onde poderia encontrar o documentário em vídeo.
    SV,
    Yuri

  3. Karin Massaro disse:

    Parabéns pelo seu lindo blog. Ela estará feliz de onde estiver por ver essa homenagem…Gostaria de ter acesso ao vídeo. Como fazer?
    abraços
    Karin

  4. Lindenberg César Mota disse:

    Mesmo não tendo conhecido minha prima, ela faz falta; partiu precocemente. Que o Senhor Jesus Cristo possa consolar seus “loved ones” que certamente ainda sofrem com tamanha perda, cuja lembrança o tempo não apaga. Deus os abençoe, primos e primas. Lindenberg, neto de Wilhelmine Lenz Cesar Mota, nossa amada vovó Mina.

  5. Rafaella Caldas disse:

    Parabéns pelo blog! me surpreendeu!
    Estou fazendo uma pesquisa escolar sobre Ana Cristina e acabei me apaixonando por seus poemas, sua história.
    Gostaria muuito de ter acesso ao vídeo! Como fazer?

  6. julio saraiva disse:

    Ana Cristina Cesar ou Ana C., como ela queria, foi, sem dúvida, a grande voz da sua, da minha geração. A geração marginal de 70. No meu primeiro livro, A Mímica do Vento, Edigrax, São Paulo, 1990, prestei-lhe homenagem com este poema: PARA ANA CRISTINA CESAR
    “e na deck-chair/ainda te escuto folhear os últimos poemas/com metade de um sorriso” (Ana C.) não consigo deixar/de afundar navios/e alugar cômodos/em casas mal-assombradas/espero também pelo último round/vejo tuas fotos no livro/redescubro a hora no velho cuco/que deixou de funcionar quando eu era menino (Júlio Saraiva, 1989)

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