Paul Verlaine

´´Eu sou o Império no final da decadência / Que vê passarem os grandes Bárbaros brancos…“. Extraídos do poema intitulado Langueurs da coletânea Jadis et Naguère (1884)

Paul-Marie Verlaine nasceu em Metz, França, em 30 de março de 1844. Filho de um militar abastado, estudou no Liceu Bonaparte — hoje Condorcet — de Paris e mais tarde conciliou o trabalho numa companhia de seguros com a vida boêmia nos círculos literários parisienses. Em seus primeiros livros, Poèmes saturniens (1866; Poemas saturninos) e Fêtes galantes (1869; Festas galantes), ouvem-se ecos do romantismo e do parnasianismo.

Próximo a Bouillon, na Bélgica, o pequeno Paul passou felizes verões com sua família paterna, no meio das paisagens das margens do Semois, que alternam lavouras, pastos, matas fechadas e pântanos. Uma região de lobos esguios, murtas negras e azinheiras à qual ele voltará mais tarde com a alma atormentada. Quando, em 1873, esse recém-casado e pai de um filho que acaba abandonando, tomado de fascínio pelo jovem Rimbaud, é procurado pela polícia por haver participado da Comuna de Paris, é para a Ardenne belga que parte em exílio. Ele acredita encontrar aí o prazer de um paraíso perdido.

No mês de agosto de 1862, Verlaine completa os estudos secundários em Paris, onde seus pais se instalaram em 1851. Eles o enviam então para morar com a família materna no norte da França. Que alegria poder mergulhar numa paisagem melancólica que corresponde a seus estados depressivos! A crisálida transforma-se em poeta maldito. Ali, entre os campos de colza e a leitura de Baudelaire, apaixona-se pela prima Elisa Moncomble. Amor impossível que o fará afogar a tristeza à noite em um cabaré.

Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville / Quelle est cette langueur / qui pénètre rnon coeur?” (Chora em meu coração / Como chove sobre a cidade / Que langor é esse / que penetra meu coração?).

Em Paris, ele se deixa levar docemente pelas delícias da “fada verde”, o absinto. Começa então a estudar direito. Nada lhe interessa. Emprega-se numa companhia de seguros e, em seguida, na Prefeitura de Paris. Aí ele passa sete anos, entediando-se. Nos cafés, esquece a melancolia, escreve versos e freqüenta os parnasianos (1). Em 1866, sua coletânea “Poèmes Saturniens” (Poemas Saturninos), editada graças a Elisa, que a financiou, faz com que seja percebido pela crítica. Em poemas de musicalidade lírica e singular, Verlaine expressa os arrebatamentos e quedas da alma, transpondo seus sentimentos em impressões e sensações através de paisagens nostálgicas e refinadas. Aos implorantes de absoluto como ele, resta o Belo, o Azul dos céus e o pesar pelos amores desvanecidos.

Mas Elisa não o amou. Foi a partir desse primeiro amor não correspondido que se cristalizou sua poesia melancólica e langorosa. Em 11 de agosto de 1870, ao casar-se com Mathilde Mauté de Fleurville – que não tinha mais do que dezesseis anos – ele tenta acomodar-se a uma burguesia “de boa família”, “aspirando uma vida simples e tranqüila”. Doce ilusão. Em setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud escreve-lhe de Charlevile. Alguns dias mais tarde, “le voleur de feu aux semelles de vent” chega a Paris a chamado de Verlaine, que se torna seu pai-amante. Em fevereiro de 1872, Mathilde pede a separação. Para acalmar a esposa ultrajada, o poeta afasta Rimbaud, fora de si. Mas em julho acontece a grande escapada: o adolescente foi mais persuasivo. Os dois amantes pegam a estrada para Bruxelas. Mathilde tenta uma reconciliação, mas Rimbaud e Verlaine partem para Londres.

De volta ao continente, Verlaine trabalha em Romances sans Paroles (Romances sem Palavras), enquanto o adolescente publica algumas páginas que revolucionam a literatura moderna: Une Saison en Enfer (Uma temporada no inferno). Sucedem rupturas e reconciliações. Eles formam um par tumultuado. Em Bruxelas, em 1873, Verlaine dá um tiro de pistola em Rimbaud.

Ele é preso, condenado e passará dois anos na prisão. Em 1874, em seu cárcere de Mons, ele compõe poemas místicos, marcas de um sincero arrependimento, que serão publicados em Sagesse (Sabedoria) (1881) e Jadis et Naguère (Outrora e recentemente) (1884), mas também eróticos, como em Parallèlement (1889). Ao sair da prisão em 1875, Verlaine embarca para a Inglaterra, onde será professor durante dois anos. Ele volta lá em 1879, onde vive com seu novo amante Lucien Létinois, um ex-aluno da instituição em que Verlaine ensinou durante dois anos, em Rethel, nas Ardennes. Eles foram expulsos de lá por causa de sua “amizade particular”.

Por que não se ouviu em Romances sans Paroles (1874), ou em La Bonne Chanson (A Boa Canção) (1870) inspirada por Mathilde, seu pedido de ajuda, para não ceder ao demônio? A Ardenne generosa ainda o esconderá por algum tempo. Em 1880, em Coulommes, perto de Rethel, o poeta compra uma fazenda para Létinois. Juntos, eles pretendem tornar-se camponeses. E vem mais uma vez o fracasso, a ruptura, o álcool. No ano seguinte, Verlaine volta a viver em Paris com sua mãe, na rua de la Roquette… Findo o tempo dos jovens amantes.

Depois de viver uma existência de pária, povoada de hospitais, prisões, móveis velhos e dramas sórdidos, Verlaine morre em Paris, aos cinqüenta e dois anos, em 8 de janeiro de 1896. Com a pena na mão, ele terá sido a imagem do velho iluminado. Bruscamente, enquanto é consumido por “reumatismo, cirrose, gastrite e icterícia“, finalmente lhe chega uma parcela de glória. Em 1895, os jovens poetas reconhecem nele o mestre da arte poética moderna. Ele é então rodeado, solicitado na Bélgica, na Inglaterra e na Holanda. Tarde demais. “Qu’as -tu fait, ô toi que voilà / Pleurant sans cesse / Dis qu’as-tu fait, toi que voilà ? De ta jeunesse?” ( O que você fez, ei, você aí / que chora sem parar, / diga o que fez, você aí / de sua juventude?) (Sagesse).


Em 1872, dois anos após casar-se, Verlaine abandonou mulher e filho e iniciou, com o jovem poeta francês Arthur Rimbaud, uma turbulenta ligação sentimental que os levou a percorrer vários países europeus. O relacionamento teve um final abrupto em Bruxelas, em 10 de julho de 1873, quando Verlaine feriu o amigo com um tiro de revólver e foi condenado a dois anos de prisão. Libertado, Verlaine tentou em vão reconciliar-se com Rimbaud. Viveu no Reino Unido até 1877, quando regressou à França. Datam desses anos dois magníficos livros de poesia, Romances sans paroles (1874; Romances sem palavras) e Sagesse (1880; Sabedoria), este a expressão de sua volta aos ideais de um cristianismo simples e humilde.
Apesar de sua crescente fama e de ser considerado um mestre pelos jovens simbolistas, o fracasso dos esforços que fez para recuperar a esposa e levar uma vida retirada conduziram Verlaine a uma recaída no mundo da boêmia e do alcoolismo que, durante o resto de seus dias, o obrigou a freqüentes hospitalizações.
Os vários livros de poemas que se seguiram apenas ocasionalmente recuperaram a antiga magia, como Amour (1888). Da produção posterior de Verlaine, o que mais se destaca são os textos em prosa, como o ensaio Les Poètes maudits (1884; Os poetas malditos), vital para o reconhecimento público de Rimbaud, Mallarmé e outros autores, e as atormentadas obras autobiográficas Mes hôpitaux (1892; Meus hospitais) e Mes prisons (1893; Minhas prisões). Paul Verlaine morreu em Paris em 8 de janeiro de 1896.

É considerado um dos maiores e mais populares poetas franceses. Um dos maiores poetas simbolistas franceses, seu lirismo musical abriu novos caminhos para a poesia em seu país e no mundo.

Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.

Em 1863, surgia na Revue du Progrés Moral o primeiro poema de Paul Verlaine (1844-1896). Ele prenunciava uma obra tumultuada, infinitamente bela, que beirava os umbrais da modernidade e transtornou definitivamente o cometa Rimbaud.



Obra

  • Poèmes saturniens (1866)
  • Les Amies (1867)
  • Fêtes galantes (1869)
  • La Bonne chanson (1870)
  • Romances sans paroles (1874)
  • Sagesse (1880)
  • Les Poètes maudits (1884)
  • Jadis et naguère (1884)
  • Amour (1888)
  • Parallèlement (1889)
  • Dédicaces (1890)
  • Femmes (1890)
  • Hombres (1891)
  • Bonheur (1891)
  • Mes hôpitaux (1891)
  • Chansons pour elle (1891)
  • Liturgies intimes (1892)
  • Mes prisons (1893)
  • Élégies (1893)
  • Odes en son honneur (1893)
  • Dans les limbes (1894)
  • Épigrammes (1894)
  • Confessions (1895)

Arte poética

A Charles Morice

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.

Canção do Outono

Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh’alma
num langor de calma
e sono.

Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.

Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido…

Tradução de
Alphonsus de Guimaraens

O Rouxinol

Numa revoada azul de pássaros cantando,
descem-me ao coração as saudades, em bando;
descem à murchecida e lúrica folhagem
do meu peito, que mira a dolorosa imagem
sobre a violácea cor do rio da Amargura.

Tradução de Batista Cepelos

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