JT LeRoy

I always said, I don’t know who I am, so how can I own an identity?
…everything you need to know you can find in my books.

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Quando JT LeRoy surgiu com este primeiro livro, aos 20 anos de idade, foi um espanto. Jovem, genial e tão esquisito quanto JD Salinger, ele foi logo traduzido em vários idiomas e adotado por personalidades tão díspares quanto Madonna e o cineasta Gus Van Sant, do qual se tornou amigo e colaborador. Sarah, de fundo autobiográfico, é a história de uma criança graciosamente andrógina – o narrador – cuja mãe, prostituta em paradas de caminhoneiros, veste-o como mulher para que também se prostitua. Esse personagem tão improvável quanto engraçado, tão triste e trágico quanto patético, afunda então num reino delirante e perversamente idílico, no qual é explorado pelo violento cafetão Leloup, de quem procura fugir para viver no mundo menos infeliz de outro cafetão, o boa praça Glad Gratefull. JT LeRoy criou neste primeiro e genial livro um submundo memorável e terrível, tão acolhedor quanto sofrido e bizarro, tão belo e poético quanto apavorante, e sem dúvida surpreendentemente original.

”Maldito Coração” contém os primeiros textos, que se afirmava serem autobiográficos, do estranho autor norte-americano JT LeRoy, que se apresentava no jet set internacional como uma figura andrógina e perturbadora, amigo e parceiro de personalidades tão Díspares quanto Madonna, o cineasta Gus Van Sant e alguns ícones da moda. No momento em que o mundo se surpreende com a revelação de que LeRoy não existe – a verdadeira autora se chama Laura Albert e a pessoa que se apresenta como ele é uma mulher, Savannah Knoop – a Geração Editorial (que também publicou seu romance “Sarah”) reafirma seu compromisso com a obra e mantém a publicação, tendo em vista a qualidade de seus textos. Em “Maldito Coração”, JT LeRoy nos conta a história da trágica infância de uma criança transformada em prostituto infantil e drogada, conduzida pela mãe – uma prostituta juvenil – numa fantástica viagem pelas estradas dos Estados Unidos. Um texto inquietante, engraçado, brutal, sinistro, que descreve a perturbadora relação entre uma mãe e seu filho criança e, depois, adolescente. Histórias chocantes de amor abusivo e disfunção sexual, de coração partido e inocência perdida. Mais uma vez, a imaginação e o lirismo fantástico de LeRoy alteram seu suposto passado sombrio para algo completamente estranho e mágico. Realidade ou fantasia, não importa: a obra é fascinante.

Leroy fora supostamente um jovem garoto de programa de beira de estrada que passara do ambiente rural de Virginia Ocidental para a vida de um sem-teto viciado em drogas em São Francisco. Resgatado quando adolescente pelo casal Laura Albert e Geoffrey Knoop e tratado por um psicólogo, ele teria conseguido transformar sua trágica juventude numa próspera carreira de escritor. JT Leroy publicou três livros de ficção aclamados pela crítica, chamando a atenção pelo retrato cabal da prostituição infantil e do uso de drogas.

Leroy lançou livros, teve obras filmadas, e depois descobriu-se que ele não existia. Era um pseudônimo de uma escritora que recorria a uma enteada para desempenhar o papel de “Leroy” em público. “Ele” esteve no Brasil em 2005, na Flip (Festa Literária de Paraty), e deu entrevistas que exploravam sua aparência andrógina, quase transexual. Em 2006 a verdade saiu nos jornais.

J. T. Leroy tem um livro, adaptado para o cinema, com o título “The Heart is Deceitful Above All Things” – “O Coração é Enganador Acima de Tudo”. O que nos traz aos versos de Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.  Emoções podem ser verdadeiras mesmo produzidas por uma vivência não real – o cinema está aí para isso, não é mesmo? Para que recebamos por duas horas o espírito daquele personagem interpretado por Dustin Hoffmann ou Fernanda Montenegro, soframos com ele, riamos com ele, identifiquemo-nos com seus menores trejeitos faciais, com as menores inflexões de sua voz. São falsas, essas emoções que nos violentam na sala escura? Não acho. São as mesmas de um escritor que as produz conscientemente em si próprio, num gabinete silencioso, a sós diante do computador. Guimarães Rosa dizia: “De repente, o diabo me cavalga”. Não o Diabo cristão: mas o “Daimon” grego, o espírito criador que pede para dizer algo. Se lhe inventamos um nome e uma biografia, aí são outros quinhentos.

Nos tribunais americanos está rolando um processo judicial envolvendo a obra autobiográfica do escritor J. T. Leroy, que estreou em 2000 com o livro “Sarah” (publicado no Brasil pela Geração Editorial), onde contava sua infância sofrida como filho de uma prostituta de beira de estrada que atendia caminhoneiros. O personagem público de JT Leroy é interpretado por Savannah Knoop, meia-irmã de Geoffrey Knoop. Uma fotografia de Savannah na inauguração de uma loja de roupas em São Francisco, em 2003, foi descoberta na internet. Cinco pessoas íntimas de Leroy identificaram Savannah como a pessoa que conheciam por JT Leroy. Entre elas sua agente literária, Ira Silverberg, e Lilly Bright, produtora do filme “The heart is deceitful above all things” (que estréia no Brasil no dia 20, com o nome de “Maldito coração”) , baseado num livro de contos de 2001.

Nyoka Lowery, designer de chapéus que aparece na fotografia ao lado de Savannah, disse que a conhece há anos e a identificou em outra fotografia na internet, no site de uma empresa de roupas em São Francisco, Nisa. Umay Mohammed, dona da Nisa, disse pelo telefone que Savannah Knoop era uma amiga e modelo de seu site.

Contactada por telefone, Savannah apenas afirmou, antes de desligar:

— Não preciso disto em minha vida no momento — disse ela, que não respondeu a mensagens pedindo mais comentários sobre o assunto.

Escritores como Dennis Cooper, Mary Gaitskill e Mary Karr apoiaram a carreira literária de Leroy, assim como diversos editores de Manhattan e celebridades do cinema e da música pop, como Courtney Love, Tatum O’Neal, Billy Corgan, Shirley Manson e Carrie Fisher. Jornalistas (incluindo, em novembro de 2004, este repórter) também escreveram crédulos perfis sobre o jovem escritor de sucesso, inclusive com entrevistas ao vivo. O “New York Times” chegou a publicar, em setembro de 2005, um artigo assinado por JT Leroy num suplemento de domingo, “T: Travel”.

O desmascaramento soma-se à hipótese de que Laura Albert é a real autora dos livros. Essa suposição começou a existir em outubro, quando a revista “New York” publicou um artigo de Stephen Beachy. O jornalista retratava Laura, de 40 anos, e Geoffrey Knoop, de 39, como malsucedidos músicos de rock que planejaram o personagem de Leroy para ter acesso aos círculos literários e, depois, a celebridades. O plano teria começado com fax, e-mails e telefonemas de Laura, falando com sotaque de Virgínia Ocidental como se fosse JT Leroy. O artigo ainda contava que Laura teria pedido a um amigo para datilografar manuscritos com evidentes semelhanças temáticas em relação ao trabalho posteriormente publicado por Leroy. Segundo a teoria de Beachy, quando este nome se tornou famoso, era necessário um ator para interpretar o papel. Mas ele não sabia quem era esse ator.

Beachy descobriu que as vendas do primeiro romance de Leroy, “Sarah”, de 2000, foram pagas para a irmã de Laura Albert, Joanna Albert, e que outros pagamentos a Leroy foram feitos a uma empresa de Nevada, Underdogs Inc. A presidente da companhia é a mãe de Laura, Carolyn F. Albert. Contactada por telefone, ela não quis comentar sobre o assunto. O pagamento para o artigo de Leroy também foi feito para a Underdogs.

Depois da publicação do artigo de Beachy, o “Times” começou a examinar as circunstâncias do texto escrito por Leroy na “T: Travel”, sobre uma viagem para a Disneylândia em Paris, com quatro pessoas. Mas recibos enviados por Leroy mostravam um itinerário para apenas três pessoas. Funcionários da Disneylândia e de dois hotéis de Paris identificaram Laura Albert na fotografia como a pessoa apresentada como JT Leroy. Segundo os funcionários, Laura disse que tinha feito uma operação para trocar de sexo e era agora uma mulher. Ela disse ainda que viajava com seu marido e o filho pequeno.

No número de telefone e nos e-mails que Leroy havia dado aos editores do “Times”, foi encontrado Peter Cane, um advogado de Manhattan. Cane não quis fornecer o passaporte de Leroy para confirmar sua identidade e o fato de ter viajado para a Europa. Mais tarde, Cane enviou um e-mail de Leroy em resposta às dúvidas sobre Savannah Knoop: “Como um ser humano com características do sexo oposto, sujeito a ataques, uso substitutos para proteger minha identidade”. Leroy já havia argumentado ter traços femininos para explicar a confusão sobre sua identidade.

Não se sabe que efeito o desmascaramento de Savannah Knoop terá em seus leitores, que agora enfrentam a questão de se o que lhes atraía eram os livros ou a história por trás deles. A falsa identidade também pode ter repercussões no mundo editorial: Leroy tem contrato com a Viking para um novo romance, e Ira Silverberg, sua agente, disse que seus livros estão à venda em 20 países. Carolyn Coleburn, diretora de publicidade da Viking, disse simplesmente:

— Nós apoiamos nossos autores.

Os produtores do filme sentiram-se lesados. Julgavam estar comprando uma história autobiográfica; se os fatos do livro eram ficção, aquilo mudava tudo. Mas aí Laura Albert foi mais fundo. Revelou que J. T. Leroy era na verdade um “alter ego”, uma dupla personalidade real, alguém que tinha existência própria e vivia dentro de sua mente. Sua mãe testemunhou, no tribunal, que a filha tinha graves depressões, foi internada várias vezes, e era de uma timidez patológica: chegou a ficar três anos sem sair do quarto. Nesse quadro de neurose e desepero, J. T. Leroy emergiu (diz a escritora) como um respiradouro, uma válvula de escape. E foi ele quem passou a se comunicar com o mundo, por escrito.

Leroy, era um ex-prostituto infantil, ex-sem-teto, ex-criança abandonada e com uma história comovente, ele tinha tudo para ser invenção de um autor excêntrico, já que não dava entrevistas nem tirava fotografias. Aos poucos foi se revelando e ganhando admiração da crítica literária americana, da “Spin Magazine” ao “The New York Times“. Entrou na lista dos mais vendidos e eu não sabia de nada disso quando comprei “Sarah” atraído pela bela capa que, agora soube, é de autoria de Gus Vans Sant. Também descobri agora que a música “Go, Cherry Go” do Garbage é em homenagem a ele e Cherry era um de seus pseudônimos quando prostituto.

JT Leroy, este jovem repaz de aparência andrógina, que de tão tímido já chegou a vomitar quando dava uma entrevista a jornalistas no salão literário de Veneza, na Itália.

Sarah e The Heart Is Deceitful Above All Things de JT LeRoy são tão estranhos quanto sua história. Em Sarah, Jeremiah Terminator LeRoy escreve uma narração de um menino que cercado por pisteiras vê naquele vida de desilusões e violência, um mundo encantado. Algo totalmente antagônico com o que é pensado por nascidos em berços mais nobres. Sua mãe (Sarah), veste-o de menina e o leva à vida com que ele tanto sonhava. A fixação do garoto por sua mãe (Sarah) é tão grande que ele adota o nome dela o livro inteiro, apesar disso, não confunde o leitor.

Glad, o cafetão que manda no pedaço, usa o tamanho do pênis de guaxinim para premiar a melhor pisteira. O sonho de Sarah (“o” Sarah) é conseguir o maior de todos. Por isso foge a um outro bar de beira de estrada onde terá mais serviço e assim voltar ao bar de Glad com fama e garantir o maior pênis de guaxinim entre todas as pisteiras. Parece fácil, mas diversos fatos ocorrem fazendo com que Sarah sofra por suas escolhas.

Shirley Manson do Garbage fez uma baladinha um tanto esquisita inspirada na história de JT LeRoy, chamada Cherry Lips.

Quanto ao outro livro, The Heart Is Deceitful Above All Things tornou-se um filme dirigido por Asia Argento e exibido um pouco antes da entrevista de LeRoy em São Paulo, desconheço tanto o livro, o filme, quanto a entrevista. Mas se LeRoy for tão excêntrico e manter a mesma linha de Sarah, eu terei de ler o livro, a entrevista, e assistir ao filme. Quando se acha um bom escritor (mesmo que pareça uma escritora) é bom sugar tudo que ele tem a oferecer.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo (“Uma delícia”) e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos (“Não é esquisito? Adorei”).

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de “Sarah” se dá quando ele (a essa altura “ela”) conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. “Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa”, diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna (“ela se alterna entre legal e fria comigo”), Gus Van Sant (autor da foto da capa de “Sarah”) e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música “Cherry Lips (Go Baby Go!)” em sua homenagem _Cherry Lips era também seu “nome de guerra”_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _”não o conheço, não tenho muito a dizer dele”_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de “família”. É com essa dupla que o autor de “Sarah” tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da “Folha” Erika Palomino. “Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo”, disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, “Sarah” será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos “há muito tempo”, tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy –
Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma “streetwise” (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy –
Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente “ouço” o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse “assédio”. É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme “The Heart Is Deceitful Above All Things” (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy –
Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como “i-D”, “Spin”, “New York Press” etc. É verdade?
JT LeRoy –
Hum… Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy –
(Pausa) Bem… Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy –
Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: “play” (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy –
O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi “The Heart Is Deceitful Above All Things”, uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy –
O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em “Sarah”). Pode-se dizer que é uma seqüência de “Sarah”.

Também fiz o roteiro de um episódio de “Deadwood” (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. “Deadwood” não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação “Blue’s Clues”, da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy –
Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: “Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!”.

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy –
Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro “The Liar’s Club”. Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy –
(Risos) Deixe-me pensar… Alguma coisa, muita coisa.

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A controvertida escritora Laura Albert retornou com o seu primeiro artigo a ser publicado desde o alvoroço causado pela notícia de que era ela a autora dos livros publicados sob o pseudônimo de JT LeRoy, que alcançaram tantos louvores e publicidade.

Seu artigo, “Judeus de Esquis” aparece no segundo número da revista premiada Lemon, especializada em cultura pop. Nesse artigo, Albert sugere que “o segredo da sobrevivência é a adaptabilidade.”

No mesmo exemplar da revista, de forma independente do artigo de Albert, aparece um editorial escrito pelo principal redator de Lemon, Robert Bundy e intitulado: “Sim, Virgínia, JT LeRoy existe”, que é reproduzido integralmente abaixo. “Trata-se de uma atualização do clássico editorial jornalístico em favor do Papai Noel, escrito por Francis P. Church em 1897,” disse Kevin Grady, o editor principal de Lemon e seu diretor de criatividade. “Ficamos bastante chocados com toda a confusão gerada pela revelação de quem JT LeRoy realmente era.”

Albert declarou que Lemon é “um trabalho de amor e uma obra de arte.” Lemon é publicada duas vezes por ano e foi criada por Grady e Colin Metcalf, também responsáveis pela publicação GUM sobre arte e projetos, aclamada pela crítica. O número atualmente nas bancas, cujo tema geral é “Espionagem”, inclui Andy Warhol, Sonic Youth, Mike Mills, Stefan Sagmeister, Jessica Craig-Martin e outros. Lemon se encontra disponível internacionalmente em Borders, Barnes and Noble, em Tower Records e em outras lojas.

Um pensamento sobre “JT LeRoy

  1. alice disse:

    Assisti o filme Maldito Coração e gostei…forte, autêntico, louco, edipiano…quero ler o livro mesmo sabendo que ele é fictício, e até prefiro que seja…mesmo sabendo que existam Sarahs e Jeremiahs por ai.

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