Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta

Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk necessária e primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de “Clube da Luta”. Seu primeiro livro, que foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher, (reunindo os astros Brad Pitt e Eduardo Norton), se transformou em uma obra de culto de tamanhas proporções que várias das idéias do autor contidas no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais a serem seguidos. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no cinema durante uma sessão do filme e atirou contra várias pessoas e, segundo ele, motivado pelos ideais do filme. Uma rápida “googleada” e se percebe que, mais do que debater os valores literários da obra, existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência nos “mandamentos” de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler Durden, o personagem anti-capitalista que no cinema foi representado por Brad Pitt.

Certo é que não se pode reduzir esta obra de Palahniuk, tão somente, a um livro de idéias violentas. Não obstante sua trama – Jack, um investigador em uma companhia de seguros que, não agüentando mais sua rotina comezinha sem significados e emoções e conhecendo Tyler, um maluco que gosta de resolver tudo na base da porrada, fundam o tal Clube da Luta, um local onde homens brigam entre si para extravasar toda a fúria que suas vidas rotineiras lhes causam. Mas a coisa começa a sair do controle, e o que era pra ser apenas uma seção de “psicanálise dolorida” passa a se transformar numa organização terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo – existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder e ostentação. “Clube da Luta” é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente.

Chuck Palahniuk teve, assim como as tramas de seus livros, uma vida insólita. Jornalista de profissão, Palahniuk já foi artista de rap, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. O acusado está no corredor da morte. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. O autor adora conversar sobre sua quase obsessão em fazer humor com episódios trágicos, sobre as referências anticonsumo presentes em suas histórias, sobre sua escrita enxuta e direta, e suas narrativas repletas de escatologia. Um exemplo notório disto é um conto do autor chamado “Guts” (vísceras), presente no livro “Haunted”, de 2005 e que foi publicado em março de 2004 na revista Playboy americana. No conto, com sua peculiar descrição direta e irônica, o autor narra episódios – verídicos, segundo ele – de obsessão masturbatória de três adolescentes dispostos a ir cada vez mais fundo para ampliar o seu espectro de prazer nesta prática. De inserção de cenouras no ânus até filetes de cera endurecida no orifício peniano, as taras realmente caminham para o extremo, passando por masturbação com asfixia e culminando para o jovem que se masturba dentro da piscina, sentado sobre o duto de sucção a lhe aspirar o ânus. Sem calcular o potencial de que é capaz tal duto, ficamos finalmente sabendo o porquê do “guts” do título. Em 2003, durante sua turnê para promover o romance “Diary”, o autor leu o conto para diversas platéias nos Estados Unidos. Mais de 75 desmaiaram ao ouvir a leitura. Confesso que quando o li não cheguei a tanto, mas é totalmente compreensível o motivo de tal fato. Quem quiser tirar a prova, pode conferir a tradução do conto Guts.

Depois de “Clube da Luta”, que é de 1996, o autor lançou “Survivor”, em 1999, que aqui no Brasil recebeu o nome de “Sobrevivente”, lançado pela editora Nova Alexandria. “Sobrevivente” compartilha com “Clube da Luta” o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa, começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas apenas para serem “funcionários perfeitos”. O personagem conta em prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade para trabalhar em casas de família – nas horas vagas aliciando moças e dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado. O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o indivíduo pode ser moldado – seja pela igreja através da culpa e êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios; pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo protagonista seqüestra um avião.

Em “Invisible Monsters”, de 1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas. Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado “doentio” em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor depois que Palahniuk estreou na literatura com “Clube da Luta”.

2001 é o ano de “Choke”, publicado pela Rocco no Brasil como “No Sufoco”, onde um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro.

O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra, entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora. Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela Humanidade.

Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem.

Quando em 2002, o autor lançou “Lullaby, a novel” (aqui no Brasil lançado pela editora Rocco com o nome “Cantiga de Ninar”), Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em “Cantiga de Ninar” Carl Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de realizar uma série de artigos sobre o que chamam de “Síndrome da Morte Infantil Súbita”. Durante a investigação ele descobre uma ligação sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças, de antologia “Pomas e rimas ao redor do mundo”, aberto na página 27 onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo. Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra, namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a raça humana.

O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros “musicômanos”, que se entretém com modelos prontos e alienantes de diversão (“Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo. Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.”).

Em “Cantiga de Ninar” o autor diminui um tanto, por exemplo, sua descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita.

Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado. Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o bastante tal qual os que se motivam por “ideais” como os propagados em “Clube da Luta” e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento – pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento (como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs espalhados pelo mundo.

Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que necessário saber até que nível esta “fobia consumista” do autor não encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal, não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela mais nova “modernidade literária”), também gera seus subprodutos e dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos adiantado de produção: “Sufoco”, “Survivor”, “Diary”, “Invisible Monsters” e “Lullaby”. Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.

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