Perfil de Paulo Coelho na ABL Academia Brasileira de Letras

Biografia

Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 24 de agosto de 1947. Filho do engenheiro Pedro Paulo Coelho e de Lígia Coelho. Fez seus estudos no Rio de Janeiro. É casado, desde 1981, com a artista plástica Christina Oiticica.

Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, jornalista e compositor. Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da musica brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Al Capone”, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Foi diretor da companhia discográfica CBS e do jornal Express Underground, professor de teatro e secretário de redação do jornal O Globo. Fundou a Revista 2001.

Atualmente, tem uma coluna semanal em O Globo, e em outros 48 jornais brasileiros. Escreve também para jornais do México, Argentina, Chile, Bolívia, Polônia, Itália, Espanha, Venezuela, Grécia, Taiwan, România, Alemanha e mais dez países.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

Em 1982, editou ele próprio seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher por considerá-lo “de má qualidade”.

Em 1986, fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, na Espanha, e, a partir dessa experiência marcante, escreveu O Diário de um Mago – O Peregrino, em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos se sucederam: Brida (1990), As Valkírias (1992), Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (1994), Maktub (coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de S. Paulo, 1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika Decide Morrer (1998), e O Demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos (2003), O Gênio e as Rosas – ilustrado por Mauricio de Souza (2004) e O Zahir (2005).

Paulo Coelho conseguiu ter três títulos ao mesmo tempo nas listas de mais vendidos na França, Brasil, Polônia, Suíça, Áustria, Argentina, Grécia, Croácia. De acordo com a revista francesa Lire, foi o segundo escritor mais vendido do mundo em 1998. Autor de um trabalho polêmico, tem críticos apaixonados – a favor em contra. O escritor italiano Umberto Eco elogiou Veronika Decide Morrer na revista alemã Focus. Sua obra foi traduzida em 56 línguas e editada em mais de 150 países. Fato notável em sua vida foi o de ter sido o primeiro escritor não muçulmano que visitou o Irã desde a revolução islâmica de 1979.

Fez também a adaptação de O Dom Supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um Profeta (Khalil Gibran).

O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o Prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres, a cantora Madonna e Julia Roberts, que o consideram seu livro favorito. A edição ilustrada pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien) já foi publicada em vários países. The Graduate School of Business of the University of Chicago recomenda o romance no seu currículo de leitura. Também foi adotado em escolas da França, Itália, Brasil, Estados Unidos, dentre outros países.

Já foi fonte de inspiração de vários projetos – como um musical no Japão, peças de teatro na França, Bélgica, EUA, Espanha, Portugal, Taiwan, Turquia, Itália, Suíça. É tema de duas sinfonias: na Itália, uma peça clássica pelo italiano Irlando Danieli para o Scala de Milão, e nos EUA, onde a BMG Classics lançou o CD “A Sinfonia do Alquimista”, pelo compositor Walter Taieb, inspirada em seu enredo.

Os direitos de filmagem de O Alquimista foram adquiridos pela Warner Brothers, que está desenvolvendo o roteiro do filme Onze Minutos pela Hollywood Gang Production e Verônika Decide Morrer pela Muse Productions (VS); e Monte Cinco pela Capistrano Productions.

Paulo Coelho pertence ao Board do Instituto Shimon Peres para a Paz, é Conselheiro Especial da UNESCO para “Diálogos Interculturais e convergências espirituais” e membro da diretoria da Schwab Foundation for Social Entrepreneurship, que distribuiu anualmente um prêmio de U$ 1 milhão para empreendedores sociais.

Mantém o Instituto Paulo Coelho, uma instituição sem fins lucrativos, financiada exclusivamente pelos direitos autorais do escritor. A idéia central não é fazer caridade, mas dar oportunidade às camadas menos favorecidas e excluídas da sociedade brasileira. Desta maneira, o Instituto concentra sua verba em: a) Infância; b) Terceira Idade.

Neste momento, o Instituto Paulo Coelho apóia com ajuda financeira pessoas menos favorecidas de Terceira Idade, e é co-patrocinador do projeto Creche Escola Meninos da Luz, Lar Paulo de Tarso (favela Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro), que cuida de 270 crianças.

Principais prêmios e condecorações
Prix Lectrices d’Elle (França, 1995)
Knight of Arts and Letters (França, 1996)
Flaiano International Award (Itália, 1996)
Super Grinzane Cavour Book Award (Itália, 1996)
Golden Book (Iugoslávia, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000 e 2004)
Finalist for the International IMPAC Literary Award (Irlanda, 1997 e 2000)
Comendador de Ordem do Rio Branco (Brasil, 1998)
Crystal Award – World Economic Forum (1999)
Golden Medal of Galicia (Espanha, 1999)
Chevalier de l’Ordre National de la Legion d’Honneur (França, 2000)
Crystal Mirror Award (Polônia, 2000)
Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
Club of Budapest Planetary Arts Award 2002 as a recognition of his literary work (Germany, 2002)
Best Fiction Corine International Award 2002 for The Alchemist (Germany, 2002)
Golden Bestseller Prize from the largest circulation daily “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
Ex Libris Award for Eleven Minutes (Serbia, 2004)
Nielsen Gold Book Award for The Alchemist (UK, 2004)
Order of St. Sophia for contribution to revival of science and culture (Ukraine, 2004)
Order of Honour of Ukraine (Ukraine, 2004)
The Budapest Prize (Hungary, 2005)
Goldene Feder Award (Germany, 2005)
Direct Group International Author Award (2005)

 

Bibliografia

Arquivos do Inferno. Ed. Shogun, 1982.
O Manual Prático do Vampirismo. 1985.
O Teatro na Educação. Ed. Forense Universitária autores, 1973.
O Diário de um Mago – O Peregrino. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1987.
O Alquimista. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
Brida. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1990.
O Dom Supremo (adaptação do livro de Henry Drummond) Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1991.
As Valkírias. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1992.
Na Margem do Rio Pedra Eu Sentei e Chorei. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Maktub (coletânea de seus melhores textos na Folha de S. Paulo). Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Palavras Essenciais. Ed. Vergara & Riba, 1995.
O Monte Cinco. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.
O Manual do Guerreiro da Luz. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1997.
Cartas de Amor de um Profeta (adaptação do livro de Khalil Gibran). Rio de Janeiro: ed. Ediouro, 1997.
Veronika Decide Morrer. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1998.
As Confissões do Peregrino (biografia escrita pelo jornalista espanhol Juan Arias a partir de seu depoimento). Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1999.
O Demônio e a Srta. Prym. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2000.
Histórias para Pais, Filhos e Netos (coletânea de contos tradicionais). Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2001.
Onze Minutos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.
O Gênio e as Rosas. Ilustrado por Maurício de Souza. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2004.
O Zahir. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2005.
A Bruxa de Portobello. São Paulo: Ed. Planeta, 2006.

 

Discurso de Posse

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.
Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:

“E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar.”
Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.” Por quê?

O que existe nessa estrada?

Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória? Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer: o sentido da vida é este.

Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.

Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:

“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?” Será, isto sim: “Como amei?”
O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.

Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”

Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar. Martin Luther King lembrava que os gregos possuem três palavras para designar esse sentimento: a primeira é Eros, o amor saudável e necessário entre dois seres humanos, que se buscam, se encontram, ou se desencontram. A segunda palavra é Philos, a paixão que nos empurra ao encontro da sabedoria, dos amigos, da filosofia, dos legados que nos deixaram as gerações anteriores. Finalmente existe a palavra Ágape, o amor maior, aquele a que – como bem lembra Martin Luther King – Jesus se referia quando disse: “Amai vossos inimigos.” Um amor que está além do ato de gostar, porque não podemos gostar de quem nos agride, nos ofende, é injusto em seus comentários, leviano em suas acusações, preconceituoso em seu julgamento. Não podemos gostar, mas podemos amar e, através do amor, entender que por detrás de cada atitude mesquinha e destruidora está um imenso desejo de ser compreendido, aceito, apreciado.

Então, a essência de Ágape está não apenas nos que aqui me precederam nesta Cadeira 21, mas em todos, em todas as cadeiras desta Casa, deste auditório, em todas as cadeiras do mundo. Basta apenas reunir coragem suficiente para lutar por seus sonhos, e – de novo me apoio em uma expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo – “combater o bom combate, e manter a fé.”

Em 1986, quando fazia o Caminho de Santiago em busca de uma espada, a mesma espada que daqui a pouco me será de novo entregue, simbolicamente, pelo acadêmico Josué Montello, eu compreendi pela primeira vez o sentido dessa expressão.

O Bom Combate é aquele travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempo dos cavaleiros andantes, isso era fácil, havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate veio dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem dentro de nós com todo o seu vigor – na juventude – temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, terminamos aprendendo, e então já não temos a mesma coragem. Por isso, nos voltamos contra nós, e nos transformamos em nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou frutos de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre têm tempo para tudo e para todos. As que nada fazem estão sempre cansadas, não dão conta do pouco trabalho que precisam realizar, e se queixam constantemente que o dia é curto demais. Na verdade, elas têm medo de saber onde vai dar a misteriosa estrada que passa pela sua aldeia.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos. Olhamos para além das muralhas do nosso mundo organizado, onde a ciência e a filosofia já têm todas as respostas, onde todas as dúvidas já foram resolvidas pelas ideologias, conceitos e preconceitos. Olhamos e vemos as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, sentimos o cheiro de suor e pólvora. Então dizemos, do alto de nossas torres de marfim: “Eles não sabem o que eu sei.” Com essa atitude arrogante, jamais percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para esses não importa nem a vitória nem a derrota, mas apenas olhar o mundo como se fosse uma pergunta – não uma resposta – e através dessa pergunta tentam dignificar suas vidas.

Raul Seixas descreve bem a alegria no coração dos guerreiros, ao escrever:

Prefiro ser
Uma metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém de nossa idade diz querer ainda isso ou aquilo da vida. Mas, na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o preço dessa paz foi nossa renúncia à luta por tudo que considerávamos interessante, e por tudo que nos entusiasmava fazer. Quando encontramos a paz, temos um curto período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir essa crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, num belo dia os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre de nossas certezas, de nossas ocupações, e da paz das tardes de domingo.
Nenhum dos ocupantes desta Cadeira 21 experimentou – graças a Deus – essa terrível paz. O teatrólogo Dias Gomes, em seu discurso de posse, chamou-a de “A cadeira da Liberdade”. O economista Roberto Campos a chamou de “Cadeira do Ecletismo”. Eu preferiria chamá-la, entretanto, de “Cadeira da Utopia”. Utopia em seu sentido clássico, referindo-me ao momento ideal da história da civilização na qual todas as conquistas do homem seriam consolidadas entre seus semelhantes; o país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, no qual um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. O fundador da Cadeira 21, José do Patrocínio, herói da Abolição da Escravatura, diz em um dos seus discursos. Cito:

“Dentro em três dias vai começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos. As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte.”

=Um quarto de século se passou, e outro, e muitos outros. Apesar da abolição da escravatura, todos nós sabemos que até hoje o sonho de José do Patrocínio ainda não se tornou realidade. Entretanto, ele nos legou sua utopia, e nós continuamos a lutar por ela. Sucedeu-o o poeta Mário de Alencar, descrito por todos como um homem tímido e recluso, cujo modelo de vida era o corajoso Sócrates. Suas obras só nos chegaram por causa da dedicação de seus filhos. Tinha como ideal a beleza pura, e comentava em um dos seus versos:

“Goza mulher teus dias
que as puras alegrias
vêm da ilusão.”

De novo a idéia utópica de um mundo no qual é possível, apesar da ilusão, permitir-se o prazer das grandes alegrias. O mesmo acontecia com o poeta Olegário Mariano, que o sucedeu: embora mais extrovertido em seu comportamento – afinal, são dele várias letras de músicas, uma das quais ainda cantamos: “Cai, cai, balão” – leva a sua utopia do terreno literário para o campo político, como antes fizera José do Patrocínio. Luta por um Brasil moldado no ideário de Getúlio Vargas.

Quero fazer uma pequena observação aqui: não me cabe, neste discurso de posse, julgar as afinidades partidárias dos ocupantes desta Cadeira, mas o empenho sincero que tiveram em procurar uma opção melhor para o Brasil, levando em conta suas convicções pessoais.

Como os seus predecessores, também Olegário Mariano quer seguir um sonho impossível. Ele mantém em seu horizonte os ideais utópicos da existência. Como nos versos a seguir. Cito:

“Vida! Quero viver todas as tuas horas, As que prendi na mão e as que nunca alcancei.”

Álvaro Moreyra, o cronista do Rio, é o próximo ocupante, um dos precursores do novo teatro brasileiro, que se declara adepto da utopia comunista. Deixa importante legado literário, que inclui um estudo sobre o teatro espanhol na Renascença, escrito em 1946, e a peça “Adão e Eva e outros membros da família (1929)”, que até hoje faz parte do repertório de muitas companhias teatrais. Em seu trabalho poético, de novo o mesmo louvor utópico à vida, que o acompanhou até nos dizeres de seu epitáfio:
O epitáfio de Álvaro Moreyra é o seguinte:

“Acreditei na Vida, e a Vida em mim. Depois, desandamos a rir de nós mesmos – os dois.”
O crítico Adonias Filho, que sucede Álvaro Moreyra, parte para uma utopia exatamente oposta: ex-integralista, defende o golpe militar de 1964. Mas é tão íntegro em suas convicções que merece o respeito de Jorge Amado, militante de campo exatamente oposto, que faz questão de recebê-lo nesta Casa. Provocador, irônico, Adonias Filho declara em um dos seus textos:

“Ainda se discute a utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão. Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca os leria depois…”

De novo o pêndulo da Cadeira 21 oscila para uma utopia oposta: é a vez de Dias Gomes entrar para a Academia Brasileira de Letras, trazendo em seu teatro e na sua vasta bagagem literária o sonho de um Brasil redimido pela vitória do oprimido sobre o opressor. Seu nome torna-se mundialmente conhecido quando uma de suas peças, “O Pagador de Promessas”, é transformada em filme e ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Dono de uma linguagem moderna, é levado pelas circunstâncias a escrever para a televisão, e o faz de maneira inovadora, criando obras que até hoje permanecem no imaginário do povo, como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”. Em uma de suas peças, “O Santo Inquérito”, a personagem Branca comenta sobre o abismo que separa o sonho da realidade:

“Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam … Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio.”

Com sua morte trágica, prematura, que privou o Brasil contemporâneo de uma de suas inteligências mais brilhantes, o pêndulo torna a oscilar e, em uma eleição onde a discussão sobre utopias foi a tônica, Roberto Campos consegue a maioria necessária para ocupar a Cadeira 21.

Lembro-me de, ainda jovem, ir para as ruas protestar contra sua política econômica – embora na época não tivesse sequer idéia do que isso significava. Fernando Sabino, porém, cunhou uma expressão primorosa: “Todo homem é incendiário aos vinte anos, e bombeiro aos quarenta.”

Aos quarenta anos, quando resolvi comprar o meu primeiro computador, vi um Brasil paralisado pela Lei da Informática, caminhando a passos largos em direção – não ao futuro, mas ao passado. Essa lei, que Roberto Campos tanto combatera, e que antes era uma abstração para mim, agora se transformava em algo concreto: estava me privando de um instrumento de trabalho. Ainda durante minha transição de incendiário a bombeiro, tive oportunidade de ler muitos artigos seus, e – mesmo a contragosto, já que sempre somos mais sectários do que ousamos admitir – terminei por lhe dar razão. O meu suposto inimigo de antes transformava-se em um homem capaz de defender com coerência e responsabilidade a sua utopia, buscando aí todas as tribunas possíveis.

Minha admiração chegou a tal ponto que, sabendo de uma noite de autógrafos de seu livro “Lanterna de Popa”, fui até a Gávea para encontrá-lo. Uma chuva torrencial impediu muitas pessoas de comparecer, e eu tive a oportunidade de privar, por meia hora, da sua intimidade e inteligência fulgurante. Firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, polêmico e provocador, Roberto de Oliveira Campos marcou a história do Brasil moderno. Correndo sempre o risco de não ser compreendido, era capaz de lutar até o fim por tudo aquilo que julgava melhor para nossa Pátria. Poucos foram os que se aplicaram em identificar profundamente o pensamento de Roberto Campos, e, entre estes encontra-se o jornalista Olavo Luz. Em sua biografia “Roberto Campos, o homem por detrás do mito”, Olavo nos deu uma dimensão humana desse Economista, Professor, Embaixador, Ministro de Estado, Senador, Deputado, e Acadêmico. Roberto Campos viveu entre o amor e o ódio.

Despertava a fúria raivosa dos contendores e a paixão extremada, quase uma religião, dos admiradores. Um episódio na vida do meu antecessor merece especial atenção: Corriam os chamados “anos de chumbo”, cujo prolongamento Roberto Campos tanto condenou, defendendo o retorno do poder à sociedade civil, após o governo Castelo Branco, que chamava de “arrumação da casa”. Carlos Lacerda, também um brilhante político e, naquele momento, em campo oposto ao então Ministro Extraordinário do Planejamento, cunhou uma frase histórica:

“O senhor Roberto Campos irrita a todos: mata os ricos de raiva e os pobres de fome”.
Impassível, Roberto Campos respondeu com uma outra frase histórica, que seria também uma declaração honrada de armistício:

“A violência da flecha dignifica o alvo”.
Muitas vezes, em momentos em que me sentia julgado com severidade excessiva pela crítica, me recordava dessa frase. E me lembrava de outro sonho, do qual eu não estava disposto a desistir: entrar, um dia, para a Academia Brasileira de Letras.

Há cinco anos, o acadêmico Eduardo Portella, durante o lançamento de “O Monte Cinco” na França, me se eu consideraria a possibilidade de uma candidatura. Perguntei se estava falando sério; ele disse que sim. Pouco tempo depois, Maria Eugenia Stein, amiga de longa data, resolveu promover um encontro com o então Presidente da Academia, Arnaldo Niskier. Retirei o sonho do meu coração, convidei-o para tomar um chá em minha casa, conversei abertamente sobre minhas pretensões, e tornei a guardar meu sonho em lugar onde pudesse contemplá-lo de vez em quando.

No dia 9 de outubro de 2001, eu participava do Festival de Autores e Cineastas, em Montecarlo. Conversava despreocupadamente com o diretor americano Sidney Pollack, quando meu telefone celular tocou: Roberto Campos havia morrido.

Pedi licença a Pollack, caminhei até a praia, fiquei contemplando o Mediterrâneo. Nos momentos em que precisamos tomar uma decisão muito importante, é melhor confiar no impulso, na paixão, porque a razão geralmente procura nos afastar do sonho – justificando que ainda não é chegada a hora. A razão tem medo da derrota. Mas a intuição gosta da vida, e dos desafios da vida. Eu também gosto, de modo que resolvi me candidatar, e confiei em meus amigos da Academia. Pessoas mais próximas me perguntavam: “Mas está mesmo na hora? Por que você não deixa isso para mais adiante?” Eu respondia: “Como é que você sabe que “mais adiante” é a hora certa?”

E segui em frente.

Vez por outra me lembrava de um episódio de minha adolescência: Com um grupo de amigos da Academia de Letras do Colégio Santo Inácio – onde cursava o ginasial – vimos até aqui para assistir a uma palestra. Foi preciso vestir terno e gravata, tomar o bonde, viajar muito tempo para chegar ao centro da cidade. Não me lembro da palestra, nem do palestrante – mas a primeira impressão desse lugar jamais saiu de minha cabeça.

Hoje, quase 40 anos depois, estou nesta tribuna, fazendo meu discurso de posse. O que era uma utopia de adolescente virou – no início da década de 90 – uma verdadeira heresia. Mas, como acontece com algumas heresias, esta também se transformou em realidade. Lutei por esse sonho, confiei em meus amigos, combati o bom combate e mantive a fé. Aprendi com Jorge Amado, o maior escritor brasileiro do século XX, o insubstituível, o grande, o generoso, o digno Jorge Amado, que as utopias são possíveis.

E hoje aqui com vocês, celebramos juntos.

Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seu trabalho com dignidade e dedicação. Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso anátema, mas não posso deixar passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro.

O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo sobre a glória do mundo:

“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exército, foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, virou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos.

“Certa noite, o homem teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.

“Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos.

“- Você foi um homem bom – disse-lhe o anjo. – Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.

“- A vida também foi boa para mim – respondeu o homem. – Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem.

“O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha.

“O homem chorou de alegria.

“- Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais – disse para o anjo, entre lágrimas. – Toda Roma se encantava com eles, e sei algumas de suas poesias de cor: gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.

“- Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma – disse o anjo. – Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército.

“O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:

“- Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus.

Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um centurião romano, converteu-se ao seu credo. Até que certa manhã chegou perto do Rabi.

“Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, disse não ser necessário.

“O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:

“- Estas são as palavras do seu filho soldado – disse o anjo ao homem. – São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas:

“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. A glória do mundo é transitória, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos – como o centurião romano – que deixam as marcas mais duradouras. Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente. Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.

O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.

Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que levam escritores a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Muito obrigado.

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O escritor, meus amigos, é um pobre ser frágil cheio de vaidade e solidão. A grande ilusão de Luiz Fernando Emediato

Jornalista e escritor vencedor de vários prêmios literários, e dos prêmios Esso de Jornalismo e Rei de Espanha de Jornalismo Internacional. Criador do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo e responsável pela introdução do “âncora” na televisão brasileira. Autor de “Trevas no Paraíso”, “Geração Abandonada”, entre outros livros. É editor da Geração Editorial. As crônicas desta seção foram publicadas no Caderno 2 e no livro “A grande ilusão”.

http://www.geracaobooks.com.br/

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A Solidão do Criador

Quando a solidão do artista
é maior, e mais amarga, que a
comum solidão dos seres

Esta semana eu tive uma experiência inesquecível. Fui entrevistar um dos mais
famosos músicos brasileiros, conhecido por sua timidez e laconismo, e ele, muito à vontade, discorreu durante quase três horas sobre sua infância, sua pobreza, sua emocionante luta para ser um dia um grande artista, aquele que vai sempre onde o povo está, para dividir com ele o embriagante pão da poesia.

Não vou dizer quem é, pelo menos por enquanto: a entrevista vai ser publicada até o próximo domingo. Mas o que eu queria dizer é que, no final da conversa, gravador já desligado, ele olhou para o mar através da janela – estávamos no Rio –, suspirou profundamente, virou-se para mim e disse:

– Eu queria dizer mais uma coisa.

Esperei, surpreso, e então, como se queixasse, ele falou:

– Engraçado. A gente canta em tantos lugares do mundo, para cinco mil, dez mil, quinze mil pessoas, e então elas dançam, algumas choram, aplaudem, vibram com minha música. É como se fosse uma missa, com emoções compartilhadas – mas depois todos vão embora e eu vou para o camarim e fico lá sozinho. Depois eu vou sozinho para o hotel, ou para a minha casa, e me pergunto: para onde foram as pessoas?

Silêncio. Ele respira, olha para a parede vazia, baixa os olhos e conclui:

– Eu me sinto muito solitário.

Todos nós sofremos, uma vez ou outra, por causa da solidão. Eu me lembro de quando estava em El Salvador, cobrindo a guerra civil, e à noite, sozinho no meu quarto de hotel, não tinha com quem dividir o sofrimento por ter visto, durante o dia, tanto horror: crianças mortas a tiros e bombas, jovens esquartejados e queimados, soldados quase crianças lutando contra seus parentes guerrilheiros.

Em 1978, quando escrevi uma série de reportagens sobre a cidade de São Paulo e as pessoas que vivem aqui, descobri uma coisa desconcertante: há em São Paulo 300 mil pessoas que moram sozinhas, em pequenos apartamentos, no espaço vazio das mansões, debaixo das pontes e dos viadutos e até – pasmem – nos túmulos vazios dos cemitérios, como no do Araçá, onde vivia uma moça num belo túmulo-capela. Em São Paulo, informavam então as frias estatísticas do IBGE, todos os dias pelo menos dez pessoas tentam matar-se, de tédio, desespero – ou solidão.

Muitas delas não são realmente solitárias – convivem com seus familiares, têm amigos, trabalham em ambientes onde dezenas de pessoas compartilham com elas, diariamente, seus pequenos ou grandes problemas pessoais. Um dia o jornalista José Maria Mayrink escreveu uma série de reportagens depois publicada em livro. O título foi Solidão (não adianta procurar nas livrarias, pelo menos agora. O livro está esgotado). Mayrink descobriu, de maneira comovente, a solidão dos que vivem num grande aglomerado urbano, São Paulo. Milhões de pessoas juntas. E, apesar disso, solitárias.

Eu estava aqui pensando na terrível solidão do congressista honesto – coisa rara, hoje em dia – que chega ao Congresso, em Brasília, vai ao plenário e discursa, solitário, para um ou dois companheiros. Ou do presidente da República, que, na solidão de seu gabinete, tem de decidir sobre o destino de mais de 130 milhões de brasileiros. Como Deus, que antes de criar o mundo deve ter sido muito, muito solitário.

Pensando entretanto na solidão de uns e outros, no amargo isolamento dos que sonham em dividir com alguém um sorriso, uma palavra amiga, uma opinião, volto ao início desta crônica: é terrível, sim, a solidão do artista. Porque o artista se entrega, de corpo e alma, aos que buscam sua arte, e ele se entrega porque tem necessidade de amar e ser amado. O mais amargo nesta história toda é que, quanto mais querido, quanto mais amado, mais solitário às vezes ele pode ser. Tão solitário quanto por exemplo os escritores. Quando, no silêncio de seu gabinete, eles têm apenas um papel entre seus dedos e a máquina, os escritores são, sem dúvida, os mais solitários dos seres.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Balada Triste
29-11-2006

Perdido em lembranças,
papéis e naufrágios,
um homem pensa e sofre

então ele olha a gotinha cristalina da chuva escorrendo pela folha verde e uma grande saudade invade o seu triste e solitário coração. O cheiro de terra molhada, a chuva na vidraça, o vidrinho com a água açucarada para atrair o beija-flor movendo-se como um pêndulo, empurrado pelo vento: isso é belo, ele pensa, mas como é triste!

Trinta e seis anos. Metade da vida já se foi, e então ele começa a ter saudades da infância, a inocência dos olhinhos arregalados perguntando pelo sentido das coisas, os brinquedinhos de madeira, o cheiro de jasmim nas roupas, o pai ausente, a mãe gritando com os irmãos. Tão longe.

O céu cinzento anuncia tempestade, relâmpagos, trovões. Então ele anda pela casa, calado, curvado, o coração apertado de angústia e lembranças. A calça curta, as pernas finas, a adolescência chegando, o medo do sexo e da vida, o primeiro beijo. Espinhas no rosto. Timidez.

Que estranha é a vida! Que estranho e grande é o mundo, pensa, olhando no espelho os primeiros fios brancos na barba, as rugas ao redor dos olhos, o vinco amargo e seco ao redor dos lábios. Tenta rir, sai uma careta feia e dolorida. Carne. Carne.

E então ele desiste de olhar a chuva lá fora, a água nas folhas, o céu cinzento e anda pela casa buscando tudo e nada, pedaços de coisas, frangalhos, quebra-cabeças. Mexe nas gavetas, nos papéis, nas fotografias. A mãe sorri em uma delas, jovem e feliz. O rosto severo do avô morto. O irmão briguento. O tio alcoólatra morto aos 33 anos, de cirrose. O parente distante que enlouqueceu e deu um tiro no ouvido. O primo que fugiu para ser padre. Vida. Vida.

Tem alergia de papéis velhos e espirra. Mas segue em frente e vê: esboços de histórias, contos, romances e poemas que não escreveu e jamais escreverá. Bilhetes, cartas que não respondeu, versos de amor para alguém e para ninguém. Um soneto apaixonado escrito aos 17 anos em um papel amarelo e manchado; lágrimas. E então ele se lembra, com amargura, que já não consegue chorar, nem nada. Que pena.

Abre e fecha as gavetas, cheio de ansiedade e pressa. Rostos que já não reconhece desfilam entre seus dedos nervosos. Mas há aqueles que jamais esquecerá: Teco, o amigo fiel que se perdeu pelo mundo; Cândida, o primeiro amor; Regina, a primeira e desvairada paixão; Juan, que não se chamava Juan e morreu na guerra; Caio, o escritor sensível e bom, mas tão trágico, tão triste, tão frágil…

Caio fazia perguntas e dava conselhos: “Viver para quê?”. Ou: “Meu irmão, a gente tem de descobrir maneiras de ficar forte”. Ou: “Não se preocupe demais. Relaxe. Navegue”. E então: “Foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Cuide bem de você”. E a data: 19 de maio de l977. Dez anos depois, nada restou além da fria distância entre os dois: olhares furtivos; fugas; silêncios.

Lê, comovido, e pensa: o tempo separa as pessoas, e as idéias também. O que mais separa as pessoas além do orgulho, a sensibilidade exagerada, a incompreensão? Nada vale uma amizade. E então lê, no papel amarelo onde o amigo datilografava as cartas (e a máquina dele tinha até nome, Virgínia Woolf: “Releio Alice no País das Maravilhas e descubro que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda não conseguiu entender nada. Ou conseguiu entender tudo (jamais saberei)”.

Jamais, pensa então. Jamais. E então ele anda pela casa, olha os filhos brincando – inocentes, felizes, quanta beleza! – e se pergunta se não está sofrendo por estar fazendo sofrer. Quem sabe? (Jamais saberemos.)

Perguntas doem. Respostas também. Então ele desiste de fazer perguntas e buscar respostas, vai para a varanda, senta-se na cadeira de balanço, fecha os olhos e ouve apenas o ruído das últimas gotinhas de chuva deslizando pelas telhas e pelas folhas das árvores. Sonha com elfos, duendes, camaleões, fadas, uma princesa alta e branca de cabelos pretos como azeviche – um rosto igualzinho ao da Melanie Grifith, totalmente selvagem. Acorda sorrindo sem saber por quê.

A chuva parou. Um sol frágil e frio despeja luz sobre as gotículas de água. Então ele se ergue, olha o relógio, descobre que está atrasado para o trabalho e corre. Beija as crianças, despede-se apressadamente, tropeça nas pedras do jardim, entra no carro e sai. Até chegar ao trabalho cantarola inconscientemente a letra de uma velha canção chamada Balada Triste. É uma canção cuja letra fala de outra canção que faz o cantor lembrar-se de alguém – alguém que existe dentro do seu (dele) coração. O dele, porém, é um coração vazio e solitário e talvez nem exista. Talvez nem o homem exista. Talvez suas próprias lembranças não existam. Talvez existam apenas as palavras, estas que escrevo. Que pena.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992.

Queridos Leitores

Tenho pensado seriamente em pôr um fim à minha vida.” Era terça-feira, eu tinha acabado de chegar ao jornal para começar mais um dia de minha vida efêmera e frágil e a carta estava lá, sobre a mesa: um envelope branco, subscrito com letra bem desenhada, feminina – alguém que assinou apenas como Kamikaze. Alguém sem nome e endereço. Alguém amargurado e triste.

Olhei em volta e vi pessoas trabalhando, silenciosas ou não, cada um com seu destino. Na mesa mais próxima, Glorinha, Ana Cândida, Enedina, Motta e Charles tinham o rosto triste: Alexandre Bressan, nosso colega, tinha sido assassinado com dois tiros no final de semana. Trinta e cinco anos, uma vida inteira pela frente. E, no entanto, em algum lugar desta São Paulo fria e grande, uma mulher solitária diz que pensa em morrer.

Há sol lá fora, são 9 horas da manhã. Os automóveis passam pela avenida marginal do rio Tietê conduzindo homens, mulheres e crianças: passageiros habitantes deste planeta azul. Daqui da janela sou apenas um homem comum com uma carta desesperada entre os dedos. Foi escrita no dia 9 de novembro por uma mulher com mais de 35 anos, que estudou química e estava, naquele dia, desempregada e sem vontade de viver.

Recebo cartas todos os dias. Alguns leitores escrevem todas as semanas. Quase sempre é bom. Outras vezes, não. Dulceli Nogueira (Lila), de Ribeirão Preto, quer que eu volte a acreditar em Deus e conforta minha descrença com belas citações da Bíblia. G. H. Wills, de Vargem Grande Paulista, avô de dois, sem dúvida, belos netinhos, Tati e Du, é um homem de fé que compreende e aceita minha descrença, e escreve quase sempre me confortando quando estou amargurado, ou se alegrando comigo quando faço força para ter esperança.

Regina quer ser minha namorada. Não dá, querida: minha Sylvia não iria gostar. Nem você, talvez: as pessoas fazem uma idéia da gente quando não nos conhecem – poderia ser, console-se, uma enorme decepção. Pedro Sena (ou será Souza? Ou Serra?) escreve dizendo que tenho me lastimado demais aqui neste espaço e que não adianta chorar – o jeito é entrar no Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Também não dá, Pedro: o seu partido é conservador demais. Vai ser difícil dar as mãos, como você pede, para os seus camaradas: já lhes dei as mãos há dez anos, quando quis ser comunista e tive grande apoio do Partido, até que um dia quis pensar com minha própria cabeça e os camaradas não tiveram dó nem piedade – cortaram minhas mãos e quase levaram a cabeça junto. Seja feliz, Pedro – mas fico aqui do meu canto anarquista, cheio de dúvidas e incertezas. Para o Partidão, Pedro, nem com perestroika. Seja feliz com a foice, o martelo e a sua comovente certeza de que “o socialismo deu certo na metade do mundo”. Será?

Paulo, um publicitário, quer meus préstimos para conhecer minha amiga Susana Kakowicz, uma judiazinha polaca que conquistou corações (inclusive o meu) escrevendo duas ou três vezes aqui mesmo neste espaço dominical e depois sumiu sem dar notícias.

Volta, Susana, volta. Mas pior é um sujeito que tem um projeto agropecuário e telefonou pedindo que o auxiliasse a mostrá-lo para o empresário Sílvio Santos, com direito a comissão e tudo. Cada coisa…

Há também os que ameaçam – são sempre anônimos – e que telefonam insultando e gritando palavrões, toda vez que reclamamos, por exemplo, da imoralidade com que os homens públicos destroem o que sobrou deste país. Pobre gente.

“Leitor e eu formamos um bicho composto, uno e dividido, uma parte querendo engolir a outra”, escreveu uma vez o grande e bom Carlos Drummond de Andrade, aquele que procurou sempre “extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam”.

Queridos leitores. Bons e cruéis leitores. Carentes leitores. Um deles, severo, diz que só tenho escrito coisas amargas, sombrias. É verdade: não tenho o talento do Osmar Freitas Jr. ou do Carlos Antônio Castelo Branco para brincar com as coisas. De resto, brincar como? Baixo os olhos, vejo a carta dessa mulher anônima que se assina Kamikaze, e penso, então, sobre as tristes e alegres coisas da vida. A vida é amarga, Kamikaze querida. A vida é dúvida, como escreveu uma vez meu amigo Adão Ventura, mas também é dádiva. Por isso, não se mate, meu bem. Por favor, não se mate. Morrer é muito pior que viver.

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O Sentido da Vida

Perguntas demais,
respostas de menos. Uma luz
no fim da escuridão?

O sentido da vida é nascer, crescer, envelhecer e morrer, deixando sob a terra
este antigo corpo constituído da solitária e silenciosa matéria de que foram feitas as estrelas e seus filhos, e os filhos de seus filhos, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

O sentido da vida é descobrir alegre ou amargamente a consciência das coisas, da alegria e da dor, da tristeza e do tédio, e então alegrar-se ou entristecer-se, corada ou pálida personagem de uma peça absurda, uma tragédia, comédia, ópera bufa, ou não?

Sim, o sentido da vida é este – ou não.

Será o sentido da vida amar e odiar seu irmão, em silêncio ou aos gritos, perdoar, ser perdoado, caminhar com firmeza ou vacilante sobre o abismo, cair e erguer-se, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

Será porventura o sentido da vida caminhar juntos sobre a mesma velha e generosa e solitária terra, dividir angústias e dor, enredar-se no cipoal das palavras, dizer sim, ser entendido não, dizer não, ser entendido sim, ou não?
Sim, o sentido da vida é este. Ou não.

Será o sentido da vida buscar luz nas sombras ou sombras na luz, consumir dias e noites a trilhar o áspero caminho imperfeito, buscar o caminho reto, a verdade, e descobrir então o caminho torto, a estrada estreita e, no fim da estrada, apenas neblina, mistério, horror, escuridão?

Sim, o sentido da vida é bem este, ou não.

Será, meu Deus, o sentido da vida acreditar em Deus ou alguma coisa superior à capacidade de entender, cair de joelhos e em prantos pedir caridade ou outro vago sentimento qualquer, e nada ouvir em resposta, ou sim, ouvir então uma voz silenciosa, inexistente e fria e, então, chorar, dormir, sonhar, tudo em vão?
Sim, o sentido da vida é bem este – ou não.

Será o sentido da vida crer na dourada utopia, descobrir então a insustentável fragilidade dos seres, o poder, a miséria, o horror da humana e frágil condição?
Sim, é bem este, ou não, o sentido da vida. Ou não?

Estará o sentido da vida em sonhar o sonho impossível, alcançar a estrela inatingível, vencer o inimigo imbatível, tocar a realidade intangível, e encontrar nada mais que pesadelo, o nada, a queda, a fantasia, miragens, ou não?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Será o sentido da vida entregar-se apaixonadamente às idéias de grande extensão, consumir-se como o fogo e ver apagar-se a chama, a pedra virar pó, a brasa virar carvão? Será, criaturas, o sentido da vida consumir o sangue das veias, esgotar a serenidade, despentear os cabelos, perseguir a ilusão?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Porque se existe sol também existe a lua, e a noite pode ser tão clara às vezes quanto o mais claro dos dias, ou não; mas se há perguntas demais e respostas de menos sempre haverá a busca, a esperança, a viva luz no fim da escuridão.
Porque é isto – buscar – o sentido da vida. Ou não.

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Somos todos assassinos
27-03-2007

A morte, a violência,

a solidão. Pequenos e

grandes assassinatos

Carlos Drummond de Andrade morreu. Era o que restava de poesia. Sobraram

vates patrióticos, canastrões dramáticos, revolucionários de botequim e robôs efêmeros cantando ninfetas narcóticas, calcinhas comestíveis, polícia. Sinal dos tempos?

***

(…)

Um leitor escreve e é sempre a mesma coisa: você fala demais da morte. De Deus, em que não acredita. Do amargo ato de viver. Você precisa acreditar. Bem que gostaria – e é desesperador descobrir essa terrível vontade. Não seria uma rima, talvez fosse uma solução. Mas não adianta: a fé é só um fio entre o ser e o nada.

***

(…)

***

E então silenciamos. Por quê?

***

Somos todos assassinos.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Blogalização

Um weblog, blog ou blogue é uma página da Web cujas atualizações (chamadas posts) são organizadas cronologicamente de forma inversa (como um diário). Estes posts podem ou não pertencer ao mesmo gênero de escrita, referir-se ao mesmo assunto ou ter sido escritos pela mesma pessoa.

O weblog conta com algumas ferramentas para classificar informações técnicas a seu respeito, todas elas são disponibilizadas na internet por servidores e/ou usuários comuns. As ferramentas abrangem: registro de informações relativas a um site ou domínio da internet quanto ao número de acessos, páginas visitadas, tempo gasto, de qual site ou página o visitante veio, para onde vai do site ou página atual e uma série de outras informações.

Os sistemas de criação e edição de blogs são muito atrativos pelas facilidades que oferecem, pois dispensam o conhecimento de HTML, o que atrai pessoas a criá-los.

A Deutsche Welle premia a cada ano os melhores weblogs internacionais em onze categorias no evento The Bobs – Best of Blogs.

Jorn Barger, autor de um dos primeiros FAQ – Frequently Asked Questions, foi o editor do blog original [robotwisdom http://www.robotwisdom.com/] e concebeu o termo – “weblog” – em 1997, definindo-o como uma página da Web onde um diarista (da Web) relata todas as outras páginas interessantes que encontra. O blog de Barger tem uma aparência diferente dos atuais e ainda hoje mantém a mesma interface de quando foi criado. O termo foi alterado por Peter Merholz, que decidiu pronunciar “wee-blog”, que tornou inevitável o encurtamento para o termo definitivo “blog”. Rebecca Blood, pioneira no uso de blogs, relatou suas experiências, explicando que em 1999, os blogs eram distintos tanto em forma como conteúdo das publicações periódicas que os precederam (ezines e journals). Eles eram rudimentares em design e conteúdo, mas aqueles que os produziam achavam que estavam realizando algo interessante e decidiram ir adiante. Os blogueiros referenciavam entradas interessantes em outros blogs,normalmente adicionando suas opiniões. Créditos eram concedidos a um blogueiro individual quando outros reproduziam os links que este havia encontrado. Devido à freqüente interligação entre os blogs existentes na época, os críticos chamaram os blogueiros de incestuosos, que por sua vez sabiam que amplificavam as vozes uns dos outros quando criavam links entre si. E assim a comunidade cresceu. Os blogueiros pioneiros trabalharam para se tornar fontes de links para material de qualidade, aprendendo a escrever concisamente, utilizando os elementos que induziam os leitores a visitar outros sites.

O panorama mudou quando, naquele mesmo ano de 1999, diversas empresas lançaram softwares desenvolvidos para automatizar a publicação em blogs. Um destes softwares, chamado Blogger, apresentava enorme facilidade para publicação de conteúdo, e com a sua interface privilegiando a escrita espontânea, foi adotado por centenas de pessoas. O conhecimento tecnológico para manutenção de uma ferramenta para publicação na Web passou a não ser mais um requisito. A estrutura técnica era gerenciada pela empresa, que também oferecia a criação de blogs a custo zero, assim como os valores agregados: um item em um blog possui valor de produção irrisório comparado com o de um artigo veiculado na grande mídia. Essa adoção em massa, e a não utilização dos links como o elemento central da forma, causou controvérsia na comunidade original blogueira. Eles acusavam os blogs gerados pelos novos softwares de serem simplesmente diários, e não blogs – e o que representava os blogs “de verdade” eram os links. Alguns achavam que com a seleção criteriosa e justaposição de links, os blogs poderiam se tornar uma importante nova forma de mídia alternativa, agregando informações oriundas de diversas fontes, revelando diferentes pontos de vista e talvez, influenciar a opinião em larga escala – uma visão chamada “mídia participativa”.

Mas a mensagem passou a modelar o meio. No início de 2000, Blogger introduziu uma inovação – o permalink, conhecido em português como ligação permanente ou apontador permanente – que transformaria o perfil dos blogs. Os permalinks garantiam a cada publicação num blog uma localização permanente – uma URL – que poderia ser referenciada. Anteriormente, a recuperação em arquivos de blogs só era garantida através da navegação livre (ou cronológica). O permalink permitia então que os blogueiros pudessem referenciar publicações específicas em qualquer blog. Em seguida, hackers criaram programas de comentários aplicáveis aos sistemas de publicação de blogs que ainda não ofereciam tal capacidade. O processo de se comentar em blogs significou uma democratização da publicação, consequentemente reduzindo as barreiras para que leitores se tornassem escritores.

A blogosfera, termo que representa o mundo dos blogs, ou os blogs como uma comunidade ou rede social, cresceu em ritmo espantoso. Em 1999 o número de blogs era estimado em menos de cinqüenta; no final de 2000, a estimativa era de poucos milhares. Menos de três anos depois, os números saltaram para algo em torno de 2,5 a 4 milhões. Atualmente existem cerca de 70 milhões de blogs e cerca de 120 mil são criados diariamente, de acordo com o estudo State of Blogosphere.[1] O estudo revela que a blogosfera aumentou em 100 vezes nos três últimos anos e que atualmente ela tende a dobrar a cada seis meses. Esse aumento significativo no número de blogs ao longo dos anos, fez com que a grande mídia desse maior importância ao fenômeno: entre 1995 e 1999 apenas onze artigos jornalísticos sobre blogs foram publicados. No ano de 2003, estima-se que 647 artigos foram publicados.

Provavelmente a maior diferença entre os blogs e a mídia tradicional é que os blogs compõem uma rede baseada em ligações – os links, propriamente. Todos os blogs por definição fazem ligação com outras fontes de informação, e mais intensamente, com outros blogs. Muitos blogueiros mantêm um “blogroll”, uma lista de blogs que eles frequentemente lêem ou admiram, com links diretos para o endereço desses blogs. Os blogrolls representam um excelente meio para observar os interesses e preferências do blogueiro dentro da blogosfera; os blogueiros tendem a utilizar seus blogrolls para ligar outros blogs que compartilham os mesmos interesses.

Blogueiro (português brasileiro) ou bloguista (português europeu) ou ainda blogger são palavras utilizadas para designar aquele que escreve em blogues. O universo dos blogueiros (a soma de tudo o que está relacionado a este grupo e este grupo em si) é conhecido como blogosfera.

No dia 31 de agosto, comemora-se o Dia do Blog (devido a semelhança da data 31.08 com a palavra blog), que se propõe a promover a descoberta de novos blogues e de novos blogueiros.

O rock brasileiro ou BRock

O rock brasileiro ou BRock (conhecido no Brasil de rock nacional) é um estilo musical derivado do rock, que teve início nos anos 50 e 60, mas só começou a ter força nos anos 80.

Prólogo – anos 40

Apesar de muitos estudiosos acreditarem que a primeira gravação de rock no país coube à cantora Nora Ney — que, aliás, começou a carreira radiofônica com o nome de Nora May, e cantando em inglês — o primeiro disco de rock foi gravado pelo veterano Gilberto Alves (disco RCA Victor 80.0598-a). O título da composição é Bonitão, de Marino Pinto e Mário Rossi — uma composição nacional e com letra registrada no longínquo ano de 1949. Durante o solo instrumental, pode-se notar de forma bastante nítida a batida e as intervenções de metais que bem caracterizam o rock propriamente dito, formalizado por Bill Haley e Seus Cometas.

Este tipo de arranjo faz parte das raízes do rock and roll e do estilo de um dos predecessores, o jazz dançante das big bands. Outro exemplo de “disco de rock” brasileiro pre-histórico nesta linha é Dizem Que Sou Um Mau Rapaz, composição de Custódio Mesquita gravada por Francisco Alves (disco Odeon de número 12.028-b, gravado e lançado em 1941).

Anos 50

O “pontapé inicial” do rock no Brasil foi Nora Ney (conhecida cantora de samba-canção) gravar o considerado primeiro rock, “Rock around the Clock”, de Bill Haley & His Comets (trilha do filme Sementes da Violência), em outubro de 1955, para a versão brasileira do filme. Em uma semana a canção já estava no topo das paradas (mas Nora Ney nunca mais gravou nada no gênero, tirando a irônica “Cansei do Rock”, em 1961). Em dezembro, a mesma canção recebia versão em português, “Ronda das Horas” (por Heleninha Ferreira) e outra gravada por um acordeonista, não tão bem sucedidas quanto a “original”.

Em 1957, foi gravado o primeiro rock original em português, “Rock and Roll em Copacabana”, escrito por Miguel Gustavo (futuro autor de “Para Frente Brasil“) e gravada por Cauby Peixoto. Entre 57 e 58, diversos artistas gravaram versões de músicas americanas, como “Até Logo, Jacaré” (“See You Later, alligator”),”Meu Fingimento” (“My Great Pretender”) e “Bata Baby” (Long Tall Sally).

Embora em 57 o grupo Betinho & Seu Conjunto, de “Enrolando o Rock” tenha alcançado grande fama, os primeiros ídolos do rock nacional foram os irmãos Tony e Celly Campelo que, em 1958, lançaram o compacto Forgive Me/Handsome Boy, que vendeu 38 mil cópias. Tony gravaria mais dois singles até seu álbum em 1959, e Celly estourou em 1959 com “Estúpido Cupido” (120 mil cópias vendidas), chegando a ter boneca própria (com a qual aparece na capa de seu LP “Celly Campello, A Bonequinha Que Canta”).

Os Campello também apresentariam Crush em Hi-Fi na Rede Record, programa totalmente voltado para a juventude, que revelou diversas bandas.Outros programas também surgiram para aproveitar a “febre” como Ritmos para a Juventude (Rádio Nacional-SP), Clube do Rock (Rádio Tupi -RJ) e Alô Brotos! (TV Tupi). Em 1960, surgira até a Revista do Rock.

Anos 60

O começo da década foi marcado pelo surgimento de grupos instrumentais como The Jet Black’s, The Jordans e The Cleevers (futuros Os Incríveis), e do cantor Ronnie Cord, que lançaria dois “hinos”: a versão “Biquini de Bolinha Amarelinha” e a rebelde “Rua Augusta”.

Até que surge um capixaba que se tornaria o maior ídolo do Rock Nacional dos anos 60 e, posteriormente, o maior nome da música brasileira: Roberto Carlos, que emplacou dois hits em 1963: “Splish Splash” e “Parei na Contramão”. No ano seguinte, obteve mais sucessos como “É Proibido Fumar” (mais tarde regravada pelo Skank) e “O Calhambeque”. Aproveitando o sucesso, a Rede Record lançou o programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto (“Rei”), seu amigo Erasmo Carlos (“Tremendão”) e Wanderléa (“Ternurinha”). Só nas primeiras semanas, atingira 90% da audiência.

Seguindo o sucesso das Jovem Guarda, surgem entre outros, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Ronnie Von, que tinham seu som inspirado nos Beatles (o gênero apelidado “iê-iê-iê”) e no rock primitivo. A Jovem Guarda também levou a todo tipo de produto e filmes como Roberto Carlos em Ritmo de Adventura (seguindo a trilha de A Hard Day’s Night e Help! dos Beatles).

Apesar disso, os artistas da MPB “declararam guerra” ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, chegando a um protesto de Elis Regina, Jair Rodrigues, entre outros, conhecido “Passeata contra as guitarras elétricas”. O programa terminaria em 1968, com a saída de Roberto Carlos.

Então, surgiria a Tropicália. Em 1966, surgiram Os Mutantes: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com seu deboche e som inovador. Em 1967, a dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil faria as canções “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, apresentadas no III Festival da Rede Record. No ano seguinte, o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band fascinou a dupla, levando a apresentações vaiadas em festivais de Record e Excelsior, e ao álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circensis, com Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Capinan, Rogério Duprat e Nara Leão, considerado um dos melhores álbuns brasileiros da história.

Os Mutantes também criariam carreira grandiosa, com álbuns elogiados a partir de 1968 e chegando a influenciar até Kurt Cobain, do Nirvana. O grupo começaria a se desmanchar com a saída de Rita Lee, em 1973.

Anos 70

O endurecimento da ditadura militar levou Caetano e Gil ao exílio em Londres, onde viveram de 1969 a 1972. Durante o período, gravaram dois discos considerados dos seus melhores, Transa (Caetano), e Expresso 2222 (Gil).

Após sair dos Mutantes no final de 1972, Rita Lee iniciou uma muito bem sucedida carreira solo, acompanhada do grupo Tutti Frutti. Arnaldo Baptista também gravou o aclamado Loki? (1974). Os Mutantes ainda atravessaram a década convertidos ao rock progressivo, passando por várias formações e dissolvendo-se em 1978.

Em 1973, surgiram Secos & Molhados, liderados por João Ricardo, com Ney Matogrosso como vocalista, que faziam a chamada “poesia musicada”, com canções muito bem elaboradas como “Rosa de Hiroshima” ou “Prece Cósmica”, apesar de alguns flertes menos poéticos e mais divertidos como “O Vira”. Dois álbuns e um ano depois, em 1974, o grupo com sua formação clássica (João, Ney e Gerson Conrad) se desfez.

Em 1973 também surgiu outro ícone: Raul Seixas, que vendera 60.000 compactos de “Ouro de Tolo” em poucos dias e se tornaria “bardo dos hippies” com músicas debochadas como “Mosca na Sopa” e “Maluco Beleza”, esotéricas como “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” (composta em parceria com o futuro autor Paulo Coelho) e “Gita”, e as motivacionais “Metamorfose Ambulante” e “Tente Outra Vez”.

Movimentos surgiram em outros locais do Brasil: em Minas Gerais, o “Beatlesco” Clube da Esquina, liderado por Milton Nascimento e Lô Borges; e no Nordeste, a “nova onda” dos Novos Baianos, além da chamada “Invasão Nordestina”: artistas que misturaram o sertanejo ao rock, como Fagner, Zé Ramalho e Belchior.

Mesmo com o pouco espaço na mídia, várias bandas e estilos se destacavam no circuito underground da época, como o progressivo regional de O Terço (que chegou a gravar um álbum em inglês voltado para o mercado italiano), o hard rock do Made in Brazil, o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabyra e o hard progressivo do Casa das Máquinas.

Anos 80

Atribui-se a esta década a popularização do rock brasileiro, movimento que surgiu para aproveitar a onda do estilo musical (rock) que já havia se consagrado mundialmente nos anos 70. Muitas bandas deste estilo, como o Ultraje a Rigor e Ira! permanecem ativas até hoje, fazendo apresentações por todo o Brasil. Outras bandas e artistas da época, como Legião Urbana e Renato Russo, foram imortalizados e tocam nas rádios até hoje, devido ao grande sucesso entre o público, principalmente adolescentes.

Nos anos 80, ocorreu a verdadeira “explosão” do rotulado “BRock”. Isso se deve em parte à criação de casas de show, como Noites Cariocas e Circo Voador (Rio) e Aeroanta (São Paulo).

As primeiras bandas a fazerem sucesso foram os irônicos Blitz (“Você não soube me amar”) e Eduardo Dusek (“Rock da Cachorra”, junto com João Penca e Seus Miquinhos Amestrados), no batizado “Verão do Rock”, em 1982.

As bandas mais cultuadas dos anos 80 formam um “quarteto sagrado”[carece de fontes?]. São elas:

  • Os Paralamas do Sucesso, cariocas (que se conheceram em Brasília) surgidos em 82, com um ska parecido com o The Police.
  • Titãs, paulistas (mais tarde “suavizados”). Inicialmente, juntavam as estéticas da new wave e do reggae com a da MPB, e, de 1982 à 1984, a banda era formada por nove integrantes – além dos músicos que continuam no grupo, fizeram parte do conjunto: Ciro Pessoa (vocais), Arnaldo Antunes (vocais), Marcelo Fromer (guitarra) e Nando Reis (baixo/vocais), logo se tornando um octeto, numa formação que duraria até 1992, com a saída de Arnaldo. O baterista do grupo Ira!, André Jung, tocou seu instrumento no primeiro trabalho titânico, depois cedendo seu posto a Charles Gavin.
  • Os cariocas Barão Vermelho, surgidos em 82 e liderados por Cazuza. Com a saída dele (que teve carreira-solo bem sucedida), o guitarrista Frejat assumiu os vocais.
  • Os brasilienses Legião Urbana, liderados por Renato Russo, surgiram em 82. Acabou com a morte de Renato, em 1996. Os outros legionários que compunham a banda eram: Marcelo Bonfá (bateria) e Dado Villa-Lobos (Guitarra). Renato Rocha foi baixista da banda até 1988.

E teve outras também de grandes sucessos na época, como as bandas Sempre Livre, Gang 90 e as Absurdettes, Biquini Cavadão, Hanói Hanói, Hojerizah, Harmony Cats, Lobão e os Ronaldos, Metrô, Magazine, Grafitti, além de cantores(as) como Marina Lima, Léo Jaime, Fausto Fawcett, Ritchie, Kid Vinil, entre outros.

Vários locais do Brasil tinham suas bandas surgindo:

  • No Rio de Janeiro, surgiram os alegres Kid Abelha e Léo Jaime; Uns e Outros e o fim da banda Vímana revelou Lulu Santos, Lobão (também ex-Blitz) e Ritchie.
  • Em São Paulo, o Festival Punk de 81 revelou Inocentes, Cólera e Ratos de Porão; os debochados Ultraje a Rigor (no qual Edgard Scandurra tocou antes do Ira!) e Kid Vinil (então vocalista da banda Magazine); Metrô (banda) de Virginie Boutaud; Zero e RPM, que vendeu 2,2 milhões de cópias de Rádio Pirata ao Vivo.
  • Em Brasília, o Aborto Elétrico (em que Renato Russo tocara) virou o Capital Inicial (que acabou se fixando em São Paulo), e o Plebe Rude teve o sucesso “Até Quando Esperar”
  • No Rio Grande do Sul, os “cabeças” Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós chegaram ao sucesso nacional.também estouraram bandas gauchas de rock como TNT, Taranatiriça, Cascavelletes, Os Replicantes, Os Eles, Bandaliera e Garotos da Rua.

Além deles, houveram os baianos Camisa de Vênus, e os headbangers mineiros Sepultura, que com o seu Thrash Metal único, foram uma das poucas bandas brasileiras a fazer sucesso no exterior.

Anos 90

A década começou com apenas uma novidade: a MTV Brasil, em 1990. E o primeiro “grande grupo” da década foram os mineiros Skank, que misturavam rock e reggae. Ao longo da década, outros grupos mineiros surgiriam, como Pato Fu, Jota Quest e Tianastacia.

Em 1994, surgiu em Recife o movimento Mangue beat, liderados por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. O movimento misturava percussão nordestina a guitarras pesadas, conquistando a crítica.

Entre 94 e 95 surgiram dois grupos bem-sucedidos pelo humor: os brasilienses Raimundos (94), com o ritmo forrócore” (forró+hardcore) e os guarulhenses Mamonas Assassinas (95), parodiando do heavy metal ao sertanejo, que chegaram a fazer 3 shows por dia e venderam 1,5 milhão de cópias antes de morrerem em um acidente de avião, em 96 (chegaram a 2,6 milhões).

Alguns rappers tiveram ligação íntima com o rock, como Gabriel o Pensador e o Planet Hemp (que pedia a legalização da maconha).

Seguindo o caminho do Sepultura, o Angra gravou em inglês, alcançando considerável sucesso no exterior.

Outros destaques são O Rappa, também reggae/rock; Charlie Brown Jr., um “skate rock” com vocais rap; Cássia Eller, com um repertório de Cazuza e Renato Russo; e Los Hermanos, que surgiram com “Anna Júlia”, canção pop que não combinava com a imagem intelectual da banda.

Outro fato da década é que todas as bandas do “quarteto sagrado” (exceto a Legião) tiveram de se reinventar para reconquistar audiência: os Paralamas, depois de uma fase experimental, voltaram às paradas com Vamo Batê Lata (95); o Barão Vermelho, com o semi-eletrônico Puro Êxtase(98); e os Titãs, com seu Acústico MTV (97).

Anos 2000

2001 foi um ano “trágico” para o rock brasileiro. Herbert Vianna, dos Paralamas, sofreu acidente de ultraleve e ficou paraplégico (mas voltou a tocar); Marcelo Frommer, dos Titãs, morreu atropelado; Marcelo Yuka, d’O Rappa, foi baleado e ficou paraplégico (saiu da banda); e Cássia Eller morre.

As bandas dos 90 passaram por muitas mudanças: o Skank ficou mais britpop e cheio de experimentalismo nas músicas o que foi visto nos discos Cosmotron (2003) e Carrosel (2006); o líder dos Raimundos, Rodolfo, converteu-se a um culto evangélico e saiu da banda para formar o Rodox (que também acabaria algum tempo depois); A banda Los Hermanos, lançada com o sucesso “Anna Júlia”, mudou seu estilo a partir do segundo, polêmico, experimental e aclamado disco Bloco do eu sozinho (2001), e conseguiram continuar essa nova identidade com Ventura (2003) e 4 (2005); e três dos quatro integrantes do Charlie Brown Jr. abandonaram o grupo.

Duas origens alavancaram sucessos: a MTV, com seu Acústico, “ressuscitou” alguns grupos dos 80, como Capital Inicial e Ira!; e o produtor dos Mamonas, Rick Bonadio, que revelou entre outros, Charlie Brown Jr., Tihuana, Leela, O Surto, CPM22 (com hardcore melódico) e Detonautas Roque Clube (com a mistura hardcore melódico/electro/pop)

Suicídio

Eis um assunto que realmente mexe com paixões. Um assunto que faz com que haja exaltação e muita controvérsia. Há motivos reais e válidos para alguém decidir por tirar sua própria vida? Teria a pessoa liberdade de decisão para cometer suicídio ou alguém tentado a essa ação não está em seu perfeito juízo?

O termo suicídio vem do latim sui caedere e foi criado por Desfontaines.

Define-se suicídio como a atitude individual de extinguir a própria vida, podendo ser causada entre outros factores por um elevado grau de sofrimento, que tanto pode ser verdadeiro ou ter sua origem em algum transtorno afetivo, transtorno psiquiátrico como a psicose aguda (quando o indivíduo sai da realidade, porém não o percebe) ou a depressão delirante. Em todos os três casos, a probabilidade de atitude tão extrema é consideravelmente potencializada se houver uso continuado de drogas e de bebidas alcoólicas. O suicida pode, ou não, deixar uma nota de suicídio.

Um amplo espectro da sociedade trata o assunto sob o véu do tabu, ou seja: um tema sobre o qual devem-se evitar maiores aprofundamentos teóricos ou acaloradas discussões. No entanto, o suicídio pode ser considerado um problema de saúde pública, na medida que em países onde a estatística é utilizada como ferramenta no auxílio de melhor visualização da realidade social, como nos Estados Unidos, são elevados os índices de mortes por suicídio e muito maiores os números referentes às tentativas infrutíferas.

As reações ao suicídio variam de cultura para cultura. O ato é considerado um pecado em muitas religiões, e um crime em algumas legislações. Agostinho de Hipona (354-430) assumiu um posicionamento segundo o qual cristãos não podem cometer suicídio, pois compreendia que o mandamento ‘Não matarás’ (Êxodo 20.13) proíbe matar a nós mesmos. Por outro lado, algumas culturas vêem tal ato como uma maneira honrosa de escapar a situações vergonhosas ou desesperadoras, como no caso do seppuku japonês geralmente usado para limpar o nome da familia na sociedade. As pessoas que tentam o suicídio, com sucesso ou sem ele, deixam geralmente um bilhete para explicar tal ato, o que comprova que o suicídio é, de uma maneira geral, um ato premeditado. Suas causas psíquicas ainda permanecem desconhecidas, mas está associado principalmente a quadros depressivos.

O filósofo Albert Camus mostrou que o suicídio era uma questão fundamental:

O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia

Generalidades

No mundo, 815 000 pessoas cometeram suicídio no ano 2000, o que perfaz 14,5 mortes por 100 000 habitantes (uma morte a cada 40 segundos) – fonte, (PDF), em francês.

Países do Leste Europeu são os recordistas em média de suicídio por 100.000 habitantes. A Lituânia (41,9), Estônia (40,1), Rússia (37,6), Letônia (33,9) e Hungria (32,9). Guatemala, Filipinas e Albânia estão no lado oposto, com a menor taxa, variando entre 0,5 e 2. Os demais estão na faixa de 10 a 16.

Em números absolutos, porém, a China lidera as estatísticas. Foram 195 mil suicídios no ano de 2000, seguido pela Índia com 87 mil, a Rússia com 52,5 mil, os Estados Unidos com 31 mil, o Japão com 20 mil e a Alemanha com 12,5 mil. A tentativa de suicídio é mais freqüente entre as mulheres, no entanto, os homens conseguem um índice maior de morte por utilizarem métodos mais agressivos, como armas de fogo ou enforcamento, enquanto as mulheres utilizariam de meios como remédios ou veneno.

Com relação à idade, se os jovens são particularmente vítimas deste problema, o número de suicídios é ainda mais importante com uma idade mais elevada, tendo a curva de suicídios masculinos a forma de um n, com um pico próximo aos 50-60 anos.

O suicídio afeta todo mundo, sem distinção de “classe”. Acredita-se que o meio cultural influencie as taxas de suicídio. Altos níveis de coesão social e nacional reduzem as taxas de suicídio. Essas são mais elevadas junto às pessoas aposentadas, desempregadas, divorciadas, sem filhos, urbanas, vivendo sozinhas. As taxas aumentam nos períodos de incerteza econômica (apesar de a pobreza não ser uma causa direta). A maior parte dos suicidas sofrem de desordens psicológicas. A depressão é uma das causas mais freqüentes. As doenças psíquicas graves ou doenças crônicas podem também ser causa de suicídios.

Do ponto de vista do indivíduo, o suicídio é raramente percebido como um fim. Ele é, ao contrário, considerado como a única alternativa possível para escapar de uma situação considerada insuportável. Outros motivos existem: encontrar uma pessoa querida falecida, sofrimento por remorsos, etc.

Finalmente, a taxa de suicídios é também influenciada pela cobertura da mídia em torno do suicídio de pessoas célebres. Mesmo o suicídio fictício de um personagem de um drama popular pode conduzir a uma alta temporária da taxa de suicídios (como aconteceu com a publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe).

Rússia

Todos os anos 60 mil pessoas põem um fim às suas vidas na Rússia, onde a taxa de suicídio é a segunda no mundo –são 34,9 por 100 mil habitantes, abaixo somente da Lituânia e leste europeu anunciou a diretora do Centro Serbski de Psiquiatria Social e Judiciária da Rússia, Tatiana Dmitrieva, em entrevista coletiva organizada por ocasião do Dia Internacional da Saúde Mental.

Japão

O Japão tem a mais alta taxa de suicídio do mundo industrializado (24,1 por 100.000 habitantes). Os suicídios atingiram o número recorde de 34.427 em 2003 (+ 7,1% com relação a 2002) Geralmente empresários e funcionários, comentem suicídios motivados por escândalos de corrupção ou perda de dignidade na sociedade. (fonte : AFP 22/11/2004).

França

Em 1996, a França teve 12 000 suicídios por 160 000 tentativas; com 62 milhões de habitantes, esses números representam aproximadamente 19 suicídios por 100 000 habitantes, ou seja, um suicídio por 5 000 pessoas, e uma tentativa por 400 pessoas. A França ocupa o quarto lugar entre os países desenvolvidos. Esses números são mais ou menos estáveis desde 1980. O suicídio é uma causa mortis mais importante que os acidentes de trânsito.

Brasil

No Brasil, 4,9 pessoas a cada 100 mil morrem por suicídio. É uma das menores médias do mundo. Os maiores índices são do Rio Grande do Sul (11 para cada 100 mil), sendo Porto Alegre a capital com maior taxa de suicídios (11,9 para cada 100 mil). A cidade brasileira com o maior índice é o Município de Venâncio Aires, com mais de 40 casos a cada 100 mil habitantes. Uma das causas apontadas é o agrotóxico Tamaron, utilizado em larga escala no cultivo do fumo. Regionalmente, índice de suicídio no Brasil é semelhante ao de países com maiores taxas do mundo.

Quando comparamos a média brasileira à de outros países, pode parecer que não há problema”, diz o coordenador do Núcleo de Intervenção em Crise e de Prevenção do Suicídio da Universidade de Brasília (UnB), Marcelo Tavares, Por localidades, no entanto, existem muitas diferenças, e há lugares em que as taxas são comparadas à gravidade de outros países”.

Caso, por exemplo, do Rio Grande do Sul. O levantamento mostra que, em 2004, o estado apresentava a maior mortalidade masculina por suicídio do país: 16,6 mortes a cada 100 mil homens. Em último lugar vinha o Maranhão, com 2,3 mortes a cada 100 mil homens.

Portugal

Em Portugal em 2003 11,1 pessoas por cada 100 mil morreram por suicídio sendo que a distribuição por género é de 17,1 por 100 mil para os homens e 5 por 100 mil para as mulheres[1]. A taxa de suicídio em Portugal aumentou 100% em dois anos – 2002 e 2003 -, gerando preocupação na comunidade médica que aguarda os números relativos aos anos de 2004 e 2005 para confirmar se a tendência se mantém. Os últimos dados revelam que se registram 1100 suicídios por ano, no país.

Portugal passou de cerca de 500 suicídios por ano, no final da década de 90, para 1200, em 2002, e 1100, no ano seguinte. Um aumento de taxa que ultrapassa os 100% e que está a deixar a comunidade médica apreensiva e na expectativa de se voltar aos anos negros das décadas de 30 e de 80, altura em que o número de suicídios foi sempre em crescendo.

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Há em andamento uma cultura obscura, uma cultura mórbida, cultuando a anorexia, a bulimia, automutilação, a pedofilia, o preconceito, o uso indiscriminado de drogas, o suicídio e uma série de crimes. A intenet está sendo uma das ferramentas de mentes doentes e doentias. Há um largo espaço entre a liberdade de expressão e o crime. Só um tolo não compreende isto. Guarde suas preferências para você ou procure ajuda.