Perfil de Paulo Coelho na ABL Academia Brasileira de Letras

Biografia

Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 24 de agosto de 1947. Filho do engenheiro Pedro Paulo Coelho e de Lígia Coelho. Fez seus estudos no Rio de Janeiro. É casado, desde 1981, com a artista plástica Christina Oiticica.

Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, jornalista e compositor. Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da musica brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Al Capone”, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Foi diretor da companhia discográfica CBS e do jornal Express Underground, professor de teatro e secretário de redação do jornal O Globo. Fundou a Revista 2001.

Atualmente, tem uma coluna semanal em O Globo, e em outros 48 jornais brasileiros. Escreve também para jornais do México, Argentina, Chile, Bolívia, Polônia, Itália, Espanha, Venezuela, Grécia, Taiwan, România, Alemanha e mais dez países.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

Em 1982, editou ele próprio seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher por considerá-lo “de má qualidade”.

Em 1986, fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, na Espanha, e, a partir dessa experiência marcante, escreveu O Diário de um Mago – O Peregrino, em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos se sucederam: Brida (1990), As Valkírias (1992), Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (1994), Maktub (coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de S. Paulo, 1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika Decide Morrer (1998), e O Demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos (2003), O Gênio e as Rosas – ilustrado por Mauricio de Souza (2004) e O Zahir (2005).

Paulo Coelho conseguiu ter três títulos ao mesmo tempo nas listas de mais vendidos na França, Brasil, Polônia, Suíça, Áustria, Argentina, Grécia, Croácia. De acordo com a revista francesa Lire, foi o segundo escritor mais vendido do mundo em 1998. Autor de um trabalho polêmico, tem críticos apaixonados – a favor em contra. O escritor italiano Umberto Eco elogiou Veronika Decide Morrer na revista alemã Focus. Sua obra foi traduzida em 56 línguas e editada em mais de 150 países. Fato notável em sua vida foi o de ter sido o primeiro escritor não muçulmano que visitou o Irã desde a revolução islâmica de 1979.

Fez também a adaptação de O Dom Supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um Profeta (Khalil Gibran).

O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o Prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres, a cantora Madonna e Julia Roberts, que o consideram seu livro favorito. A edição ilustrada pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien) já foi publicada em vários países. The Graduate School of Business of the University of Chicago recomenda o romance no seu currículo de leitura. Também foi adotado em escolas da França, Itália, Brasil, Estados Unidos, dentre outros países.

Já foi fonte de inspiração de vários projetos – como um musical no Japão, peças de teatro na França, Bélgica, EUA, Espanha, Portugal, Taiwan, Turquia, Itália, Suíça. É tema de duas sinfonias: na Itália, uma peça clássica pelo italiano Irlando Danieli para o Scala de Milão, e nos EUA, onde a BMG Classics lançou o CD “A Sinfonia do Alquimista”, pelo compositor Walter Taieb, inspirada em seu enredo.

Os direitos de filmagem de O Alquimista foram adquiridos pela Warner Brothers, que está desenvolvendo o roteiro do filme Onze Minutos pela Hollywood Gang Production e Verônika Decide Morrer pela Muse Productions (VS); e Monte Cinco pela Capistrano Productions.

Paulo Coelho pertence ao Board do Instituto Shimon Peres para a Paz, é Conselheiro Especial da UNESCO para “Diálogos Interculturais e convergências espirituais” e membro da diretoria da Schwab Foundation for Social Entrepreneurship, que distribuiu anualmente um prêmio de U$ 1 milhão para empreendedores sociais.

Mantém o Instituto Paulo Coelho, uma instituição sem fins lucrativos, financiada exclusivamente pelos direitos autorais do escritor. A idéia central não é fazer caridade, mas dar oportunidade às camadas menos favorecidas e excluídas da sociedade brasileira. Desta maneira, o Instituto concentra sua verba em: a) Infância; b) Terceira Idade.

Neste momento, o Instituto Paulo Coelho apóia com ajuda financeira pessoas menos favorecidas de Terceira Idade, e é co-patrocinador do projeto Creche Escola Meninos da Luz, Lar Paulo de Tarso (favela Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro), que cuida de 270 crianças.

Principais prêmios e condecorações
Prix Lectrices d’Elle (França, 1995)
Knight of Arts and Letters (França, 1996)
Flaiano International Award (Itália, 1996)
Super Grinzane Cavour Book Award (Itália, 1996)
Golden Book (Iugoslávia, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000 e 2004)
Finalist for the International IMPAC Literary Award (Irlanda, 1997 e 2000)
Comendador de Ordem do Rio Branco (Brasil, 1998)
Crystal Award – World Economic Forum (1999)
Golden Medal of Galicia (Espanha, 1999)
Chevalier de l’Ordre National de la Legion d’Honneur (França, 2000)
Crystal Mirror Award (Polônia, 2000)
Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
Club of Budapest Planetary Arts Award 2002 as a recognition of his literary work (Germany, 2002)
Best Fiction Corine International Award 2002 for The Alchemist (Germany, 2002)
Golden Bestseller Prize from the largest circulation daily “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
Ex Libris Award for Eleven Minutes (Serbia, 2004)
Nielsen Gold Book Award for The Alchemist (UK, 2004)
Order of St. Sophia for contribution to revival of science and culture (Ukraine, 2004)
Order of Honour of Ukraine (Ukraine, 2004)
The Budapest Prize (Hungary, 2005)
Goldene Feder Award (Germany, 2005)
Direct Group International Author Award (2005)

 

Bibliografia

Arquivos do Inferno. Ed. Shogun, 1982.
O Manual Prático do Vampirismo. 1985.
O Teatro na Educação. Ed. Forense Universitária autores, 1973.
O Diário de um Mago – O Peregrino. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1987.
O Alquimista. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
Brida. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1990.
O Dom Supremo (adaptação do livro de Henry Drummond) Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1991.
As Valkírias. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1992.
Na Margem do Rio Pedra Eu Sentei e Chorei. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Maktub (coletânea de seus melhores textos na Folha de S. Paulo). Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Palavras Essenciais. Ed. Vergara & Riba, 1995.
O Monte Cinco. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.
O Manual do Guerreiro da Luz. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1997.
Cartas de Amor de um Profeta (adaptação do livro de Khalil Gibran). Rio de Janeiro: ed. Ediouro, 1997.
Veronika Decide Morrer. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1998.
As Confissões do Peregrino (biografia escrita pelo jornalista espanhol Juan Arias a partir de seu depoimento). Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1999.
O Demônio e a Srta. Prym. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2000.
Histórias para Pais, Filhos e Netos (coletânea de contos tradicionais). Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2001.
Onze Minutos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.
O Gênio e as Rosas. Ilustrado por Maurício de Souza. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2004.
O Zahir. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2005.
A Bruxa de Portobello. São Paulo: Ed. Planeta, 2006.

 

Discurso de Posse

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.
Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:

“E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar.”
Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.” Por quê?

O que existe nessa estrada?

Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória? Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer: o sentido da vida é este.

Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.

Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:

“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?” Será, isto sim: “Como amei?”
O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.

Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”

Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar. Martin Luther King lembrava que os gregos possuem três palavras para designar esse sentimento: a primeira é Eros, o amor saudável e necessário entre dois seres humanos, que se buscam, se encontram, ou se desencontram. A segunda palavra é Philos, a paixão que nos empurra ao encontro da sabedoria, dos amigos, da filosofia, dos legados que nos deixaram as gerações anteriores. Finalmente existe a palavra Ágape, o amor maior, aquele a que – como bem lembra Martin Luther King – Jesus se referia quando disse: “Amai vossos inimigos.” Um amor que está além do ato de gostar, porque não podemos gostar de quem nos agride, nos ofende, é injusto em seus comentários, leviano em suas acusações, preconceituoso em seu julgamento. Não podemos gostar, mas podemos amar e, através do amor, entender que por detrás de cada atitude mesquinha e destruidora está um imenso desejo de ser compreendido, aceito, apreciado.

Então, a essência de Ágape está não apenas nos que aqui me precederam nesta Cadeira 21, mas em todos, em todas as cadeiras desta Casa, deste auditório, em todas as cadeiras do mundo. Basta apenas reunir coragem suficiente para lutar por seus sonhos, e – de novo me apoio em uma expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo – “combater o bom combate, e manter a fé.”

Em 1986, quando fazia o Caminho de Santiago em busca de uma espada, a mesma espada que daqui a pouco me será de novo entregue, simbolicamente, pelo acadêmico Josué Montello, eu compreendi pela primeira vez o sentido dessa expressão.

O Bom Combate é aquele travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempo dos cavaleiros andantes, isso era fácil, havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate veio dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem dentro de nós com todo o seu vigor – na juventude – temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, terminamos aprendendo, e então já não temos a mesma coragem. Por isso, nos voltamos contra nós, e nos transformamos em nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou frutos de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre têm tempo para tudo e para todos. As que nada fazem estão sempre cansadas, não dão conta do pouco trabalho que precisam realizar, e se queixam constantemente que o dia é curto demais. Na verdade, elas têm medo de saber onde vai dar a misteriosa estrada que passa pela sua aldeia.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos. Olhamos para além das muralhas do nosso mundo organizado, onde a ciência e a filosofia já têm todas as respostas, onde todas as dúvidas já foram resolvidas pelas ideologias, conceitos e preconceitos. Olhamos e vemos as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, sentimos o cheiro de suor e pólvora. Então dizemos, do alto de nossas torres de marfim: “Eles não sabem o que eu sei.” Com essa atitude arrogante, jamais percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para esses não importa nem a vitória nem a derrota, mas apenas olhar o mundo como se fosse uma pergunta – não uma resposta – e através dessa pergunta tentam dignificar suas vidas.

Raul Seixas descreve bem a alegria no coração dos guerreiros, ao escrever:

Prefiro ser
Uma metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém de nossa idade diz querer ainda isso ou aquilo da vida. Mas, na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o preço dessa paz foi nossa renúncia à luta por tudo que considerávamos interessante, e por tudo que nos entusiasmava fazer. Quando encontramos a paz, temos um curto período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir essa crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, num belo dia os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre de nossas certezas, de nossas ocupações, e da paz das tardes de domingo.
Nenhum dos ocupantes desta Cadeira 21 experimentou – graças a Deus – essa terrível paz. O teatrólogo Dias Gomes, em seu discurso de posse, chamou-a de “A cadeira da Liberdade”. O economista Roberto Campos a chamou de “Cadeira do Ecletismo”. Eu preferiria chamá-la, entretanto, de “Cadeira da Utopia”. Utopia em seu sentido clássico, referindo-me ao momento ideal da história da civilização na qual todas as conquistas do homem seriam consolidadas entre seus semelhantes; o país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, no qual um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. O fundador da Cadeira 21, José do Patrocínio, herói da Abolição da Escravatura, diz em um dos seus discursos. Cito:

“Dentro em três dias vai começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos. As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte.”

=Um quarto de século se passou, e outro, e muitos outros. Apesar da abolição da escravatura, todos nós sabemos que até hoje o sonho de José do Patrocínio ainda não se tornou realidade. Entretanto, ele nos legou sua utopia, e nós continuamos a lutar por ela. Sucedeu-o o poeta Mário de Alencar, descrito por todos como um homem tímido e recluso, cujo modelo de vida era o corajoso Sócrates. Suas obras só nos chegaram por causa da dedicação de seus filhos. Tinha como ideal a beleza pura, e comentava em um dos seus versos:

“Goza mulher teus dias
que as puras alegrias
vêm da ilusão.”

De novo a idéia utópica de um mundo no qual é possível, apesar da ilusão, permitir-se o prazer das grandes alegrias. O mesmo acontecia com o poeta Olegário Mariano, que o sucedeu: embora mais extrovertido em seu comportamento – afinal, são dele várias letras de músicas, uma das quais ainda cantamos: “Cai, cai, balão” – leva a sua utopia do terreno literário para o campo político, como antes fizera José do Patrocínio. Luta por um Brasil moldado no ideário de Getúlio Vargas.

Quero fazer uma pequena observação aqui: não me cabe, neste discurso de posse, julgar as afinidades partidárias dos ocupantes desta Cadeira, mas o empenho sincero que tiveram em procurar uma opção melhor para o Brasil, levando em conta suas convicções pessoais.

Como os seus predecessores, também Olegário Mariano quer seguir um sonho impossível. Ele mantém em seu horizonte os ideais utópicos da existência. Como nos versos a seguir. Cito:

“Vida! Quero viver todas as tuas horas, As que prendi na mão e as que nunca alcancei.”

Álvaro Moreyra, o cronista do Rio, é o próximo ocupante, um dos precursores do novo teatro brasileiro, que se declara adepto da utopia comunista. Deixa importante legado literário, que inclui um estudo sobre o teatro espanhol na Renascença, escrito em 1946, e a peça “Adão e Eva e outros membros da família (1929)”, que até hoje faz parte do repertório de muitas companhias teatrais. Em seu trabalho poético, de novo o mesmo louvor utópico à vida, que o acompanhou até nos dizeres de seu epitáfio:
O epitáfio de Álvaro Moreyra é o seguinte:

“Acreditei na Vida, e a Vida em mim. Depois, desandamos a rir de nós mesmos – os dois.”
O crítico Adonias Filho, que sucede Álvaro Moreyra, parte para uma utopia exatamente oposta: ex-integralista, defende o golpe militar de 1964. Mas é tão íntegro em suas convicções que merece o respeito de Jorge Amado, militante de campo exatamente oposto, que faz questão de recebê-lo nesta Casa. Provocador, irônico, Adonias Filho declara em um dos seus textos:

“Ainda se discute a utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão. Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca os leria depois…”

De novo o pêndulo da Cadeira 21 oscila para uma utopia oposta: é a vez de Dias Gomes entrar para a Academia Brasileira de Letras, trazendo em seu teatro e na sua vasta bagagem literária o sonho de um Brasil redimido pela vitória do oprimido sobre o opressor. Seu nome torna-se mundialmente conhecido quando uma de suas peças, “O Pagador de Promessas”, é transformada em filme e ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Dono de uma linguagem moderna, é levado pelas circunstâncias a escrever para a televisão, e o faz de maneira inovadora, criando obras que até hoje permanecem no imaginário do povo, como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”. Em uma de suas peças, “O Santo Inquérito”, a personagem Branca comenta sobre o abismo que separa o sonho da realidade:

“Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam … Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio.”

Com sua morte trágica, prematura, que privou o Brasil contemporâneo de uma de suas inteligências mais brilhantes, o pêndulo torna a oscilar e, em uma eleição onde a discussão sobre utopias foi a tônica, Roberto Campos consegue a maioria necessária para ocupar a Cadeira 21.

Lembro-me de, ainda jovem, ir para as ruas protestar contra sua política econômica – embora na época não tivesse sequer idéia do que isso significava. Fernando Sabino, porém, cunhou uma expressão primorosa: “Todo homem é incendiário aos vinte anos, e bombeiro aos quarenta.”

Aos quarenta anos, quando resolvi comprar o meu primeiro computador, vi um Brasil paralisado pela Lei da Informática, caminhando a passos largos em direção – não ao futuro, mas ao passado. Essa lei, que Roberto Campos tanto combatera, e que antes era uma abstração para mim, agora se transformava em algo concreto: estava me privando de um instrumento de trabalho. Ainda durante minha transição de incendiário a bombeiro, tive oportunidade de ler muitos artigos seus, e – mesmo a contragosto, já que sempre somos mais sectários do que ousamos admitir – terminei por lhe dar razão. O meu suposto inimigo de antes transformava-se em um homem capaz de defender com coerência e responsabilidade a sua utopia, buscando aí todas as tribunas possíveis.

Minha admiração chegou a tal ponto que, sabendo de uma noite de autógrafos de seu livro “Lanterna de Popa”, fui até a Gávea para encontrá-lo. Uma chuva torrencial impediu muitas pessoas de comparecer, e eu tive a oportunidade de privar, por meia hora, da sua intimidade e inteligência fulgurante. Firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, polêmico e provocador, Roberto de Oliveira Campos marcou a história do Brasil moderno. Correndo sempre o risco de não ser compreendido, era capaz de lutar até o fim por tudo aquilo que julgava melhor para nossa Pátria. Poucos foram os que se aplicaram em identificar profundamente o pensamento de Roberto Campos, e, entre estes encontra-se o jornalista Olavo Luz. Em sua biografia “Roberto Campos, o homem por detrás do mito”, Olavo nos deu uma dimensão humana desse Economista, Professor, Embaixador, Ministro de Estado, Senador, Deputado, e Acadêmico. Roberto Campos viveu entre o amor e o ódio.

Despertava a fúria raivosa dos contendores e a paixão extremada, quase uma religião, dos admiradores. Um episódio na vida do meu antecessor merece especial atenção: Corriam os chamados “anos de chumbo”, cujo prolongamento Roberto Campos tanto condenou, defendendo o retorno do poder à sociedade civil, após o governo Castelo Branco, que chamava de “arrumação da casa”. Carlos Lacerda, também um brilhante político e, naquele momento, em campo oposto ao então Ministro Extraordinário do Planejamento, cunhou uma frase histórica:

“O senhor Roberto Campos irrita a todos: mata os ricos de raiva e os pobres de fome”.
Impassível, Roberto Campos respondeu com uma outra frase histórica, que seria também uma declaração honrada de armistício:

“A violência da flecha dignifica o alvo”.
Muitas vezes, em momentos em que me sentia julgado com severidade excessiva pela crítica, me recordava dessa frase. E me lembrava de outro sonho, do qual eu não estava disposto a desistir: entrar, um dia, para a Academia Brasileira de Letras.

Há cinco anos, o acadêmico Eduardo Portella, durante o lançamento de “O Monte Cinco” na França, me se eu consideraria a possibilidade de uma candidatura. Perguntei se estava falando sério; ele disse que sim. Pouco tempo depois, Maria Eugenia Stein, amiga de longa data, resolveu promover um encontro com o então Presidente da Academia, Arnaldo Niskier. Retirei o sonho do meu coração, convidei-o para tomar um chá em minha casa, conversei abertamente sobre minhas pretensões, e tornei a guardar meu sonho em lugar onde pudesse contemplá-lo de vez em quando.

No dia 9 de outubro de 2001, eu participava do Festival de Autores e Cineastas, em Montecarlo. Conversava despreocupadamente com o diretor americano Sidney Pollack, quando meu telefone celular tocou: Roberto Campos havia morrido.

Pedi licença a Pollack, caminhei até a praia, fiquei contemplando o Mediterrâneo. Nos momentos em que precisamos tomar uma decisão muito importante, é melhor confiar no impulso, na paixão, porque a razão geralmente procura nos afastar do sonho – justificando que ainda não é chegada a hora. A razão tem medo da derrota. Mas a intuição gosta da vida, e dos desafios da vida. Eu também gosto, de modo que resolvi me candidatar, e confiei em meus amigos da Academia. Pessoas mais próximas me perguntavam: “Mas está mesmo na hora? Por que você não deixa isso para mais adiante?” Eu respondia: “Como é que você sabe que “mais adiante” é a hora certa?”

E segui em frente.

Vez por outra me lembrava de um episódio de minha adolescência: Com um grupo de amigos da Academia de Letras do Colégio Santo Inácio – onde cursava o ginasial – vimos até aqui para assistir a uma palestra. Foi preciso vestir terno e gravata, tomar o bonde, viajar muito tempo para chegar ao centro da cidade. Não me lembro da palestra, nem do palestrante – mas a primeira impressão desse lugar jamais saiu de minha cabeça.

Hoje, quase 40 anos depois, estou nesta tribuna, fazendo meu discurso de posse. O que era uma utopia de adolescente virou – no início da década de 90 – uma verdadeira heresia. Mas, como acontece com algumas heresias, esta também se transformou em realidade. Lutei por esse sonho, confiei em meus amigos, combati o bom combate e mantive a fé. Aprendi com Jorge Amado, o maior escritor brasileiro do século XX, o insubstituível, o grande, o generoso, o digno Jorge Amado, que as utopias são possíveis.

E hoje aqui com vocês, celebramos juntos.

Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seu trabalho com dignidade e dedicação. Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso anátema, mas não posso deixar passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro.

O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo sobre a glória do mundo:

“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exército, foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, virou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos.

“Certa noite, o homem teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.

“Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos.

“- Você foi um homem bom – disse-lhe o anjo. – Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.

“- A vida também foi boa para mim – respondeu o homem. – Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem.

“O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha.

“O homem chorou de alegria.

“- Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais – disse para o anjo, entre lágrimas. – Toda Roma se encantava com eles, e sei algumas de suas poesias de cor: gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.

“- Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma – disse o anjo. – Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército.

“O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:

“- Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus.

Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um centurião romano, converteu-se ao seu credo. Até que certa manhã chegou perto do Rabi.

“Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, disse não ser necessário.

“O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:

“- Estas são as palavras do seu filho soldado – disse o anjo ao homem. – São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas:

“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. A glória do mundo é transitória, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos – como o centurião romano – que deixam as marcas mais duradouras. Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente. Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.

O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.

Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que levam escritores a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Muito obrigado.

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Fiódor Dostoiévski

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский, AFI [ˈfʲodər mʲɪˈxajləvʲɪtɕ dəstɐˈjɛfskʲɪj]; Moscovo, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881), ocasionalmente grafado como Dostoievsky, foi um dos maiores escritores da literatura russa. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita.”

O reconhecimento definitivo de Dostoiévski como escritor universal veio somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances: O Idiota e Crime e Castigo, este publicado em 1866, considerado por muitos como uma das obras mais famosas da literatura mundial. Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.

É conhecido por explorar a autodestruição, humilhação e assassinatos, além da análise de estados patológicos que levam ao suicídio, loucura e homicídio: seus escritos são chamados por isso de “romances de idéias”, pela retratação filosófica e atemporal. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.

Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, então médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscou, e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de proteção do ambiente familiar.

Seu pai tornou-se um nobre em 1828. Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da mãe por tuberculose em 1837, e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão, Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde o jovem Fiódor começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. É aceito hoje, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Dostoiévski, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Freud a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio.

Dostoiévski sofria de epilepsia e seu primeiro ataque ocorreu quando tinha nove anos. Suas experiências epiléticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns de seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance O idiota, e de Smerdyakov na obra Os Irmãos Karamazov.

Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoiévski aprendeu matemática, um tema que desprezava. Também estudou a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e E.T.A. Hoffmann. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoiévski descrevia-se como um “sonhador” em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.

Em 1844, Honoré de Balzac visitou, em São Petersburgo, Dostoiévski, que como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou sua vocação. Pouco depois, ele abandonaria o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura.[13]

Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Fez traduções de Balzac e George Sand.

Aluga, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedica-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixa o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoiévski “a mais nova revelação do cenário literário do pais.”

Em O Diário de um Escritor, recorda que após concluir Pobre Gente, deu uma cópia para seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção psicológica da obra. Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. “Um novo Gogol apareceu!”, disse Nekrasov. “Com você, a primavera de Gogol nasce como cogumelos!”. Bielínski respondeu a Dostoiévski.

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.(Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski)

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer mais freqüentemente de epilepsia. Seus romances seguintes, Duas vezes (1846), Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849) e a Inveja do Marido e Esposa de Outro, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, que fizeram com que Dostoiévski mergulhasse em depressão. Nesta época entrou em contato com alguns grupos de idéias utópicas, chamados niilistas, que procuravam a liberdade humana.

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual liberal chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia.[6] Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na prisão até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoiévski teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram abaixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. Sua pena foi comutada para cinco anos de árduo trabalho em Omsk, na Sibéria.

O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece várias descrições sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Durante este tempo os ataques epiléticos aumentaram ainda mais. Anos mais tarde, Dostoiévski descreveu seu sofrimento para seu ao irmão, dizendo-se um “silenciado em um caixão “[17] e que o local onde estava “deveria ter sido demolido anos atrás”.

No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a celemim.(Dostoiévski sobre seu local de prisão)

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indefinido.[6] Apaixona-se por Maria Dimítrievna Issáievna, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no próximo ano, em fevereiro de 1857, casam-se.[19] Na noite de núpcias Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia.

Depois de dez anos voltou à Rússia. Na Sibéria chamou a experiência de uma “regeneração” das suas convicções, e rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor, O Mujique Marei.

Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver.(Páginas escritas durante o seu cativeiro na Sibéria.)

Estudos médicos permitiram diagnosticar que Fiódor sofria de epilepsia temporal. Suas crises sistemáticas, que ele atribuía a “uma experiência com Deus”, tiveram papel importante em sua crise religiosa e em sua conversão durante o desterro, quando a Bíblia era sua única leitura. Dostoiévski se tornou um forte crítico do niilismo e do movimento socialista, e dedicou em seu livro O Diário de um Escritor para expor idéias críticas ao conservadorismo socialista.[21][22] Formou uma amizade com o estadista conservador Konstantin Pobedonostsev e abraçou alguns dos princípios do Pochvennichestvo. Por este tempo começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser solto sob a condição de residir em qualquer lugar, exceto em São Petersburgo e Moscou, e assim, mudou-se para Tver. Ele conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas por Dostoiévski. Em dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista Vremya (“Tempo”), que no primeiro número publicou Humilhados e Ofendidos, também inspirada em seu trabalho na Sibéria. Sua obra Memórias da Casa dos Mortos foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo.

Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de idéias progressistas. Perdeu muito dinheiro jogando e retornou à Rússia no fim de outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.[13]

Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado Epoja (“Época”), onde publicou Memórias do Subsolo. Seu ânimo acabou após a morte de sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo de sustentá-los.[13] Profundamente depressivo e viciado em jogos, acumulou enormes dívidas. Para sanar seus problemas financeiros, fugiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em cassinos.[20] Ali se reencontrou com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma de suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro O Jogador. O relacionamento com a Anna finalmente terminou em casamento em 15 de fevereiro de 1867.

Juntos continuaram a viajar pela Europa e Genebra, onde nasceu e morreu pouco tempo depois sua primeira filha. Em 1868, escreveu O Idiotae em 1871, terminou Os Endemoniados, publicado no ano seguinte. A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Esta publicação seria interrompida em 1878, para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.

Em 1880 participou da inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. Em 8 de novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, em 9 de fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Em sua lápide pode-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:

Em verdade vos digo que se o grão de trigo que cai na terra não morrer, é por si só, mas se ele morrer produz muito fruto.(Evangelho segundo João, 12:24)

Dostoiévski necessitava de dinheiro e sempre fora apressado em concluir suas obras. Por isso disse não conseguir realizar seu pleno poder literário. Ao contrário de escritores que descreviam o círculo familiar moldados na tradição e “belas formas”, ele escreveu sobre o caos familiar e os que humilhavam e insultavam.

Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.

Seus romances ocorrem em um período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais.

Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bajtín têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.

O russo Alexey Rémizov durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: “A Rússia é Dostoiévski. Rússia não existe sem Dostoiévski. “ A maioria dos críticos concorda que Dostoiévski, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e outros poucos escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo.

Publicou inúmeros contos: O Mujique Marëi, O Sonho de um Homem Ridículo, Bobock e outros, além de novelas: O Senhor Prokhartchin, A Dócil, O Homem Debaixo da Cama, Uma História Suja, O Pequeno Herói, Uma Criatura Gentil, Coração Fraco e Noites Brancas. Criou duas revistas literárias: Tempo (Vrêmia) e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.

Os personagens podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskij), intelectuais rebeldes (Rodion Românovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por idéias e não imperações sociais ou biológicas.

A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores.[30][24] Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como “o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal.” Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: “chorei verdade a partir do sangue”. Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. “Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo”, disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.

A falta de critérios mais definidos para a transliteração do alfabeto cirílico para o latino no idioma português faz com que existam diversas variantes da grafia do nome possam ser utilizadas simultaneamente; além de Fiodor Dostoiévski, pode-se encontrar comumente a versão anglicizada Fyodor Dostoievsky, e híbridos como Dostoiévsky.

O escritor, meus amigos, é um pobre ser frágil cheio de vaidade e solidão. A grande ilusão de Luiz Fernando Emediato

Jornalista e escritor vencedor de vários prêmios literários, e dos prêmios Esso de Jornalismo e Rei de Espanha de Jornalismo Internacional. Criador do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo e responsável pela introdução do “âncora” na televisão brasileira. Autor de “Trevas no Paraíso”, “Geração Abandonada”, entre outros livros. É editor da Geração Editorial. As crônicas desta seção foram publicadas no Caderno 2 e no livro “A grande ilusão”.

http://www.geracaobooks.com.br/

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A Solidão do Criador

Quando a solidão do artista
é maior, e mais amarga, que a
comum solidão dos seres

Esta semana eu tive uma experiência inesquecível. Fui entrevistar um dos mais
famosos músicos brasileiros, conhecido por sua timidez e laconismo, e ele, muito à vontade, discorreu durante quase três horas sobre sua infância, sua pobreza, sua emocionante luta para ser um dia um grande artista, aquele que vai sempre onde o povo está, para dividir com ele o embriagante pão da poesia.

Não vou dizer quem é, pelo menos por enquanto: a entrevista vai ser publicada até o próximo domingo. Mas o que eu queria dizer é que, no final da conversa, gravador já desligado, ele olhou para o mar através da janela – estávamos no Rio –, suspirou profundamente, virou-se para mim e disse:

– Eu queria dizer mais uma coisa.

Esperei, surpreso, e então, como se queixasse, ele falou:

– Engraçado. A gente canta em tantos lugares do mundo, para cinco mil, dez mil, quinze mil pessoas, e então elas dançam, algumas choram, aplaudem, vibram com minha música. É como se fosse uma missa, com emoções compartilhadas – mas depois todos vão embora e eu vou para o camarim e fico lá sozinho. Depois eu vou sozinho para o hotel, ou para a minha casa, e me pergunto: para onde foram as pessoas?

Silêncio. Ele respira, olha para a parede vazia, baixa os olhos e conclui:

– Eu me sinto muito solitário.

Todos nós sofremos, uma vez ou outra, por causa da solidão. Eu me lembro de quando estava em El Salvador, cobrindo a guerra civil, e à noite, sozinho no meu quarto de hotel, não tinha com quem dividir o sofrimento por ter visto, durante o dia, tanto horror: crianças mortas a tiros e bombas, jovens esquartejados e queimados, soldados quase crianças lutando contra seus parentes guerrilheiros.

Em 1978, quando escrevi uma série de reportagens sobre a cidade de São Paulo e as pessoas que vivem aqui, descobri uma coisa desconcertante: há em São Paulo 300 mil pessoas que moram sozinhas, em pequenos apartamentos, no espaço vazio das mansões, debaixo das pontes e dos viadutos e até – pasmem – nos túmulos vazios dos cemitérios, como no do Araçá, onde vivia uma moça num belo túmulo-capela. Em São Paulo, informavam então as frias estatísticas do IBGE, todos os dias pelo menos dez pessoas tentam matar-se, de tédio, desespero – ou solidão.

Muitas delas não são realmente solitárias – convivem com seus familiares, têm amigos, trabalham em ambientes onde dezenas de pessoas compartilham com elas, diariamente, seus pequenos ou grandes problemas pessoais. Um dia o jornalista José Maria Mayrink escreveu uma série de reportagens depois publicada em livro. O título foi Solidão (não adianta procurar nas livrarias, pelo menos agora. O livro está esgotado). Mayrink descobriu, de maneira comovente, a solidão dos que vivem num grande aglomerado urbano, São Paulo. Milhões de pessoas juntas. E, apesar disso, solitárias.

Eu estava aqui pensando na terrível solidão do congressista honesto – coisa rara, hoje em dia – que chega ao Congresso, em Brasília, vai ao plenário e discursa, solitário, para um ou dois companheiros. Ou do presidente da República, que, na solidão de seu gabinete, tem de decidir sobre o destino de mais de 130 milhões de brasileiros. Como Deus, que antes de criar o mundo deve ter sido muito, muito solitário.

Pensando entretanto na solidão de uns e outros, no amargo isolamento dos que sonham em dividir com alguém um sorriso, uma palavra amiga, uma opinião, volto ao início desta crônica: é terrível, sim, a solidão do artista. Porque o artista se entrega, de corpo e alma, aos que buscam sua arte, e ele se entrega porque tem necessidade de amar e ser amado. O mais amargo nesta história toda é que, quanto mais querido, quanto mais amado, mais solitário às vezes ele pode ser. Tão solitário quanto por exemplo os escritores. Quando, no silêncio de seu gabinete, eles têm apenas um papel entre seus dedos e a máquina, os escritores são, sem dúvida, os mais solitários dos seres.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Balada Triste
29-11-2006

Perdido em lembranças,
papéis e naufrágios,
um homem pensa e sofre

então ele olha a gotinha cristalina da chuva escorrendo pela folha verde e uma grande saudade invade o seu triste e solitário coração. O cheiro de terra molhada, a chuva na vidraça, o vidrinho com a água açucarada para atrair o beija-flor movendo-se como um pêndulo, empurrado pelo vento: isso é belo, ele pensa, mas como é triste!

Trinta e seis anos. Metade da vida já se foi, e então ele começa a ter saudades da infância, a inocência dos olhinhos arregalados perguntando pelo sentido das coisas, os brinquedinhos de madeira, o cheiro de jasmim nas roupas, o pai ausente, a mãe gritando com os irmãos. Tão longe.

O céu cinzento anuncia tempestade, relâmpagos, trovões. Então ele anda pela casa, calado, curvado, o coração apertado de angústia e lembranças. A calça curta, as pernas finas, a adolescência chegando, o medo do sexo e da vida, o primeiro beijo. Espinhas no rosto. Timidez.

Que estranha é a vida! Que estranho e grande é o mundo, pensa, olhando no espelho os primeiros fios brancos na barba, as rugas ao redor dos olhos, o vinco amargo e seco ao redor dos lábios. Tenta rir, sai uma careta feia e dolorida. Carne. Carne.

E então ele desiste de olhar a chuva lá fora, a água nas folhas, o céu cinzento e anda pela casa buscando tudo e nada, pedaços de coisas, frangalhos, quebra-cabeças. Mexe nas gavetas, nos papéis, nas fotografias. A mãe sorri em uma delas, jovem e feliz. O rosto severo do avô morto. O irmão briguento. O tio alcoólatra morto aos 33 anos, de cirrose. O parente distante que enlouqueceu e deu um tiro no ouvido. O primo que fugiu para ser padre. Vida. Vida.

Tem alergia de papéis velhos e espirra. Mas segue em frente e vê: esboços de histórias, contos, romances e poemas que não escreveu e jamais escreverá. Bilhetes, cartas que não respondeu, versos de amor para alguém e para ninguém. Um soneto apaixonado escrito aos 17 anos em um papel amarelo e manchado; lágrimas. E então ele se lembra, com amargura, que já não consegue chorar, nem nada. Que pena.

Abre e fecha as gavetas, cheio de ansiedade e pressa. Rostos que já não reconhece desfilam entre seus dedos nervosos. Mas há aqueles que jamais esquecerá: Teco, o amigo fiel que se perdeu pelo mundo; Cândida, o primeiro amor; Regina, a primeira e desvairada paixão; Juan, que não se chamava Juan e morreu na guerra; Caio, o escritor sensível e bom, mas tão trágico, tão triste, tão frágil…

Caio fazia perguntas e dava conselhos: “Viver para quê?”. Ou: “Meu irmão, a gente tem de descobrir maneiras de ficar forte”. Ou: “Não se preocupe demais. Relaxe. Navegue”. E então: “Foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Cuide bem de você”. E a data: 19 de maio de l977. Dez anos depois, nada restou além da fria distância entre os dois: olhares furtivos; fugas; silêncios.

Lê, comovido, e pensa: o tempo separa as pessoas, e as idéias também. O que mais separa as pessoas além do orgulho, a sensibilidade exagerada, a incompreensão? Nada vale uma amizade. E então lê, no papel amarelo onde o amigo datilografava as cartas (e a máquina dele tinha até nome, Virgínia Woolf: “Releio Alice no País das Maravilhas e descubro que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda não conseguiu entender nada. Ou conseguiu entender tudo (jamais saberei)”.

Jamais, pensa então. Jamais. E então ele anda pela casa, olha os filhos brincando – inocentes, felizes, quanta beleza! – e se pergunta se não está sofrendo por estar fazendo sofrer. Quem sabe? (Jamais saberemos.)

Perguntas doem. Respostas também. Então ele desiste de fazer perguntas e buscar respostas, vai para a varanda, senta-se na cadeira de balanço, fecha os olhos e ouve apenas o ruído das últimas gotinhas de chuva deslizando pelas telhas e pelas folhas das árvores. Sonha com elfos, duendes, camaleões, fadas, uma princesa alta e branca de cabelos pretos como azeviche – um rosto igualzinho ao da Melanie Grifith, totalmente selvagem. Acorda sorrindo sem saber por quê.

A chuva parou. Um sol frágil e frio despeja luz sobre as gotículas de água. Então ele se ergue, olha o relógio, descobre que está atrasado para o trabalho e corre. Beija as crianças, despede-se apressadamente, tropeça nas pedras do jardim, entra no carro e sai. Até chegar ao trabalho cantarola inconscientemente a letra de uma velha canção chamada Balada Triste. É uma canção cuja letra fala de outra canção que faz o cantor lembrar-se de alguém – alguém que existe dentro do seu (dele) coração. O dele, porém, é um coração vazio e solitário e talvez nem exista. Talvez nem o homem exista. Talvez suas próprias lembranças não existam. Talvez existam apenas as palavras, estas que escrevo. Que pena.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992.

Queridos Leitores

Tenho pensado seriamente em pôr um fim à minha vida.” Era terça-feira, eu tinha acabado de chegar ao jornal para começar mais um dia de minha vida efêmera e frágil e a carta estava lá, sobre a mesa: um envelope branco, subscrito com letra bem desenhada, feminina – alguém que assinou apenas como Kamikaze. Alguém sem nome e endereço. Alguém amargurado e triste.

Olhei em volta e vi pessoas trabalhando, silenciosas ou não, cada um com seu destino. Na mesa mais próxima, Glorinha, Ana Cândida, Enedina, Motta e Charles tinham o rosto triste: Alexandre Bressan, nosso colega, tinha sido assassinado com dois tiros no final de semana. Trinta e cinco anos, uma vida inteira pela frente. E, no entanto, em algum lugar desta São Paulo fria e grande, uma mulher solitária diz que pensa em morrer.

Há sol lá fora, são 9 horas da manhã. Os automóveis passam pela avenida marginal do rio Tietê conduzindo homens, mulheres e crianças: passageiros habitantes deste planeta azul. Daqui da janela sou apenas um homem comum com uma carta desesperada entre os dedos. Foi escrita no dia 9 de novembro por uma mulher com mais de 35 anos, que estudou química e estava, naquele dia, desempregada e sem vontade de viver.

Recebo cartas todos os dias. Alguns leitores escrevem todas as semanas. Quase sempre é bom. Outras vezes, não. Dulceli Nogueira (Lila), de Ribeirão Preto, quer que eu volte a acreditar em Deus e conforta minha descrença com belas citações da Bíblia. G. H. Wills, de Vargem Grande Paulista, avô de dois, sem dúvida, belos netinhos, Tati e Du, é um homem de fé que compreende e aceita minha descrença, e escreve quase sempre me confortando quando estou amargurado, ou se alegrando comigo quando faço força para ter esperança.

Regina quer ser minha namorada. Não dá, querida: minha Sylvia não iria gostar. Nem você, talvez: as pessoas fazem uma idéia da gente quando não nos conhecem – poderia ser, console-se, uma enorme decepção. Pedro Sena (ou será Souza? Ou Serra?) escreve dizendo que tenho me lastimado demais aqui neste espaço e que não adianta chorar – o jeito é entrar no Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Também não dá, Pedro: o seu partido é conservador demais. Vai ser difícil dar as mãos, como você pede, para os seus camaradas: já lhes dei as mãos há dez anos, quando quis ser comunista e tive grande apoio do Partido, até que um dia quis pensar com minha própria cabeça e os camaradas não tiveram dó nem piedade – cortaram minhas mãos e quase levaram a cabeça junto. Seja feliz, Pedro – mas fico aqui do meu canto anarquista, cheio de dúvidas e incertezas. Para o Partidão, Pedro, nem com perestroika. Seja feliz com a foice, o martelo e a sua comovente certeza de que “o socialismo deu certo na metade do mundo”. Será?

Paulo, um publicitário, quer meus préstimos para conhecer minha amiga Susana Kakowicz, uma judiazinha polaca que conquistou corações (inclusive o meu) escrevendo duas ou três vezes aqui mesmo neste espaço dominical e depois sumiu sem dar notícias.

Volta, Susana, volta. Mas pior é um sujeito que tem um projeto agropecuário e telefonou pedindo que o auxiliasse a mostrá-lo para o empresário Sílvio Santos, com direito a comissão e tudo. Cada coisa…

Há também os que ameaçam – são sempre anônimos – e que telefonam insultando e gritando palavrões, toda vez que reclamamos, por exemplo, da imoralidade com que os homens públicos destroem o que sobrou deste país. Pobre gente.

“Leitor e eu formamos um bicho composto, uno e dividido, uma parte querendo engolir a outra”, escreveu uma vez o grande e bom Carlos Drummond de Andrade, aquele que procurou sempre “extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam”.

Queridos leitores. Bons e cruéis leitores. Carentes leitores. Um deles, severo, diz que só tenho escrito coisas amargas, sombrias. É verdade: não tenho o talento do Osmar Freitas Jr. ou do Carlos Antônio Castelo Branco para brincar com as coisas. De resto, brincar como? Baixo os olhos, vejo a carta dessa mulher anônima que se assina Kamikaze, e penso, então, sobre as tristes e alegres coisas da vida. A vida é amarga, Kamikaze querida. A vida é dúvida, como escreveu uma vez meu amigo Adão Ventura, mas também é dádiva. Por isso, não se mate, meu bem. Por favor, não se mate. Morrer é muito pior que viver.

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O Sentido da Vida

Perguntas demais,
respostas de menos. Uma luz
no fim da escuridão?

O sentido da vida é nascer, crescer, envelhecer e morrer, deixando sob a terra
este antigo corpo constituído da solitária e silenciosa matéria de que foram feitas as estrelas e seus filhos, e os filhos de seus filhos, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

O sentido da vida é descobrir alegre ou amargamente a consciência das coisas, da alegria e da dor, da tristeza e do tédio, e então alegrar-se ou entristecer-se, corada ou pálida personagem de uma peça absurda, uma tragédia, comédia, ópera bufa, ou não?

Sim, o sentido da vida é este – ou não.

Será o sentido da vida amar e odiar seu irmão, em silêncio ou aos gritos, perdoar, ser perdoado, caminhar com firmeza ou vacilante sobre o abismo, cair e erguer-se, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

Será porventura o sentido da vida caminhar juntos sobre a mesma velha e generosa e solitária terra, dividir angústias e dor, enredar-se no cipoal das palavras, dizer sim, ser entendido não, dizer não, ser entendido sim, ou não?
Sim, o sentido da vida é este. Ou não.

Será o sentido da vida buscar luz nas sombras ou sombras na luz, consumir dias e noites a trilhar o áspero caminho imperfeito, buscar o caminho reto, a verdade, e descobrir então o caminho torto, a estrada estreita e, no fim da estrada, apenas neblina, mistério, horror, escuridão?

Sim, o sentido da vida é bem este, ou não.

Será, meu Deus, o sentido da vida acreditar em Deus ou alguma coisa superior à capacidade de entender, cair de joelhos e em prantos pedir caridade ou outro vago sentimento qualquer, e nada ouvir em resposta, ou sim, ouvir então uma voz silenciosa, inexistente e fria e, então, chorar, dormir, sonhar, tudo em vão?
Sim, o sentido da vida é bem este – ou não.

Será o sentido da vida crer na dourada utopia, descobrir então a insustentável fragilidade dos seres, o poder, a miséria, o horror da humana e frágil condição?
Sim, é bem este, ou não, o sentido da vida. Ou não?

Estará o sentido da vida em sonhar o sonho impossível, alcançar a estrela inatingível, vencer o inimigo imbatível, tocar a realidade intangível, e encontrar nada mais que pesadelo, o nada, a queda, a fantasia, miragens, ou não?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Será o sentido da vida entregar-se apaixonadamente às idéias de grande extensão, consumir-se como o fogo e ver apagar-se a chama, a pedra virar pó, a brasa virar carvão? Será, criaturas, o sentido da vida consumir o sangue das veias, esgotar a serenidade, despentear os cabelos, perseguir a ilusão?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Porque se existe sol também existe a lua, e a noite pode ser tão clara às vezes quanto o mais claro dos dias, ou não; mas se há perguntas demais e respostas de menos sempre haverá a busca, a esperança, a viva luz no fim da escuridão.
Porque é isto – buscar – o sentido da vida. Ou não.

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Somos todos assassinos
27-03-2007

A morte, a violência,

a solidão. Pequenos e

grandes assassinatos

Carlos Drummond de Andrade morreu. Era o que restava de poesia. Sobraram

vates patrióticos, canastrões dramáticos, revolucionários de botequim e robôs efêmeros cantando ninfetas narcóticas, calcinhas comestíveis, polícia. Sinal dos tempos?

***

(…)

Um leitor escreve e é sempre a mesma coisa: você fala demais da morte. De Deus, em que não acredita. Do amargo ato de viver. Você precisa acreditar. Bem que gostaria – e é desesperador descobrir essa terrível vontade. Não seria uma rima, talvez fosse uma solução. Mas não adianta: a fé é só um fio entre o ser e o nada.

***

(…)

***

E então silenciamos. Por quê?

***

Somos todos assassinos.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

“As convicções são cárceres.” Frases de Nietzsche

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
Friedrich Nietzsche

Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
Friedrich Nietzsche

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
Friedrich Nietzsche

Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia.
Nietzsche

O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
Friedrich Nietzsche

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche

Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.
Friedrich Nietzsche

As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
Friedrich Nietzsche

Quanto mais me elevo, menor fico aos olhos de quem não sabe voar.
Nietzsche
Torna-te aquilo que és.
Friedrich Nietzsche
Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.
Friedrich Nietzsche
As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras
Friedrich Nietzsche
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
Friedrich Nietzsche
O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.
Friedrich Nietzsche
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o!
Nietzsche
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Friedrich Nietzsche
É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.
Friedrich Nietzsche
Você vive hoje uma vida que gostaria de viver por toda a eternidade?
Friedrich Nietzsche
É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
Friedrich Nietzsche
A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
Friedrich Nietzsche
Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
Friedrich Nietzsche
Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
Friedrich Nietzsche
O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.
Friedrich Nietzsche
Sem a música, a vida seria um erro.
Friedrich Nietzsche
Temos a arte para não morrer da verdade.
Friedrich Nietzsche

“Alguns nascem póstumos”.
F. Nietzsche, O Anti-Cristo.

Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
Friedrich Nietzsche
Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.
Friedrich Nietzsche
Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche
Não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós.
Friedrich Nietzsche
É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
Friedrich Nietzsche
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.
Friedrich Nietzsche
O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.
Nietzsche
É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.
Friedrich Nietzsche
O medo é o pai da moralidade.
Friedrich Nietzsche
Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!
Friedrich Nietzsche
Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.
Friedrich Nietzsche
A vida mais doce é não pensar em nada.
Friedrich Nietzsche
Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez – a si próprio?
Friedrich Nietzsche
A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais.
Friedrich Nietzsche
Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram.
Friedrich Nietzsche
A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.
Friedrich Nietzsche
Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
Friedrich Nietzsche
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.
A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” –

Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa:

“Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?”

Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
Nietzsche
Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.
Friedrich Nietzsche
A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.
Friedrich Nietzsche
Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição.
Friedrich Nietzsche
Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (…), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
Friedrich Nietzsche
Quando se amarra bem o próprio coração e se faz dele um prisioneiro, pode-se permitir ao próprio espírito muitas liberdades.
Friedrich Nietzsche
Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar.
Friedrich Nietzsche
Aquele que sabe mandar encontra sempre quem deva obedecer.
Friedrich Nietzsche

O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.
Friedrich Nietzsche

Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.
Friedrich Nietzsche

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.
Friedrich Nietzsche

Para a maioria, quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!
Friedrich Nietzsche

A mulher foi o segundo erro de Deus.
Friedrich Nietzsche

Em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objecto desses desejos.
Friedrich Nietzsche

Não há fatos eternos como não há verdades absolutas.
Nietzsche

A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.
Friedrich Nietzsche

Logo que comunicamos os nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles suficientemente.
Friedrich Nietzsche

Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos – para nos esquecermos dele em seguida.
Friedrich Nietzsche

No convívio com sábios e artistas facilmente nos enganamos no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes por detrás de um artista medíocre – um homem muito notável.
Friedrich Nietzsche

Os grandes intelectuais são cépticos.
Friedrich Nietzsche

A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.
Friedrich Nietzsche

A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.
Friedrich Nietzsche

Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém.
Friedrich Nietzsche

Uma alma que se sabe amada, mas que por sua vez não ama, denuncia o seu fundo: – vem á superfície o que nela há de mais baixo.
Friedrich Nietzsche

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
Friedrich Nietzsche

As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.
Friedrich Nietzsche

Começamos a desconfiar das pessoas muito inteligentes quando ficam embaraçadas.
Friedrich Nietzsche

O castigo foi feito para melhorar aquele que o aplica.
Friedrich Nietzsche

É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.
Friedrich Nietzsche

O amor revela as qualidades sublimes e ocultas do que ama, – o que nele há de raro, de excepcional: nesse aspecto facilmente engana quanto ao que nele há de habitual.
Friedrich Nietzsche

O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.
Friedrich Nietzsche

Não é a força mas a constância dos bons resultados que conduz os homens à felicidade.
Friedrich Nietzsche

Temos a Arte para que a verdade não nos destrua.
Nietzsche

“Deus está morto”
Nietzsche

“Não há nada que deprima mais o ser humano (mais depressa) do que a paixão do ressentimento.” [ Friedrich Nietzsche ]

A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança.
Friedrich Nietzsche

Aquele que vive de combater um inimigo tem interesse em o deixar com vida.
Friedrich Nietzsche

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados.
Friedrich Nietzsche

Muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolheram, poucos os que se empenham no objetivo.
Friedrich Nietzsche

Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.
Friedrich Nietzsche
O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência.
Friedrich Nietzsche

Encontra-se sempre, aqui e ali, algum semi-deus que consegue viver em condições terríveis, e viver vencedor! Quereis ouvir os seus cantos solitários? Escutai a música de Beethoven.
Friedrich Nietzsche

O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.
Friedrich Nietzsche

O homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir.
Friedrich Nietzsche

O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai.
Friedrich Nietzsche

Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.
Friedrich Nietzsche

Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras.
Friedrich Nietzsche

É verdade que se mente com a boca; mas a careta que se faz ao mesmo tempo diz, apesar de tudo, a verdade.
Friedrich Nietzsche

E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Friedrich Nietzsche

Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia um dia ser admirado.
Friedrich Nietzsche

Não poríamos a mão no fogo pelas nossas opiniões: não temos assim tanta certeza delas. Mas talvez nos deixemos queimar para podermos ter e mudar as nossas opiniões.
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Torna-te quem tu és.
Friedrich Nietzsche

A esperança é o derradeiro mal; é o pior dos males, porquanto prolonga o tormento.
Friedrich Nietzsche

As vivências terríveis fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele próprio, algo de terrível.
Friedrich Nietzsche

Levar insidiosamente o próximo a uma boa opinião de nós e, depois, acreditar piamente nessa boa opinião: quem consegue imitar nesta habilidade as mulheres?
Friedrich Nietzsche

No matrimónio existem apenas obrigações e alguns direitos.
Friedrich Nietzsche

O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo.
Friedrich Nietzsche

O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem, uma corda por cima do abismo.
Friedrich Nietzsche

O sábio como astrónomo. – Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti» não possuis ainda o olhar do homem que sabe.
Friedrich Nietzsche

“Se se quer ser alguém, deve venerar-se a própria sombra.” [ Friedrich Nietzsche ]

Literatura brasileira

A literatura brasileira, considerando seu desenvolvimento baseada na língua portuguesa, faz parte do espectro cultural lusófono, sendo um desdobramento da literatura em língua portuguesa. Ela surgiu a partir da atividade literária incentivada pelo Descobrimento do Brasil durante o Século XVI. Bastante ligada, de princípio, à literatura metropolitana, ela foi ganhando independência com o tempo, especialmente durante o século XIX com os movimentos romântico e realista.

A literatura produzida no Brasil possui papel de destaque na esfera cultural do país: todos os principais jornais do país dedicam grande parte de seus cadernos culturais à análise e crítica literária, assim como o ensino da disciplina é obrigatório no Ensino Médio.

Período Colonial

  • Quinhentismo
  • Literatura de Informação
  • Literatura Barroca no Brasil
  • Literatura jesuítica
  • Barroco
  • Arcadismo

Século XIX

  • Romantismo
  • Realismo
  • Naturalismo
  • Parnasianismo
  • Simbolismo
  • Pré-Modernismo

Século XX

  • Modernismo
  • Pós-Modernismo / Geração de 45

Concretismo

Poesia Práxis

O que esperar da Literatura atual?

Literatura Contemporânea

  • Adélia Prado
  • Adão Ventura
  • Affonso Ávila
  • Alberto Mussa
  • Álvaro Cardoso Gomes
  • Ana Maria Machado
  • Ana Miranda
  • Ana Cristina César
  • Angela Dutra de Menezes
  • Antônio Barreto
  • Antônio Callado
  • Antônio Carlos Viana
  • Antônio Torres
  • Augusto Boal
  • Augusto de Campos
  • Autran Dourado
  • Benito Barreto
  • Bernardo Élis
  • Caio Fernando Abreu
  • Campos de Carvalho
  • Carlos Ávila
  • Carlos Heitor Cony
  • Carlos Herculano Lopes
  • Carlos Nascimento Silva
  • Chico Buarque de Holanda
  • Dalton Trevisan
  • Décio Pignatari
  • Dias Gomes
  • Domício Proença Filho
  • Domingos Pellegrini Jr.
  • Duílio Gomes
  • Eduardo Alves da Costa
  • Edla Van Steen
  • Edy Lima
  • Elias José
  • Elza Beatriz
  • Esdras do Nascimento
  • Fernando Sabino
  • Francisco Alvim
  • Geraldo Ferraz
  • Gianfrancesco Guarnieri
  • Haroldo de Campos
  • Harry Laus
  • Hélio Pólvora
  • Henry Corrêa de Araújo
  • Hilda Hilst
  • Humberto Werneck
  • Ignácio de Loyola Brandão
  • Jaime Prado Gouveia
  • Jeter Neves
  • João Antônio
  • João Pedro Roriz
  • João Ubaldo Ribeiro
  • Joel Silveira
  • Jorge Amado
  • José J. Veiga
  • José Maria Cançado
  • José Paulo Pais
  • José Roberto Torero
  • José Sarney
  • Laís Corrêa de Araújo
  • Libério Neves
  • Lindanor Celina
  • Lucia Castello Branco
  • Luís Fernando Veríssimo
  • Luiz Antonio Aguiar
  • Luiz Antonio de Assis Brasil
  • Luiz Fernando Emediato
  • Luiz Vilela
  • Lya Luft
  • Lygia Fagundes Teles
  • Manoel Carlos Karam
  • Marcelo Mirisola
  • Márcia Frazão
  • Mário Garcia de Paiva
  • Mário Prata
  • Mário Ribeiro da Cruz
  • Marques Rebello
  • Moacyr Scliar
  • Murilo Mendes
  • Murilo Rubião
  • Nélida Piñon
  • Nelson Motta
  • Otavio Augusto Lisboa
  • Otto Lara Resende
  • Paschoal Mota
  • Paulo Bentancur
  • Paulo Coelho
  • Paulo Leminski
  • Paulo Mendes Campos
  • Paulinho Assunção
  • Per Johns
  • Raduan Nassar
  • Reinaldo Moraes
  • Renard Perez
  • Ricardo Bellissimo
  • Ricardo Ramos
  • Ronald Claver
  • Rubem Braga
  • Rubem Fonseca
  • Rui Mourão
  • Ruth Rocha
  • Ruy Castro
  • Samuel Rawet
  • Sérgio Sant’Anna
  • Silviano Santiago
  • Sylvia R. Pellegrino
  • Wander Piroli
  • Yara Cecim
  • Zélia Gattai

Escritores do início do século XXI

Prosadores

  • Adriana Falcão
  • Adriana Lisboa
  • Adriana Lunardi
  • Alberto Mussa
  • Alexandre Soares Silva
  • Amílcar Bettega Barbosa
  • Ana Paula Maia
  • Andréa del Fuego
  • André Takeda
  • André Sant’Anna
  • Antônio Dutra
  • Antonio Prata
  • Astolfo Lima Sandy
  • Augusto Sales
  • Bernardo Carvalho
  • Bruno Zeni
  • Cecília Giannetti
  • Christiane Tassis
  • Cintia Moscovich
  • Clarah Averbuck
  • Clarice Pacheco
  • Cristiano Baldi
  • Daniel Frazão
  • Daniel Galera
  • Daniel Pellizzari
  • Eduardo Selga
  • Estevão Azevedo
  • Fernanda Young
  • Fernando Bonassi
  • Fernando Molica
  • Flávio Carneiro
  • Francisco Slade
  • Henrique Chagas
  • Ivana Arruda Leite
  • Ivan Sant’Anna
  • João Paulo Cuenca
  • Joca Reiners Terron
  • Julia Mendes
  • Leonardo de Moraes
  • Livia Garcia-Roza
  • Luis Eduardo Matta
  • Luiz Alfredo Garcia-Roza
  • Luiz Ruffato
  • Mara Coradello
  • Marçal Aquino
  • Marcelino Freire
  • Marcelo Benvenutti
  • Marcelo Mirisola
  • Marcelo Moutinho
  • Mariel Reis
  • Mário Bortolotto
  • Max Mallmann
  • Michel Laub
  • Miguel Sanches Neto
  • Milton Hatoum
  • Modesto Carone
  • Nelson de Oliveira
  • Orlando Pais Filho
  • Patrícia Melo
  • Paulo Bullar
  • Paulo Polzonoff Jr
  • Paulo Roberto Pires
  • Paulo Scott
  • Ricardo Bellissimo
  • Ricardo Lísias
  • Ricardo Soares
  • Raduan Nassar
  • Ronaldo Bressane
  • Ronaldo Cagiano
  • Ronaldo Correia de Brito
  • Ruy Tapioca
  • Santiago Nazarian
  • Sérgio Rodrigues
  • Simone Campos
  • Sonia Sant’Anna
  • Thales Guaracy
  • Thiago Iacocca
  • Vera Carvalho Assumpção
  • Vicente Franz Cecim
  • Vinicius Jatobá
  • Walter Solon
  • Xico Sá
  • Zé Rodrix
  • Zulmira Ribeiro Tavares

Poetas

  • Ana Elisa Ribeiro
  • Andréa Catrópa
  • Andrea Paola Costa Prado
  • Angélica Freitas
  • Annita Costa Malufe
  • Bruna Beber
  • Carlito Azevedo
  • Carlos Eduardo Drummond
  • Clarice Pacheco
  • Claudio Daniel
  • Delmo Montenegro
  • Dimythryus
  • Dirceu Villa
  • Donny Correia
  • Eduardo de Paula Barreto
  • Eduardo Lacerda
  • Elisa Nazarian
  • Fabiano Calixto
  • Fabrício Carpinejar
  • Fábio Aristimunho Vargas
  • Fabio Weintraub
  • Francisco Alvim
  • Frederico Barbosa
  • Gilmar Luís Silva Júnior
  • Heitor Ferraz
  • Horacio Costa
  • João Pedro Roriz
  • Laurindo dos Santos
  • Leila Mícollis
  • Leônidas de Albuquerque
  • Lilian Aquino
  • Luiz Roberto Guedes
  • Márcio Calixto
  • Marco Antônio Saraiva
  • Micheliny Verunschk
  • Otavio Augusto Lisboa
  • Paulo Aquarone
  • Paulo Ferraz
  • Paulo Henriques Britto
  • Pedro Tostes
  • Renan Nuernberger
  • Ricardo Bellissimo
  • Tarso de Melo
  • Thiago Ponce de Moraes
  • Valério Oliveira
  • Victor Del Franco
  • Virna Teixeira
  • Zacarias Martins

Coletivos

  • Editora Baleia
  • Editora Casa Verde

Gertrude Stein

Gertrude Stein (nasceu dia 3 de fevereiro de 1874, em Pittsburgh, EUA – faleceu dia 27 de julho de 1946, em Paris, França). Foi uma escritora, poeta e feminista.

Tinha um apreciável círculo de amigos, como Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picábia, Ezra Pound e James Joyce, isso apenas pra citar alguns.

Miss Stein era realmente genial e escreveu “Autobiografia de Alice B. Toklas”, livro fundamental da vanguarda dos anos 1910, 20 e 30. Com estilo muito próprio, a narrativa conta como jovens artistas e escritores vindos das mais diversas partes do mundo se encontram em Paris e detonam novos caminhos para a arte. Picasso vinha da Catalunha, Joyce da Irlanda, ela própria vinha da América, Nijinski era russo, havia vários franceses, como Cocteau, Apollinaire, Matisse. É bom lembrar que, apesar do nome, o livro foi escrito por Miss Stein, tendo como porta-voz Alice B. Toklas, sua companheira durante vinte e cinco anos. Compondo um interessante painel das três primeiras décadas deste século: “Gertrude Stein e o irmão visitavam frequentemente os Matisse que constantemente retribuíam as visitas. De vez em quando Madame Matisse convidava-os para almoçar, o que acontecia principalmente quando recebia alguma lebre de presente. Lebre estufada feita por Madame Matisse à moda de Perpignan era algo fora do comum. Tinha também vinho de primeira, um pouco pesado, mas excelente”. Durante esse tempo Miss Stein e sua companheira Alice viveram no número 27, rue de Fleurus. Este endereço se tornaria lendário e um importante ponto de encontro desses “gênios”.

Gertrude Stein seria a primeira a pendurar em sua parede pinturas de Juan Gris, Matisse e Picasso. Mais tarde romperia com muitos deles, inclusive com Picasso, por quem manteve grande afeição. Antes porém, posaria noventa e três vezes para que o artista catalão desse por finalizado o seu retrato: “Mas em nada se parece comigo, Pablo” disse ela. “Mas certamente vai parecer ,Gertrude, certamente…” respondeu o pintor. O rompimento dos dois se daria apenas em 1927, por ocasião da morte de Juan Gris. Gertrude acusou Picasso de não ter estimado Gris o bastante, ele retrucou e os dois tiveram um belo e histórico bate-boca.

Miss Stein adorava fazer provocações. A palavra génio exercia mesmo uma influência considerável em sua vida. Afinal era uma escritora de estilo bastante peculiar e engenhoso, a inventora da escrita automática. Assim os intelectuais de seu tempo perguntavam se ela era mesmo gênio ou não passava de uma impostora. Ela dava o troco:“Ser gênio exige um tempo medonho, indo de um lugar a outro sem nada fazer”, ou então:” um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”.

Com a Primeira Guerra Mundial Miss Stein e Alice viveram sua aventura alistando-se no F.A.F.F, um Fundo de proteção aos americanos que então viviam na Europa, dando folga a seus embates artísticos e literários, a aventura é narrada na Autobiografia. Após a guerra a vida voltou ao normal mas tudo já estava transformado para sempre, inclusive e principalmente Paris. Não tanto a fachada e a arquitetura da cidade, mas as pessoas e o ritmo da vida.

O Existencialismo

O Existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. O existencialismo considera cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino.

O existencialismo afirma o primado da existência sobre a essência, segundo a célebre definição do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “A existência precede e governa a essência.” Essa definição funda a liberdade e a responsabilidade do homem, visto que esse existe sem que seu ser seja pré-definido. Durante a existência, à medida que experimenta-se novas vivências redefine-se o próprio pensamento (a sede intelectual, tida como a alma para os clássicos), adquirindo-se novos conhecimentos a respeito da própria essência, caracterizando-a sucessivamente. Esta característica do ser é fruto da liberdade de eleição. Sartre, após ter feito estudos sobre fenomenologia na Alemanha, criou o termo utilizando a palavra francesa “existence” como tradução da palavra alemã “Dasein”, termo empregado por Heidegger em Ser e tempo.

Após a Segunda Guerra Mundial, uma corrente literária existencialista contou com Albert Camus e Boris Vian, além do próprio Sartre. É importante notar que Albert Camus, filósofo além de literato, ia contra o existencialismo, sendo este somente característica de sua obra literária. Vian definia-se patafísico.

O existencialismo foi inspirado nas obras de Arthur Schopenhauer, Søren Kierkegaard, Fiódor Dostoiévski e nos filósofos alemães Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl e Martin Heidegger, e foi particularmente popularizado em meados do século XX pelas obras do escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre e de sua companheira, a escritora e filósofa Simone de Beauvoir. Os mais importantes princípios do movimento são expostos no livro de Sartre “L’Existentialisme est un humanisme” (“O Existencialismo é um humanismo”). O termo existencialismo foi adotado apesar de existência filosófica ter sido usado inicialmente por Karl Jaspers, da mesma tradição.

O existencialismo é um movimento filosófico e literário distinto pertencente aos séculos XIX e XX, mas os seus elementos podem ser encontrados no pensamento (e vida) de Sócrates, na Bíblia, em Aurélio Agostinho e no trabalho de muitos filósofos e escritores pré-modernos. Culturalmente, podemos identificar pelo menos duas linhas de pensamento existencialista: Alemã-Dinamarquesa e Anglo-Francesa. As culturas judaica e russa também contribuíram para esta filosofia. O movimento filosófico agora conhecido como existencialismo de Beauvoir. Após ter experienciado vários distúrbios civis, guerras locais e duas guerras mundiais, algumas pessoas na Europa foram forçadas a concluir que a vida é inerentemente miserável e irracional. Para muitos, autores como Heidegger ou Kierkegaard foram também existencialistas, sendo que em torno das suas teses se constituíram correntes ainda hoje vivas. O existencialismo não morreu de facto, pelo contrário, continua a produzir, quer na filosofia, quer na literatura, ou mesmo no cinema.

Os temas existencialistas são férteis no terreno da criação literária, nomeadamente na (literatura francesa), e continuam a exibir vitalidade no mundo filosófico e literário contemporâneo.

As principais temáticas abordadas sugerem o contexto da sua aparição (final da Segunda Guerra Mundial), reflectindo o absurdo do mundo e da barbárie injustificada, das situações e das relações quotidianas (“L’enfer, c’est les autres”, Jean-Paul Sartre). Paralelamente, surgem temáticas como o silêncio e a solidão, corolários óbvios de vidas largadas ao abandono, depois da “morte de Deus” (Friedrich Nietzsche). A existência humana, em toda a sua natureza, é questionada: quem somos? O que fazemos? Para onde vamos? Quem nos move?

É esta consciência aguda de abandono e de solidão (voluntária ou não), de impotência e de injustificabilidade das acções, que se manifesta nas principais obras desta corrente em que o filosófico e o literário se conjugam.

Apesar de muitos, senão a maioria, dos existencialistas terem sido ateístas, os autores Søren Kierkegaard, Karl Jaspers e Gabriel Marcel propuseram uma versão mais teológica do existencialismo. O ex-marxista Nikolai Berdyaev desenvolveu uma filosofia do Cristianismo existencialista na sua Rússia natal e mais tarde na França, na véspera da Segunda Guerra Mundial.

O existencialismo não é uma simples escola de pensamento, livre de qualquer e toda forma de fé. Ajuda a entender que muitos dos existencialistas eram, de fato, religiosos. Pascal e Kierkegaard eram cristãos dedicados. Pascal era católico, Kierkegaard, um protestante radical e defensor dos ensinamentos de Lutero. Dostoiévski era greco-ortodoxo, a ponto de ser fanático. Kafka era judeu.[carece de fontes?] Sartre realmente não acreditava em força divina. Sartre não foi criado sem religião, mas a Segunda Guerra Mundial e o constante sofrimento no mundo levou-o para longe da fé, de acordo com várias biografias, incluindo a de sua companheira, Simone de Beauvoir. Curiosamente, Sartre passou seus últimos anos de vida explorando assuntos de fé e dedicação com um judeu ortodoxo. Apenas podemos imaginar suas conversas, já que Sartre não as registrou.

Para os existencialistas cristãos, a fé defende o indivíduo e guia as decisões com um conjunto rigoroso de regras. Para os ateus, a ironia é a de que não importa o quanto você faça para melhorar a si ou aos outros, você sempre vai se deteriorar e morrer. Muitos existencialistas acreditam que a grande vitória do indivíduo é perceber o absurdo da vida e aceitá-la. Resumindo, você vive uma vida miserável, pela qual você pode ou não ser recompensado por uma força maior. Se essa força existe, por que os homens sofrem? Se não existe, por que não cometer suicídio e encurtar seu sofrimento? Essas questões apenas insinuam a complexidade do pensamento existencialista.

A existência precede e governa a essência.

É um conceito da corrente filosófica existencialista. A frase foi primeiramente formulada por Jean-Paul Sartre, e é um dos princípios fundamentais do existencialismo.

O indivíduo, no princípio, somente tem a existência comprovada. Com o passar do tempo ele incorpora a essência em seu ser. Não existe uma essência pré-determinada.

Com esta frase, os existencialistas rejeitam a idéia de que há no ser humano uma alma imutável, desde os primórdios da existência até a morte. Esta essência será adquirida através da sua existência. O indivíduo por si só define a sua realidade.

Em 1946, no “Club Maintenant” em Paris, Jean Paul Sartre pronuncia uma conferência, que se tornou um opúsculo com o nome de “O Existencialismo é um Humanismo”. Nele, ele explica a frase, desta forma:

“… se Deus não existe, há pelo menos um ser, no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa então que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente é nada. Só depois será, e será tal como a si próprio se fizer.”

“O homem é condenado a ser livre”

Com essa afirmação vemos o peso da responsabilidade por sermos totalmente livres. E, frente a essa liberdade de eleição, o ser humano se angustia, pois a liberdade implica em fazer escolhas, as quais só o próprio indivíduo pode fazer. Muitos de nós ficamos paralisados e, dessa forma, nos abstemos de fazer as escolhas necessárias. Porém, a “não ação”, o “nada fazer”, por si só, já é uma escolha; a escolha de não agir. A escolha de adiar a existência, evitando os riscos, a fim de não errar e gerar culpa, é uma tônica na sociedade contemporânea. Arriscar-se, procurar a autenticidade, é uma tarefa árdua, uma jornada pessoal que o ser deve empreender em busca de si mesmo.

Os existencialistas perguntaram-se se havia um Criador. Se sim, qual é a relação entre a espécie humana e esse criador? As leis da natureza já foram pré-definidas e os homens têm que se adaptar a elas? Esses homens estiveram tão dedicados aos seus estudos que tornaram-se anti-sociais, enquanto se preocupavam com a humanidade.

Kierkegaard, Nietzsche e Heidegger são alguns dos filósofos que mais influenciaram o existencialismo. Os dois primeiros se preocupavam com a mesma questão: o que limita a ação de um indivíduo? Kierkegaard chegou à possibilidade de que o cristianismo e a fé em geral são irracionais, argumentando que provar a existência de uma única e suprema entidade é uma atividade inútil.

Nietzsche, freqüentemente caracterizado como ateu, foi sobretudo um crítico da religião organizada e das doutrinas de seu tempo. Ele acreditou que a religião organizada, especialmente a Igreja Católica, era contra qualquer poder de ganho ou autoconfiança sem consentimento. Nietzsche usou o termo rebanho para descrever a população que segue a Igreja de boa vontade. Ele argumentou que provar a existência de um criador não era possível nem importante.

Na verdade, Nietzsche valorizava e exaltava a vida como única entidade que carecia de louvor. Prova disso é o eterno retorno em que ele afirmava que o homem deveria viver a vida como se tivesse que vivê-la novamente e eternamente. A implicação disso é uma extrema valorização da vida, imaginemos cada segundo, cada minuto vivido igualmente e eternamente? E quanto à Igreja, Nietzsche a condenava pois é um traço das influências de Paulo de Tarso na sociedade contemporânea; ele era sim ateu, e para ele, dentre os inteligentes o pior era o padre, pois conseguia incutir nos pensamentos do rebanho, fundamentos falsos, exteriores e metafísicos demais, que só contribuíam para o afastamento da vida. Encontramos essas críticas em O Anticristo.

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O existencialismo representa a vida como uma série de lutas. O indivíduo é forçado a tomar decisões; freqüentemente as escolhas são ruins. Nas obras de alguns pensadores, parece que a liberdade e a escolha pessoal são as sementes da miséria. A maldição do livre arbítrio foi de particular interesse dos existencialistas teológicos e cristãos.

As regras sociais são o resultado da tentativa dos homens de planejar um projeto funcional. Ou seja, quanto mais estruturada a sociedade, mais funcional ela deveria ser.

Os existencialistas explicam por que algumas pessoas se sentem atraídas à passividade moral baseando-se no desafio de tomar decisões. Seguir ordens é fácil; requer pouco esforço emocional e intelectual fazer o que lhe mandam. Se a ordem não é lógica, não é o soldado que deve questionar. Deste modo, as guerras podem ser explicadas, genocídios em massa podem ser entendidos. As pessoas estavam apenas fazendo o que lhe foi dito.

Importantes Filósofos para o Existencialismo

  • Martin Heidegger
  • Jean-Paul Sartre
  • Søren Kierkegaard
  • Edmund Husserl
  • Friedrich Nietzsche
  • Arthur Schopenhauer

Há duas linhas existencialistas famosas, quer de impulsionadores, quer de existencialistas propriamente ditos.

A primeira, de Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger é agrupada intelectualmente. Esses homens são os pais do existencialismo e dedicaram-se para estudar a condição humana. A segunda, de Sartre, Camus e Beauvoir, era uma linha marcada pelo compromisso político. Enquanto outras pessoas entraram e saíram, esses sete indivíduos definiram o existencialismo.

O filosofar Heideggeriano é uma constante interrogação, na procura de revelar e levar à luz da compreensão o próprio objeto que decide sobre a estrutura dessa interrogação, e que orienta as cadências do seu movimento: a questão sobre o Ser.

A meta de Heidegger é penetrar na filosofia, demorar nela, submeter seu comportamento às suas leis. O caminho seguido por ele deve ser, portanto, de tal modo e de tal direção, que aquilo de que a Filosofia trata atinja nossa responsabilidade, vise a nós homens, nos toque e, justamente, em todo o ente que é no Ser.

O pensamento de Heidegger é um retorno ao fundamento da metafísica num movimento problematizador, uma meditação sobre a Filosofia no sentido daquilo que permanece fundamentalmente velado.

A Filosofia sobre a qual ele nos convida a meditar é a grande característica da inquietação humana em geral, a questão sobre o Ser.

Heidegger entende que a Filosofia é nas origens, na sua essência, de tal natureza que ela primeiro se apoderou do mundo grego e só dele, usando-o para se desenvolver.

O caminho que Heidegger segue é orientado pela procura de renovar a temática do Ser na Filosofia ocidental. Todavia, ele constata que nunca o pensamento ocidental conseguiu resolver a questão sobre o Ser.