Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta

Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk necessária e primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de “Clube da Luta”. Seu primeiro livro, que foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher, (reunindo os astros Brad Pitt e Eduardo Norton), se transformou em uma obra de culto de tamanhas proporções que várias das idéias do autor contidas no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais a serem seguidos. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no cinema durante uma sessão do filme e atirou contra várias pessoas e, segundo ele, motivado pelos ideais do filme. Uma rápida “googleada” e se percebe que, mais do que debater os valores literários da obra, existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência nos “mandamentos” de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler Durden, o personagem anti-capitalista que no cinema foi representado por Brad Pitt.

Certo é que não se pode reduzir esta obra de Palahniuk, tão somente, a um livro de idéias violentas. Não obstante sua trama – Jack, um investigador em uma companhia de seguros que, não agüentando mais sua rotina comezinha sem significados e emoções e conhecendo Tyler, um maluco que gosta de resolver tudo na base da porrada, fundam o tal Clube da Luta, um local onde homens brigam entre si para extravasar toda a fúria que suas vidas rotineiras lhes causam. Mas a coisa começa a sair do controle, e o que era pra ser apenas uma seção de “psicanálise dolorida” passa a se transformar numa organização terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo – existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder e ostentação. “Clube da Luta” é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente.

Chuck Palahniuk teve, assim como as tramas de seus livros, uma vida insólita. Jornalista de profissão, Palahniuk já foi artista de rap, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. O acusado está no corredor da morte. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. O autor adora conversar sobre sua quase obsessão em fazer humor com episódios trágicos, sobre as referências anticonsumo presentes em suas histórias, sobre sua escrita enxuta e direta, e suas narrativas repletas de escatologia. Um exemplo notório disto é um conto do autor chamado “Guts” (vísceras), presente no livro “Haunted”, de 2005 e que foi publicado em março de 2004 na revista Playboy americana. No conto, com sua peculiar descrição direta e irônica, o autor narra episódios – verídicos, segundo ele – de obsessão masturbatória de três adolescentes dispostos a ir cada vez mais fundo para ampliar o seu espectro de prazer nesta prática. De inserção de cenouras no ânus até filetes de cera endurecida no orifício peniano, as taras realmente caminham para o extremo, passando por masturbação com asfixia e culminando para o jovem que se masturba dentro da piscina, sentado sobre o duto de sucção a lhe aspirar o ânus. Sem calcular o potencial de que é capaz tal duto, ficamos finalmente sabendo o porquê do “guts” do título. Em 2003, durante sua turnê para promover o romance “Diary”, o autor leu o conto para diversas platéias nos Estados Unidos. Mais de 75 desmaiaram ao ouvir a leitura. Confesso que quando o li não cheguei a tanto, mas é totalmente compreensível o motivo de tal fato. Quem quiser tirar a prova, pode conferir a tradução do conto Guts.

Depois de “Clube da Luta”, que é de 1996, o autor lançou “Survivor”, em 1999, que aqui no Brasil recebeu o nome de “Sobrevivente”, lançado pela editora Nova Alexandria. “Sobrevivente” compartilha com “Clube da Luta” o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa, começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas apenas para serem “funcionários perfeitos”. O personagem conta em prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade para trabalhar em casas de família – nas horas vagas aliciando moças e dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado. O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o indivíduo pode ser moldado – seja pela igreja através da culpa e êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios; pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo protagonista seqüestra um avião.

Em “Invisible Monsters”, de 1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas. Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado “doentio” em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor depois que Palahniuk estreou na literatura com “Clube da Luta”.

2001 é o ano de “Choke”, publicado pela Rocco no Brasil como “No Sufoco”, onde um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro.

O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra, entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora. Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela Humanidade.

Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem.

Quando em 2002, o autor lançou “Lullaby, a novel” (aqui no Brasil lançado pela editora Rocco com o nome “Cantiga de Ninar”), Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em “Cantiga de Ninar” Carl Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de realizar uma série de artigos sobre o que chamam de “Síndrome da Morte Infantil Súbita”. Durante a investigação ele descobre uma ligação sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças, de antologia “Pomas e rimas ao redor do mundo”, aberto na página 27 onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo. Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra, namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a raça humana.

O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros “musicômanos”, que se entretém com modelos prontos e alienantes de diversão (“Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo. Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.”).

Em “Cantiga de Ninar” o autor diminui um tanto, por exemplo, sua descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita.

Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado. Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o bastante tal qual os que se motivam por “ideais” como os propagados em “Clube da Luta” e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento – pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento (como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs espalhados pelo mundo.

Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que necessário saber até que nível esta “fobia consumista” do autor não encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal, não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela mais nova “modernidade literária”), também gera seus subprodutos e dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos adiantado de produção: “Sufoco”, “Survivor”, “Diary”, “Invisible Monsters” e “Lullaby”. Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.

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The Voice Brasil e o racismo

Claudia Leite, Carlinhos Brown, Daniel e Lulu santos não viram cadeira para índio no The Voice Brasil e se arrependem. Para mim foi uma merda. Quando viram que era uma indígena a coisa mudou. Queriam ter dado valor porque ele era um ídio. 

Vai se foder! Sem noção isso. É uma espécie de racismo, uma bosta isso.

Uma pena ter visto isso, porque, porra, Lulu Santos e Carlinhos Brown, tão cultos, passar essa imagem fodida foi uma vergonha.

Mais poderá ser encontrado no site abaixo e na internet em geral.

http://falaleonardo.com/2012/09/23/resenha-estreia-do-the-voice-brasil-e-o-caso-do-indio-yuri-maizon/

JT LeRoy

I always said, I don’t know who I am, so how can I own an identity?
…everything you need to know you can find in my books.

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Quando JT LeRoy surgiu com este primeiro livro, aos 20 anos de idade, foi um espanto. Jovem, genial e tão esquisito quanto JD Salinger, ele foi logo traduzido em vários idiomas e adotado por personalidades tão díspares quanto Madonna e o cineasta Gus Van Sant, do qual se tornou amigo e colaborador. Sarah, de fundo autobiográfico, é a história de uma criança graciosamente andrógina – o narrador – cuja mãe, prostituta em paradas de caminhoneiros, veste-o como mulher para que também se prostitua. Esse personagem tão improvável quanto engraçado, tão triste e trágico quanto patético, afunda então num reino delirante e perversamente idílico, no qual é explorado pelo violento cafetão Leloup, de quem procura fugir para viver no mundo menos infeliz de outro cafetão, o boa praça Glad Gratefull. JT LeRoy criou neste primeiro e genial livro um submundo memorável e terrível, tão acolhedor quanto sofrido e bizarro, tão belo e poético quanto apavorante, e sem dúvida surpreendentemente original.

”Maldito Coração” contém os primeiros textos, que se afirmava serem autobiográficos, do estranho autor norte-americano JT LeRoy, que se apresentava no jet set internacional como uma figura andrógina e perturbadora, amigo e parceiro de personalidades tão Díspares quanto Madonna, o cineasta Gus Van Sant e alguns ícones da moda. No momento em que o mundo se surpreende com a revelação de que LeRoy não existe – a verdadeira autora se chama Laura Albert e a pessoa que se apresenta como ele é uma mulher, Savannah Knoop – a Geração Editorial (que também publicou seu romance “Sarah”) reafirma seu compromisso com a obra e mantém a publicação, tendo em vista a qualidade de seus textos. Em “Maldito Coração”, JT LeRoy nos conta a história da trágica infância de uma criança transformada em prostituto infantil e drogada, conduzida pela mãe – uma prostituta juvenil – numa fantástica viagem pelas estradas dos Estados Unidos. Um texto inquietante, engraçado, brutal, sinistro, que descreve a perturbadora relação entre uma mãe e seu filho criança e, depois, adolescente. Histórias chocantes de amor abusivo e disfunção sexual, de coração partido e inocência perdida. Mais uma vez, a imaginação e o lirismo fantástico de LeRoy alteram seu suposto passado sombrio para algo completamente estranho e mágico. Realidade ou fantasia, não importa: a obra é fascinante.

Leroy fora supostamente um jovem garoto de programa de beira de estrada que passara do ambiente rural de Virginia Ocidental para a vida de um sem-teto viciado em drogas em São Francisco. Resgatado quando adolescente pelo casal Laura Albert e Geoffrey Knoop e tratado por um psicólogo, ele teria conseguido transformar sua trágica juventude numa próspera carreira de escritor. JT Leroy publicou três livros de ficção aclamados pela crítica, chamando a atenção pelo retrato cabal da prostituição infantil e do uso de drogas.

Leroy lançou livros, teve obras filmadas, e depois descobriu-se que ele não existia. Era um pseudônimo de uma escritora que recorria a uma enteada para desempenhar o papel de “Leroy” em público. “Ele” esteve no Brasil em 2005, na Flip (Festa Literária de Paraty), e deu entrevistas que exploravam sua aparência andrógina, quase transexual. Em 2006 a verdade saiu nos jornais.

J. T. Leroy tem um livro, adaptado para o cinema, com o título “The Heart is Deceitful Above All Things” – “O Coração é Enganador Acima de Tudo”. O que nos traz aos versos de Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.  Emoções podem ser verdadeiras mesmo produzidas por uma vivência não real – o cinema está aí para isso, não é mesmo? Para que recebamos por duas horas o espírito daquele personagem interpretado por Dustin Hoffmann ou Fernanda Montenegro, soframos com ele, riamos com ele, identifiquemo-nos com seus menores trejeitos faciais, com as menores inflexões de sua voz. São falsas, essas emoções que nos violentam na sala escura? Não acho. São as mesmas de um escritor que as produz conscientemente em si próprio, num gabinete silencioso, a sós diante do computador. Guimarães Rosa dizia: “De repente, o diabo me cavalga”. Não o Diabo cristão: mas o “Daimon” grego, o espírito criador que pede para dizer algo. Se lhe inventamos um nome e uma biografia, aí são outros quinhentos.

Nos tribunais americanos está rolando um processo judicial envolvendo a obra autobiográfica do escritor J. T. Leroy, que estreou em 2000 com o livro “Sarah” (publicado no Brasil pela Geração Editorial), onde contava sua infância sofrida como filho de uma prostituta de beira de estrada que atendia caminhoneiros. O personagem público de JT Leroy é interpretado por Savannah Knoop, meia-irmã de Geoffrey Knoop. Uma fotografia de Savannah na inauguração de uma loja de roupas em São Francisco, em 2003, foi descoberta na internet. Cinco pessoas íntimas de Leroy identificaram Savannah como a pessoa que conheciam por JT Leroy. Entre elas sua agente literária, Ira Silverberg, e Lilly Bright, produtora do filme “The heart is deceitful above all things” (que estréia no Brasil no dia 20, com o nome de “Maldito coração”) , baseado num livro de contos de 2001.

Nyoka Lowery, designer de chapéus que aparece na fotografia ao lado de Savannah, disse que a conhece há anos e a identificou em outra fotografia na internet, no site de uma empresa de roupas em São Francisco, Nisa. Umay Mohammed, dona da Nisa, disse pelo telefone que Savannah Knoop era uma amiga e modelo de seu site.

Contactada por telefone, Savannah apenas afirmou, antes de desligar:

— Não preciso disto em minha vida no momento — disse ela, que não respondeu a mensagens pedindo mais comentários sobre o assunto.

Escritores como Dennis Cooper, Mary Gaitskill e Mary Karr apoiaram a carreira literária de Leroy, assim como diversos editores de Manhattan e celebridades do cinema e da música pop, como Courtney Love, Tatum O’Neal, Billy Corgan, Shirley Manson e Carrie Fisher. Jornalistas (incluindo, em novembro de 2004, este repórter) também escreveram crédulos perfis sobre o jovem escritor de sucesso, inclusive com entrevistas ao vivo. O “New York Times” chegou a publicar, em setembro de 2005, um artigo assinado por JT Leroy num suplemento de domingo, “T: Travel”.

O desmascaramento soma-se à hipótese de que Laura Albert é a real autora dos livros. Essa suposição começou a existir em outubro, quando a revista “New York” publicou um artigo de Stephen Beachy. O jornalista retratava Laura, de 40 anos, e Geoffrey Knoop, de 39, como malsucedidos músicos de rock que planejaram o personagem de Leroy para ter acesso aos círculos literários e, depois, a celebridades. O plano teria começado com fax, e-mails e telefonemas de Laura, falando com sotaque de Virgínia Ocidental como se fosse JT Leroy. O artigo ainda contava que Laura teria pedido a um amigo para datilografar manuscritos com evidentes semelhanças temáticas em relação ao trabalho posteriormente publicado por Leroy. Segundo a teoria de Beachy, quando este nome se tornou famoso, era necessário um ator para interpretar o papel. Mas ele não sabia quem era esse ator.

Beachy descobriu que as vendas do primeiro romance de Leroy, “Sarah”, de 2000, foram pagas para a irmã de Laura Albert, Joanna Albert, e que outros pagamentos a Leroy foram feitos a uma empresa de Nevada, Underdogs Inc. A presidente da companhia é a mãe de Laura, Carolyn F. Albert. Contactada por telefone, ela não quis comentar sobre o assunto. O pagamento para o artigo de Leroy também foi feito para a Underdogs.

Depois da publicação do artigo de Beachy, o “Times” começou a examinar as circunstâncias do texto escrito por Leroy na “T: Travel”, sobre uma viagem para a Disneylândia em Paris, com quatro pessoas. Mas recibos enviados por Leroy mostravam um itinerário para apenas três pessoas. Funcionários da Disneylândia e de dois hotéis de Paris identificaram Laura Albert na fotografia como a pessoa apresentada como JT Leroy. Segundo os funcionários, Laura disse que tinha feito uma operação para trocar de sexo e era agora uma mulher. Ela disse ainda que viajava com seu marido e o filho pequeno.

No número de telefone e nos e-mails que Leroy havia dado aos editores do “Times”, foi encontrado Peter Cane, um advogado de Manhattan. Cane não quis fornecer o passaporte de Leroy para confirmar sua identidade e o fato de ter viajado para a Europa. Mais tarde, Cane enviou um e-mail de Leroy em resposta às dúvidas sobre Savannah Knoop: “Como um ser humano com características do sexo oposto, sujeito a ataques, uso substitutos para proteger minha identidade”. Leroy já havia argumentado ter traços femininos para explicar a confusão sobre sua identidade.

Não se sabe que efeito o desmascaramento de Savannah Knoop terá em seus leitores, que agora enfrentam a questão de se o que lhes atraía eram os livros ou a história por trás deles. A falsa identidade também pode ter repercussões no mundo editorial: Leroy tem contrato com a Viking para um novo romance, e Ira Silverberg, sua agente, disse que seus livros estão à venda em 20 países. Carolyn Coleburn, diretora de publicidade da Viking, disse simplesmente:

— Nós apoiamos nossos autores.

Os produtores do filme sentiram-se lesados. Julgavam estar comprando uma história autobiográfica; se os fatos do livro eram ficção, aquilo mudava tudo. Mas aí Laura Albert foi mais fundo. Revelou que J. T. Leroy era na verdade um “alter ego”, uma dupla personalidade real, alguém que tinha existência própria e vivia dentro de sua mente. Sua mãe testemunhou, no tribunal, que a filha tinha graves depressões, foi internada várias vezes, e era de uma timidez patológica: chegou a ficar três anos sem sair do quarto. Nesse quadro de neurose e desepero, J. T. Leroy emergiu (diz a escritora) como um respiradouro, uma válvula de escape. E foi ele quem passou a se comunicar com o mundo, por escrito.

Leroy, era um ex-prostituto infantil, ex-sem-teto, ex-criança abandonada e com uma história comovente, ele tinha tudo para ser invenção de um autor excêntrico, já que não dava entrevistas nem tirava fotografias. Aos poucos foi se revelando e ganhando admiração da crítica literária americana, da “Spin Magazine” ao “The New York Times“. Entrou na lista dos mais vendidos e eu não sabia de nada disso quando comprei “Sarah” atraído pela bela capa que, agora soube, é de autoria de Gus Vans Sant. Também descobri agora que a música “Go, Cherry Go” do Garbage é em homenagem a ele e Cherry era um de seus pseudônimos quando prostituto.

JT Leroy, este jovem repaz de aparência andrógina, que de tão tímido já chegou a vomitar quando dava uma entrevista a jornalistas no salão literário de Veneza, na Itália.

Sarah e The Heart Is Deceitful Above All Things de JT LeRoy são tão estranhos quanto sua história. Em Sarah, Jeremiah Terminator LeRoy escreve uma narração de um menino que cercado por pisteiras vê naquele vida de desilusões e violência, um mundo encantado. Algo totalmente antagônico com o que é pensado por nascidos em berços mais nobres. Sua mãe (Sarah), veste-o de menina e o leva à vida com que ele tanto sonhava. A fixação do garoto por sua mãe (Sarah) é tão grande que ele adota o nome dela o livro inteiro, apesar disso, não confunde o leitor.

Glad, o cafetão que manda no pedaço, usa o tamanho do pênis de guaxinim para premiar a melhor pisteira. O sonho de Sarah (“o” Sarah) é conseguir o maior de todos. Por isso foge a um outro bar de beira de estrada onde terá mais serviço e assim voltar ao bar de Glad com fama e garantir o maior pênis de guaxinim entre todas as pisteiras. Parece fácil, mas diversos fatos ocorrem fazendo com que Sarah sofra por suas escolhas.

Shirley Manson do Garbage fez uma baladinha um tanto esquisita inspirada na história de JT LeRoy, chamada Cherry Lips.

Quanto ao outro livro, The Heart Is Deceitful Above All Things tornou-se um filme dirigido por Asia Argento e exibido um pouco antes da entrevista de LeRoy em São Paulo, desconheço tanto o livro, o filme, quanto a entrevista. Mas se LeRoy for tão excêntrico e manter a mesma linha de Sarah, eu terei de ler o livro, a entrevista, e assistir ao filme. Quando se acha um bom escritor (mesmo que pareça uma escritora) é bom sugar tudo que ele tem a oferecer.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo (“Uma delícia”) e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos (“Não é esquisito? Adorei”).

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de “Sarah” se dá quando ele (a essa altura “ela”) conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. “Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa”, diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna (“ela se alterna entre legal e fria comigo”), Gus Van Sant (autor da foto da capa de “Sarah”) e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música “Cherry Lips (Go Baby Go!)” em sua homenagem _Cherry Lips era também seu “nome de guerra”_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _”não o conheço, não tenho muito a dizer dele”_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de “família”. É com essa dupla que o autor de “Sarah” tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da “Folha” Erika Palomino. “Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo”, disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, “Sarah” será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos “há muito tempo”, tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy –
Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma “streetwise” (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy –
Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente “ouço” o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse “assédio”. É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme “The Heart Is Deceitful Above All Things” (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy –
Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como “i-D”, “Spin”, “New York Press” etc. É verdade?
JT LeRoy –
Hum… Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy –
(Pausa) Bem… Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy –
Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: “play” (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy –
O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi “The Heart Is Deceitful Above All Things”, uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy –
O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em “Sarah”). Pode-se dizer que é uma seqüência de “Sarah”.

Também fiz o roteiro de um episódio de “Deadwood” (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. “Deadwood” não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação “Blue’s Clues”, da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy –
Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: “Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!”.

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy –
Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro “The Liar’s Club”. Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy –
(Risos) Deixe-me pensar… Alguma coisa, muita coisa.

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A controvertida escritora Laura Albert retornou com o seu primeiro artigo a ser publicado desde o alvoroço causado pela notícia de que era ela a autora dos livros publicados sob o pseudônimo de JT LeRoy, que alcançaram tantos louvores e publicidade.

Seu artigo, “Judeus de Esquis” aparece no segundo número da revista premiada Lemon, especializada em cultura pop. Nesse artigo, Albert sugere que “o segredo da sobrevivência é a adaptabilidade.”

No mesmo exemplar da revista, de forma independente do artigo de Albert, aparece um editorial escrito pelo principal redator de Lemon, Robert Bundy e intitulado: “Sim, Virgínia, JT LeRoy existe”, que é reproduzido integralmente abaixo. “Trata-se de uma atualização do clássico editorial jornalístico em favor do Papai Noel, escrito por Francis P. Church em 1897,” disse Kevin Grady, o editor principal de Lemon e seu diretor de criatividade. “Ficamos bastante chocados com toda a confusão gerada pela revelação de quem JT LeRoy realmente era.”

Albert declarou que Lemon é “um trabalho de amor e uma obra de arte.” Lemon é publicada duas vezes por ano e foi criada por Grady e Colin Metcalf, também responsáveis pela publicação GUM sobre arte e projetos, aclamada pela crítica. O número atualmente nas bancas, cujo tema geral é “Espionagem”, inclui Andy Warhol, Sonic Youth, Mike Mills, Stefan Sagmeister, Jessica Craig-Martin e outros. Lemon se encontra disponível internacionalmente em Borders, Barnes and Noble, em Tower Records e em outras lojas.

Niilismo

Niilismo é um termo e um conceito filosófico que afeta as mais diferentes esferas do mundo contemporâneo (literatura, arte, ciências humanas, teorias sociais, ética e moral). Como primera introdução a este conceito, buscando reconstruir de um ponto de vista histórico e genealógico a sua origem e os seus efeitos, nos basearemos nas idéias de um dos maiores especialistas no assunto: Rossano Pecoraro [1] historiador da filosofia e filósofo italiano radicado no Rio de Janeiro, e que atua na Pontifícia Universidade Catolica do Rio de Janeiro, PUC/RJ, autor, dentre outros, do fundamental “Niilismo”, editado pela Jorge Zahar Editor no ano de 2007 de que transcrevemos o Sumário:

  • Introdução
  • As primeiras ocorrências: de Jacobi a Stirner
  • O niilismo literário russo
  • Nietzsche e a “morte de Deus”
  • Niilismo e “cultura da crise”
  • A linha do niilismo: Jünger e Heidegger
  • Política e niilismo
  • O niilismo na filosofia contemporânea

A Introdução do volume é muito esclarecedora. O Niilismo é a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”. Os valores tradicionais se depreciam e os “princípios e critérios absolutos dissolvem-se”. “Tudo é sacudido, posto radicalmente em discussão. A superfície, antes congelada, das verdades e dos valores tradicionais está despedaçada e torna-se difícil prosseguir no caminho, avistar um ancoradouro”.

De maneira bastante original Pecoraro, avalia o niilismo sob duas formas. O niilismo pode ser considerado como “um movimento “positivo” – quando pela crítica e pelo desmascaramento nos revela a abissal ausência de cada fundamento, verdade, critério absoluto e universal e, portanto, convoca-nos diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, agora não mais garantidas, nem sufocadas ou controladas por nada”. Mas também pode ser considerado como “um movimento “negativo” – quando nesta dinâmica prevalecem os traços destruidores e iconoclastas, como os do declínio, do ressentimento, da incapacidade de avançar, da paralisia, do “tudo-vale” e do perigoso silogismo: se Deus (a verdade e o princípio) está morto, então tudo é permitido”.

Mas o que é, propriamente, o niilismo? Pecoraro lembra que os estudos mais importantes sobre o tema o consideram como “um fenômeno histórico, como um evento ligado à Modernidade e à sua crise”. Sempre seguindo as páginas introdutórias do seu livro podemos afirmar que as as primeiras ocorrências do termo remontam à Revolução Francesa quando foram definidos como “niilistas” os grupos “que não eram nem a favor nem contra a Revolução”. Por outro lado, indo além “da pretensa paternidade do termo reivindicada por Turgueniev no conto “Pais e Filhos”, o primeiro uso propriamente filosófico do conceito pode ser localizado, sem dúvida, no final do século XVIII, ao longo dos debates e das disputas que caracterizam a fundação do idealismo – mais especificamente na carta, escrita em 1799, de F. H. Jacobi a Johann Fichte na qual o idealismo é acusado de ser um niilismo. Filósofos como Schlegel e Hegel intervêm na discussão servindo-se do termo. Na Rússia, uma vez saído do restrito âmbito filosófico e literário para o plano social e político, o niilismo passa a designar um movimento de rebelião contra a ordem estabelecida, o atraso, o imobilismo da sociedade e os seus valores. É com Nietzsche – assinala Pecoraro – “que a reflexão filosófica sobre o niilismo alcança o seu mais alto grau, com um pensamento radical que mostra as origens mais remotas do fenômeno, como o platonismo e o cristianismo. Assim, não só diagnostica a doença do nosso tempo, como tenta indicar um remédio”. O século XX é, como ele diz claramente, “o século do niilismo (…) que impregna a atmosfera cultural de toda uma época e transforma-se em uma “categoria” fundamental no laboratório filosófico contemporâneo”. Dentre os autores e movimentos mais significativos que se defrontaram com o conceito, Pecoraro destaca: 1) Martin Heidegger e Ernst Jünger; 2) o renovado pela filosofia nietzschiana na França particularmente as reflexões de G. Deleuze; 3) a filosofia “desesperada e negativa” de Emil Cioran; 4) a visão de niilismo como essência do Ocidente de Emanuele Severino (pensador italiano); 5) a obra de Jacques Derrida; 6) as reflexões de Jean-Luc Nancy; 7) o “pensamento fraco” e a apologia do niilismo de Gianni Vattimo.

Concepção Nietzscheana de Niilismo

Niilismo-passivo – Segundo Nietzsche, o niilismo passivo, ou niilismo incompleto, podia ser considerado uma evolução do indivíduo, mas jamais uma transvaloração de valores, i.e., mudança nos valores. Através do anarquismo ou socialismo compreende-se um avanço; porém, os valores demolidos darão lugar para novos valores. É a negação do desperdício da força vital na esperança vã de uma recompensa ou de um sentido para a vida; opondo-se frontalmente a autores socráticos e, obviamente, à moral cristã, nega que a vida deva ser regida por qualquer tipo de padrão moral tendo em vista um mundo superior, pois isso faz com que o homem minta a si próprio, falsifique-se, enquanto vive a vida fixado numa mentira. Assim no niilismo não se promove a criação de qualquer tipo de valores, já que ela é considerada uma atitude negativa.

Niilismo-ativo – ou niilismo-completo, é onde Nietzsche se coloca, considerando-se o primeiro niilista de facto, intitulando-se o niilista-clássico, prevendo o desenvolvimento e discussão de seu legado. Este segundo sentido segue o mesmo rumo, mas propõe uma atitude mais activa: renegando os valores metafísicos, redireciona a sua força vital para a destruição da moral. No entanto, após essa destruição, tudo cai no vazio: a vida é desprovida de qualquer sentido, reina o absurdo e o niilista não pode ver outra alternativa senão esperar pela morte (ou provocá-la). No entanto, esse final não é, para Nietzsche, o fim último do niilismo: no momento em que o homem nega os valores de Deus, deve aprender a ver-se como criador de valores e no momento em que entende que não há nada de eterno após a vida, deve aprender a ver a vida como um eterno retorno: sem isto, o niilismo será sempre um ciclo incompleto…

Movimento Social na Rússia

Desenvolvimento

O fenômeno cultural russo conhecido como niilismo se desenvolveu durante o reinado de Alexandre II (1881-1885), czar de caráter liberal e reformista. A década de 1860 é considerada a década do niilismo. A perda da Guerra da Crimea (1854-1856), a abertura do regime ao exterior (abertura não só econômica, mas também cultural e ideológica) e as relativas liberdades concedidas pelo czar – por exemplo, na imprensa – propiciaram um ambiente adequado para o desenvolvimento dessa nova subcultura. De caráter fundamentalmente intelectual, o niilismo representou uma reação contra as antigas concepções religiosas, metafísicas e idealistas. Os jovens, retratados como rudes e cínicos, combateram e ridicularizaram as idéias de seus pais. Sua sinceridade atacava a ofensa e o mau gosto, e parece que esta atitude foi o que mais definiu esse movimento. Essa atitude negativa e de desprezo ficou perfeitamente retratada no personagem Bazarov do romance “Pais e Filhos”, de Turgueniev, assim como pelo personagem Ivã Karamazov, na obra Irmãos Karamazovi, de Fiódor Dostoievski.

No extremo sentimentalismo de seus pais esses jovens só viam uma forma de hipocrisia. Observavam como seus românticos pais exploravam seus servos, maltratavam suas esposas e impunham uma disciplina estrita em seus lares e, paradoxalmente, logo depois se dedicavam a fazer poemas e exibir um comportamento ridículo, como ilustrou posteriormente o conhecido anarquista Kropotkin em suas “Memórias de um revolucionário” (1899). Os niilistas rechaçavam e abandonavam em nome do progresso tudo o que não podia ser justificado cientificamente, como superstições, preconceitos e costumes. Criticavam as posições esteticistas na arte por se regozijarem com a beleza do abstrato e por carecer de uma utilidade social real. Adotaram também uma postura ética utilitarista denominada “egoísmo racional”, com base na qual buscaram redefinir as relações sociais em âmbitos como a amizade, o amor e o trabalho.

O niilismo foi um movimento cultural que influenciou a juventude aristocrática russa na segunda metade do século XIX. A maioria dos seus adeptos era a favor de reformas democráticas e da abolição da servidão do sistema do Kreopostnoje Pravo, razões pelas quais foram posteriormente perseguidos. Em suas Memórias de um Revolucionário, Piotr Kropotkin o descreve:

Em primeiro lugar, o niilista declarou guerra contra o que ele descreveu como “as mentiras convencionais da humanidade civilizada.” Sinceridade absoluta era a sua marca registrada, e em nome dessa sinceridade ele renunciava, e pedia aos outros que também renunciassem, às supertições, preconceitos, hábitos e costumes que sua razão não pudesse justificar. Ele recusava a dobrar-se à autoridade exceto à da razão, e na análise de cada instituição social ou hábito ele se revoltava contra toda sorte de sofisma mais ou menos mascarado.
Essas pessoas não tinham nenhum ideal de reconstrução social em mente, nenhuma intenção revolucionária. Elas apenas queriam ensinar a massa de camponeses a ler, instruí-los, dar auxílio médico, e ajudá-los de qualquer forma a sair da escuridão e miséria, e aprender ao mesmo tempo quais eram seus ideais populares de uma melhor vida social.

George Kennan, um americano que visitou a Rússia czarista, também se surpreendeu com a idéia de que os niilistas russos eram “arremessadores de bombas”, então prevalente nos países ocidentais. Para ele, aqueles eram apenas cidadãos pacíficos, que sinceramente esperavam que o governo melhorasse a situação de seus súditos.

Má fama

O governo czarista não discriminava os opositores pacíficos dos adeptos da violência, e a repressão policial sufocou o movimento. Em conexão com o recrudescimento do regime, um grupo chamado de Pervomartovtsi, pertencente ao Narodnaya Volya (Vontade do Povo) assassinou o Czar. Essa ação foi atribuída aos niilistas. Entretanto, esta afirmação não faz sentido: jamais houve uma organização formal que ligasse os niilistas, nem arcabouço teórico que os unificasse, e muito menos líderes tomando decisões como a de assassinar o Czar. O movimento niilista foi espontâneo, e estava muito mais ligado aos valores pessoais do que à actividade política propriamente dita.

Niilismo pós-Nietzsche

Como Nietzsche prevera, o assunto ganhou grande atenção, mas só quando do advento da Primeira Guerra Mundial e os avanços científicos. Nesta época sobrelavaram autores como Spengler e Max Weber. Mas, pouco mais tarde foram Heidegger e Junger Habermas que discutindo o niilismo legaram brilhantes reflexões.

Naturalmente o termo encontrou novas significações e derivações, das quais podemos destacar o niilismo-existencialista de Sartre e o niilismo-gnóstico/niilismo-absurdista de Albert Camus, sendo que, este último, se aproxima do misticismo, enquanto Sartre reprova qualquer divinização.

Nietzsche As palavras que matam deuses

“Não poríamos a mão no fogo pelas nossas opiniões: não temos assim tanta certeza delas. Mas talvez nos deixemos queimar para podermos ter e mudar as nossas opiniões.” [ Friedrich Nietzsche ]

Se um homem tiver realmente muita fé, pode dar-se ao luxo de ser cético.
Friedrich Nietzsche

“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.”
Friedrich Nietzsche

Deus está morto: mas, considerando o estado em que se encontra a espécie humana, talvez ainda por um milénio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra.
Friedrich Nietzsche

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há também sempre alguma razão na loucura.
Nietzsche

O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha.
Friedrich Nietzsche

Os erros de grandes homens… são mais fecundos que as verdades de pequenos.
Friedrich Nietzsche

Em tempo de paz o homem belicoso ataca-se a si próprio.
Friedrich Nietzsche

Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!
Nietzsche

Existo, logo penso.
Friedrich Nietzsche

Quanto mais abstracta for a verdade que queres ensinar, mais tens que seduzir os sentimentos a seu favor.
Friedrich Nietzsche

Se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimónios felizes.
Friedrich Nietzsche

A falta de confiança entre amigos é pecado que não pode ser repetido, sob pena de ser irremediável
Nietzsche
É só dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade.
Friedrich Nietzsche

O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno.
Nietzsche

Quem se despreza a si próprio não deixa mesmo assim de se respeitar como desprezador.
Friedrich Nietzsche

Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.
Friedrich Nietzsche

A mulher aprende a odiar na medida em que desaprende – de encantar.
Friedrich Nietzsche

A sensualidade ultrapassa muitas vezes o crescimento do amor, de forma que a raiz permanece fraca e arranca-se facilmente.
Friedrich Nietzsche

A vontade se superar um afecto não é, em última análise, senão vontade de um outro ou de vários outros afectos.
Friedrich Nietzsche

É terrível morrer de sede no mar. Porque haveis então de salgar a vossa verdade de modo a que não – mate já a sede?
Friedrich Nietzsche

Fazer grandes coisas é difícil; mas comandar grandes coisas é ainda mais difícil.
Friedrich Nietzsche

Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície.
Friedrich Nietzsche

Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho.
Friedrich Nietzsche

A vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.
Friedrich Nietzsche

Quem só tem o espírito da história não compreendeu a lição da vida e tem sempre de retomá-la. É em ti mesmo que se coloca o enigma da existência: ninguém o pode resolver senão tu!
Friedrich Nietzsche

Um procura um parteiro para os seus pensamentos, outro alguém a quem possa ajudar: é assim que nasce uma boa conversa.
Friedrich Nietzsche

As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal – pela mulher.
Friedrich Nietzsche

Certos pavões escondem de todos os olhos a sua cauda – chamando a isso o seu orgulho.
Friedrich Nietzsche

Na minha vida ainda preciso de discípulos, e se os meus livros não serviram de anzol, falharam a sua intenção. O melhor e essencial só se pode comunicar de homem para homem.
Friedrich Nietzsche

Não basta ter-se talento: é preciso ter-se o vosso assentimento para o possuir, – não é verdade, meus amigos?
Friedrich Nietzsche

O atractivo do conhecimento seria pequeno se no caminho que a ele conduz não houvesse que vencer tanto pudor.
Friedrich Nietzsche

Os métodos são as verdadeiras riquezas.
Friedrich Nietzsche

Aquilo que não me mata, só me fortalece
Nietzsche

Extingue-se o dia para todas as coisas, mesmo para as melhores; chega o crepúsculo.
Nietzsche

Não é só a razão, mas também a nossa consciência, que se submetem ao nosso instinto mais forte, ao tirano que habita em nós.
Friedrich Nietzsche

O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso.
Friedrich Nietzsche

Uma pessoa continua a trabalhar porque o trabalho é uma forma de diversão. Mas temos de ter cuidado para não deixarmos a diversão tornar-se demasiado penosa.
Friedrich Nietzsche

A nossa vaidade gostaria que o que fazemos melhor fosse considerado como aquilo que mais nos custa. Para explicar a origem de certas morais.
Friedrich Nietzsche

As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e notáveis são para os pequenos.
Friedrich Nietzsche

Há uma inocência na mentira que é o sinal da boa fé numa causa.
Friedrich Nietzsche

Os advogados de um criminoso só raras vezes são suficientemente artistas para aproveitar em favor do réu a terrível beleza do seu ato.
Friedrich Nietzsche

Quem atinge o seu ideal, ultrapassa-o precisamente por isso.
Friedrich Nietzsche

Se uma mulher tem inclinações eruditas é porque, em geral, há algo de errado na sua sexualidade. A esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; é que o homem, com vossa licença, é de fato «o animal estéril».
Friedrich Nietzsche

Somos muito injustos com Deus. Nem sequer Lhe permitimos pecar.
Friedrich Nietzsche

“A fé é ignorar tudo aquilo que é verdade.”
Friedrich Nietzsche

A vantagem de ter péssima memória é divertir-se, muitas vezes, com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
Friedrich Nietzsche

Como? Um grande homem? Eu apenas vejo o actor representando o seu próprio ideal.
Friedrich Nietzsche

Não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenómenos….
Friedrich Nietzsche

Os leitores extraem dos livros,consoante o seu carácter,a exemplo da abelha ou da aranha que,do suco das flores retiram,uma o mel,a outra o seu veneno.
Friedrich Nietzsche

Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes.
Friedrich Nietzsche

Se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um.
Friedrich Nietzsche

Se se tem caráter, tem-se também uma experiência típica própria, que sempre retorna.
Friedrich Nietzsche

Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores.
Friedrich Nietzsche

“Morrer é duro. Sempre senti que a única recompensa dos mortos é não morrer nunca mais”.
Nietzsche

Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram o melhor de seus equívocos
Nietzsche

É difícil conviver com as pessoas porque calar é muito difícil.
Friedrich Nietzsche

No elogio há mais impertinência do que na censura.
Friedrich Nietzsche

A felicidade do homem está em “eu quero”; a felicidade da mulher, em “ele quer”.
Nietzsche

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras
Friedrich Nietzsche

O aforismo, a sentença, nos quais pela primeira vez sou mestre entre os alemães, são formas de «eternidade»: a minha ambição é dizer em dez frases o que outro qualquer diz num livro -, o que outro qualquer «não» diz nem num livro inteiro….
Friedrich Nietzsche

Quem não sabe encontrar o caminho para o «seu» ideal vive de um modo mais leviano e insolente que o homem sem ideal.
Friedrich Nietzsche

«O nosso próximo não é o nosso vizinho, mas o vizinho deste» – assim pensam todos os povos.
Friedrich Nietzsche

A exigência de ser amado é a maior das pretensões.
Friedrich Nietzsche

Apenas devia ser possuidor quem tem espírito: não sendo assim, a fortuna é um perigo público.
Friedrich Nietzsche

Não há nada que deprima mais o ser humano (mais depressa) do que a paixão do ressentimento.
Friedrich Nietzsche

O criminoso não está, muitas vezes, á altura do seu ato: amesquinha-o e difama-o.
Friedrich Nietzsche

Observou-se mal a vida se não se tiver visto também a mão que, de uma maneira especialmente cuidadosa – mata.
Friedrich Nietzsche

Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo
Friedrich Nietzsche

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa moralidade.
Friedrich Nietzsche

“Temos a Arte para que a verdade não nos destrua.”
Nietzsche

Aquilo que não me destrói fortalece-me
Friedrich Nietzsche

moro em minha propria casa,
nunca imitei ninguem
e rio de todos os mestres que nunca riram de si mesmos
nietzsche

Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
– ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o!
Friedrich Nietzsche

Nunca suponha igualdade de sentimentos.
Nietzsche

O amor por um só é uma barbaridade: porque se exerce à custa de todos os outros. O mesmo quanto ao amor por Deus.
Friedrich Nietzsche

O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível na presença do qual tudo está em perigo.
Friedrich Nietzsche

Onde não intervém o amor ou o ódio, a mulher sai-se mediocremente.
Friedrich Nietzsche

Os poetas são impudicos para com as suas vivências: exploram-nas.
Friedrich Nietzsche

Quem for fundamentalmente um mestre, apenas toma a sério tudo o que se relaciona com os seus discípulos, – incluindo a si próprio.
Friedrich Nietzsche

Sem música a vida não faria sentido
Nietzsche

Um homem de génio é insuportável se, além disso, não possuir pelo menos duas outras qualidades: gratidão e asseio.
Friedrich Nietzsche

“Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo – de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, querido. Eu não sou um homem, sou dinamite.”
Nietzsche

“É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é exceção, os espíritos cativos, a regra; […] De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém, ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé.”
(F. Nietzsche – Humano Demasiado Humano)
Nietzsche

“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há também sempre alguma razão na loucura.”
Nietzsche

Em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio é apenas uma delicadeza do coração – e precisamente o contrário de uma vaidade do espírito.
Friedrich Nietzsche

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem, uma corda por cima de um abismo.
Friedrich Nietzsche

O ser refutável não é o menor dos encantos de uma teoria.
Friedrich Nietzsche

Passa-se com o homem o mesmo que com a árvore. Quanto mais quer crescer para o alto e para a claridade, tanto mais suas raízes tendem para a terra, para baixo, para a treva, para a profundeza – para o mal.
Nietzsche

Um povo é o rodeio da natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. – Sim: e para depois se desviar deles.
Friedrich Nietzsche

amamos o desejo nao o ser desejado
friderich nietzsche

Comparando no seu conjunto homem e mulher pode dizer-se: a mulher não teria engenho para se enfeitar se não tivesse o instinto do papel «secundário» que desempenha.
Friedrich Nietzsche

Em homens duros a intimidade é questão de pudor – e algo de precioso.
Friedrich Nietzsche

Não há outro critério da verdade senão o crescimento do sentimento de poder.
Friedrich Nietzsche

Nunca é alto
o preço a pagar
pelo privilégio
de pertencer
a si mesmo…
Nietzsche

Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém levamos-lhe muito a mal o incómodo que assim nos causa.
Friedrich Nietzsche

“Não poríamos a mão no fogo pelas nossas opiniões: não temos assim tanta certeza delas. Mas talvez nos deixemos queimar para podermos ter e mudar as nossas opiniões.”
Friedrich Wilhelm Nietzsche

amamos o desejo nao o ser desejo nao o ser desejado
nietzsche

Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão…
Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que,de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar.
E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene.Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas.
Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr.
Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo,agora um Deus dança em mim!
Friederich Nietzsche

É preciso ter caos e frenesi dentro de si para dar à luz uma estrela dançante
Friedrich Nietzsche

Há homens que já nascem póstumos.
Friedrich Nietzsche

Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho uma luta! Seja vossa paz uma vitória!
Nietzsche

O sentido do trágico aumenta e diminui com a sensualidade.
Friedrich Nietzsche

Onde amor e ódio não concorrem ao jogo, o jogo da mulher torna-se medíocre.
Friedrich Nietzsche

Tudo na mulher é adivinha e tudo nela tem uma única solução e essa é a gravidez.
Friedrich Nietzsche

“Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.”
friedrich nietzsche

“Sei a minha sina.
Um dia meu nome será lembrança de algo terrível.
De uma crise como jamais houve sobre a Terra.
Da mais profunda colisão de consciências.
De uma decisão conjurada contra tudo que até então foi acreditado, santificado, requerido.
Não sou um ser humano, sou uma dinamite, na transvaloração de todos os valores.
Eis a minha fórmula para um ato de suprema octognose da humanidade que em mim se fez gene e carne…”
Friedrich Nietzsche

(…) foi o própio Deus que ao fim de sua obra se disfarçou de serpente indo se deitar sob a árvore do conhecimento: assim ele se restabeleceu do fato de ser Deus…Ele havia feito tudo demasiadamente belo…O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia…
friedrich nietzsche

A melhor cura para o amor é ainda aquele remédio eterno: amor retribuído.
Friedrich Nietzsche

Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.
Friedrich Nietzsche

Amamos o desejo, não o ser desejado
Nietzsche

Com os princípios quer-se tiranizar os hábitos, ou justificá-los ou honrá-los ou injuriá-los ou escondê-los: – dois homens com princípios iguais querem, verosimilmente, atingir com eles algo de fundamentalmente diferente.
Friedrich Nietzsche

“Aquilo que serve de alimento e de balsamo para um tipo superior de homem, deve ser quase veneno para um tipo bem mais diverso e inferior.”
Nietzsche

Devemos compreender que a verdade,
por pretender ser verdadeira,
não passa de ilusão ou mentira .
Nietzsche

Eis A Fórmula Da felicidade: Um Sim, Um Não, Uma Linha Reta, Uma Meta…
Nietzsche

Eu somente acreditaria em um Deus que soubesse dançar.
Nietzsche

Faltam as circunstâncias. – Muitas pessoas esperam a vida inteira pela oportunidade de serem boas à sua maneira
Friedrich Nietzsche

O medo é o pai da moralidade
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Os grandes intelectuais são céticos
Friedrich Wilhelm Nietzsche

SE QUERES SER FELIZ NESSE MUNDO,ESTRANGULA SUA CONSCIêNCIA.
FRIEDRICH NIETZSCHE

Um outro sinal distintivo dos teólogos é a sua incapacidade filológica. Entendo aqui por filologia (…) a arte de bem ler – de saber distinguir os factos, sem estar a falseá-los por interpretações, sem perder, no desejo de compreender, a precaução, a paciência e a finesse.(O Anticristo).
Friedrich Nietzsche

“É verdade que se mente com a boca; mas a careta que se faz ao mesmo tempo diz, apesar de tudo, a verdade.”
Friedrich Nietzsche

“Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo.”
NIETZSCHE

A Nossa Atmosfera estava Carregada De Tempestade, A Nossa Própria Natureza Nublava-se, Pois Não Tinhamos Encontrado Caminho Algum…
Nietzsche

Falta de amigos – A falta de amigos faz pensar em inveja ou presunção. Há pessoas que devem seus amigos à feliz circunstância de não ter motivo para a inveja
Friedrich Nietzsche

Não suporto almas estreitas: não têm nada de bom, tampouco nada de mau.
Friederich Nietzsche

O homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir
Friedrich Wilhelm Nietzsche

Quanto mais alto voamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Nietzsche

“Há espíritos que escurecem suas águas para fazê-las parecer profundas.” [ Friedrich Nietzsche ]
friedrich nietzsche

“…E Essa Tolerancia, Esse ‘Largeur’ Do Coração Que Tudo ‘Perdoa’ Porque Tudo ‘Compreende’, É Para Nós como O vento Siroco…”
Nietzsche

Cansado de esperanças
persigo realidades.
Quando o vento contrário
aumenta em seus embates,
navego a qualquer vento
em minha ligeira embarcação.

Nietzsche

Escreve com sangue e aprenderás que sangue é espírito.
Nietzsche

Eu Não sei Sair Nem Entrar, Sou Tudo Aquilo Que Não Sabe Nem sair nem entrar..
Nietzsche

Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo, a minha alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meios às vacas, que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.
Nietzsche

Não acredito em um deus que não dance
Nietzsche

Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas
Friedrich Nietzsche

Para ler o Novo Testamento é conveniente calçar luvas. Diante de tanta sujeira, tal atitude é necessária.
Nietzsche

Perto do Sol há incontáveis corpos escuros a serem deduzidos_tais que nunca chegaremos a ver.
Friedrich Nietzsche

Todo tipo de absoluto indica patologia
friedrich nietzsche

Verdadeiro eu chamo àquele que entra nos desertos vazios de deuses… Nas areias amarelas, queimadas de sol, sedento, ele vê as ilhas cheias de fontes, onde as coisas vivas descansam debaixo das árvores. Não obstante, a sua sede não o convence a tornar-se como um destes, habitantes do conforto; pois onde há oásis aí também se encontram os ídolos
Nietzsche

Verdadeiro eu chamo àquele que entra nos desertos vazios de deuses… Nas areias amarelas, queimadas de sol, sedento, ele vê as ilhas cheias de fontes, onde as coisas vivas descansam debaixo das árvores. Não obstante, a sua sede não o convence a tornar-se como um destes, habitantes do conforto; pois onde há oásis aí também se encontram os ídolos
Nietzsche

Aquilo que vivemos no sonho, e que nele vivemos repetidas vezes, termina por pertencer à economia global de nossa alma, tanto quanto algo “realmente” vivido
Nietzsche

E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a musica.
Friedrich Nietzsche

E o homem, em seu orgulho, criou Deus, a sua imagem e semelhança.
Friedrich Nietzsche

Eu vos digo:
Alguém precisa ter caos em si mesmo
Para dar luz a uma estrela dançante.
Nietzsche

Existe sempre algo de loucura no amor, mas sempre existe alguma razão na loucura.
Nietzsche

Na escola de guerra da vida, o que não me mata me faz forte.
Nietzsche

Não existe mais ninguém tão inocente para ainda colocar o sujeito EU na condição de´Penso´.
Nietzsche

O QUE NÃO ME MATA ME FORTALECE
Nietzsche

Torna-te quem tu és
Friedrich Nietzsche

“Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.” [ Friedrich Nietzsche ]
friedrich nietzsche

O que salva o amor

L.Barbosa conta a história de uma ilha onde viviam os principais sentimentos do homem: Alegria, Tristeza, Vaidade, Sabedoria, e Amor. Um dia, a ilha começou a afundar no oceano; todos conseguiram alcançar seus barcos, menos o Amor.

Quando foi pedir a Riqueza que o salvasse, esta disse:

– “Não posso, estou carregada de jóias e ouro”.

Dirigiu-se ao barco da Vaidade, que respondeu:

– “Sinto muito, mas não quero sujar meu barco”.

O Amor correu para a Sabedoria, mas ela também recusou, dizendo:

– “Quero estar sozinha, estou refletindo sobre a tragédia, e mais tarde vou escrever um livro sobre isto”.

O Amor começou a se afogar. Quando estava quase morrendo, apareceu um barco – conduzido por um velho – que o terminou salvando.

– “Obrigado” – disse, assim que se refez do susto.

– “Mas quem é você”?

– “Sou o Tempo” – respondeu o velho. Só o Tempo é capaz de salvar o Amor.
Paulo
paulocoelho

“Não há fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos…” [ Friedrich Nietzsche ]
Friedrich Nietzsche