Perfil de Paulo Coelho na ABL Academia Brasileira de Letras

Biografia

Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 24 de agosto de 1947. Filho do engenheiro Pedro Paulo Coelho e de Lígia Coelho. Fez seus estudos no Rio de Janeiro. É casado, desde 1981, com a artista plástica Christina Oiticica.

Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, jornalista e compositor. Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da musica brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Al Capone”, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Foi diretor da companhia discográfica CBS e do jornal Express Underground, professor de teatro e secretário de redação do jornal O Globo. Fundou a Revista 2001.

Atualmente, tem uma coluna semanal em O Globo, e em outros 48 jornais brasileiros. Escreve também para jornais do México, Argentina, Chile, Bolívia, Polônia, Itália, Espanha, Venezuela, Grécia, Taiwan, România, Alemanha e mais dez países.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

Em 1982, editou ele próprio seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher por considerá-lo “de má qualidade”.

Em 1986, fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, na Espanha, e, a partir dessa experiência marcante, escreveu O Diário de um Mago – O Peregrino, em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos se sucederam: Brida (1990), As Valkírias (1992), Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (1994), Maktub (coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de S. Paulo, 1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika Decide Morrer (1998), e O Demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos (2003), O Gênio e as Rosas – ilustrado por Mauricio de Souza (2004) e O Zahir (2005).

Paulo Coelho conseguiu ter três títulos ao mesmo tempo nas listas de mais vendidos na França, Brasil, Polônia, Suíça, Áustria, Argentina, Grécia, Croácia. De acordo com a revista francesa Lire, foi o segundo escritor mais vendido do mundo em 1998. Autor de um trabalho polêmico, tem críticos apaixonados – a favor em contra. O escritor italiano Umberto Eco elogiou Veronika Decide Morrer na revista alemã Focus. Sua obra foi traduzida em 56 línguas e editada em mais de 150 países. Fato notável em sua vida foi o de ter sido o primeiro escritor não muçulmano que visitou o Irã desde a revolução islâmica de 1979.

Fez também a adaptação de O Dom Supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um Profeta (Khalil Gibran).

O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o Prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres, a cantora Madonna e Julia Roberts, que o consideram seu livro favorito. A edição ilustrada pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien) já foi publicada em vários países. The Graduate School of Business of the University of Chicago recomenda o romance no seu currículo de leitura. Também foi adotado em escolas da França, Itália, Brasil, Estados Unidos, dentre outros países.

Já foi fonte de inspiração de vários projetos – como um musical no Japão, peças de teatro na França, Bélgica, EUA, Espanha, Portugal, Taiwan, Turquia, Itália, Suíça. É tema de duas sinfonias: na Itália, uma peça clássica pelo italiano Irlando Danieli para o Scala de Milão, e nos EUA, onde a BMG Classics lançou o CD “A Sinfonia do Alquimista”, pelo compositor Walter Taieb, inspirada em seu enredo.

Os direitos de filmagem de O Alquimista foram adquiridos pela Warner Brothers, que está desenvolvendo o roteiro do filme Onze Minutos pela Hollywood Gang Production e Verônika Decide Morrer pela Muse Productions (VS); e Monte Cinco pela Capistrano Productions.

Paulo Coelho pertence ao Board do Instituto Shimon Peres para a Paz, é Conselheiro Especial da UNESCO para “Diálogos Interculturais e convergências espirituais” e membro da diretoria da Schwab Foundation for Social Entrepreneurship, que distribuiu anualmente um prêmio de U$ 1 milhão para empreendedores sociais.

Mantém o Instituto Paulo Coelho, uma instituição sem fins lucrativos, financiada exclusivamente pelos direitos autorais do escritor. A idéia central não é fazer caridade, mas dar oportunidade às camadas menos favorecidas e excluídas da sociedade brasileira. Desta maneira, o Instituto concentra sua verba em: a) Infância; b) Terceira Idade.

Neste momento, o Instituto Paulo Coelho apóia com ajuda financeira pessoas menos favorecidas de Terceira Idade, e é co-patrocinador do projeto Creche Escola Meninos da Luz, Lar Paulo de Tarso (favela Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro), que cuida de 270 crianças.

Principais prêmios e condecorações
Prix Lectrices d’Elle (França, 1995)
Knight of Arts and Letters (França, 1996)
Flaiano International Award (Itália, 1996)
Super Grinzane Cavour Book Award (Itália, 1996)
Golden Book (Iugoslávia, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000 e 2004)
Finalist for the International IMPAC Literary Award (Irlanda, 1997 e 2000)
Comendador de Ordem do Rio Branco (Brasil, 1998)
Crystal Award – World Economic Forum (1999)
Golden Medal of Galicia (Espanha, 1999)
Chevalier de l’Ordre National de la Legion d’Honneur (França, 2000)
Crystal Mirror Award (Polônia, 2000)
Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
Club of Budapest Planetary Arts Award 2002 as a recognition of his literary work (Germany, 2002)
Best Fiction Corine International Award 2002 for The Alchemist (Germany, 2002)
Golden Bestseller Prize from the largest circulation daily “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
Ex Libris Award for Eleven Minutes (Serbia, 2004)
Nielsen Gold Book Award for The Alchemist (UK, 2004)
Order of St. Sophia for contribution to revival of science and culture (Ukraine, 2004)
Order of Honour of Ukraine (Ukraine, 2004)
The Budapest Prize (Hungary, 2005)
Goldene Feder Award (Germany, 2005)
Direct Group International Author Award (2005)

 

Bibliografia

Arquivos do Inferno. Ed. Shogun, 1982.
O Manual Prático do Vampirismo. 1985.
O Teatro na Educação. Ed. Forense Universitária autores, 1973.
O Diário de um Mago – O Peregrino. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1987.
O Alquimista. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
Brida. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1990.
O Dom Supremo (adaptação do livro de Henry Drummond) Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1991.
As Valkírias. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1992.
Na Margem do Rio Pedra Eu Sentei e Chorei. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Maktub (coletânea de seus melhores textos na Folha de S. Paulo). Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Palavras Essenciais. Ed. Vergara & Riba, 1995.
O Monte Cinco. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.
O Manual do Guerreiro da Luz. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1997.
Cartas de Amor de um Profeta (adaptação do livro de Khalil Gibran). Rio de Janeiro: ed. Ediouro, 1997.
Veronika Decide Morrer. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1998.
As Confissões do Peregrino (biografia escrita pelo jornalista espanhol Juan Arias a partir de seu depoimento). Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1999.
O Demônio e a Srta. Prym. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2000.
Histórias para Pais, Filhos e Netos (coletânea de contos tradicionais). Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2001.
Onze Minutos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.
O Gênio e as Rosas. Ilustrado por Maurício de Souza. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2004.
O Zahir. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2005.
A Bruxa de Portobello. São Paulo: Ed. Planeta, 2006.

 

Discurso de Posse

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.
Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:

“E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar.”
Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.” Por quê?

O que existe nessa estrada?

Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória? Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer: o sentido da vida é este.

Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.

Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:

“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?” Será, isto sim: “Como amei?”
O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.

Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”

Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar. Martin Luther King lembrava que os gregos possuem três palavras para designar esse sentimento: a primeira é Eros, o amor saudável e necessário entre dois seres humanos, que se buscam, se encontram, ou se desencontram. A segunda palavra é Philos, a paixão que nos empurra ao encontro da sabedoria, dos amigos, da filosofia, dos legados que nos deixaram as gerações anteriores. Finalmente existe a palavra Ágape, o amor maior, aquele a que – como bem lembra Martin Luther King – Jesus se referia quando disse: “Amai vossos inimigos.” Um amor que está além do ato de gostar, porque não podemos gostar de quem nos agride, nos ofende, é injusto em seus comentários, leviano em suas acusações, preconceituoso em seu julgamento. Não podemos gostar, mas podemos amar e, através do amor, entender que por detrás de cada atitude mesquinha e destruidora está um imenso desejo de ser compreendido, aceito, apreciado.

Então, a essência de Ágape está não apenas nos que aqui me precederam nesta Cadeira 21, mas em todos, em todas as cadeiras desta Casa, deste auditório, em todas as cadeiras do mundo. Basta apenas reunir coragem suficiente para lutar por seus sonhos, e – de novo me apoio em uma expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo – “combater o bom combate, e manter a fé.”

Em 1986, quando fazia o Caminho de Santiago em busca de uma espada, a mesma espada que daqui a pouco me será de novo entregue, simbolicamente, pelo acadêmico Josué Montello, eu compreendi pela primeira vez o sentido dessa expressão.

O Bom Combate é aquele travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempo dos cavaleiros andantes, isso era fácil, havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate veio dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem dentro de nós com todo o seu vigor – na juventude – temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, terminamos aprendendo, e então já não temos a mesma coragem. Por isso, nos voltamos contra nós, e nos transformamos em nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou frutos de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre têm tempo para tudo e para todos. As que nada fazem estão sempre cansadas, não dão conta do pouco trabalho que precisam realizar, e se queixam constantemente que o dia é curto demais. Na verdade, elas têm medo de saber onde vai dar a misteriosa estrada que passa pela sua aldeia.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos. Olhamos para além das muralhas do nosso mundo organizado, onde a ciência e a filosofia já têm todas as respostas, onde todas as dúvidas já foram resolvidas pelas ideologias, conceitos e preconceitos. Olhamos e vemos as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, sentimos o cheiro de suor e pólvora. Então dizemos, do alto de nossas torres de marfim: “Eles não sabem o que eu sei.” Com essa atitude arrogante, jamais percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para esses não importa nem a vitória nem a derrota, mas apenas olhar o mundo como se fosse uma pergunta – não uma resposta – e através dessa pergunta tentam dignificar suas vidas.

Raul Seixas descreve bem a alegria no coração dos guerreiros, ao escrever:

Prefiro ser
Uma metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém de nossa idade diz querer ainda isso ou aquilo da vida. Mas, na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o preço dessa paz foi nossa renúncia à luta por tudo que considerávamos interessante, e por tudo que nos entusiasmava fazer. Quando encontramos a paz, temos um curto período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir essa crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, num belo dia os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre de nossas certezas, de nossas ocupações, e da paz das tardes de domingo.
Nenhum dos ocupantes desta Cadeira 21 experimentou – graças a Deus – essa terrível paz. O teatrólogo Dias Gomes, em seu discurso de posse, chamou-a de “A cadeira da Liberdade”. O economista Roberto Campos a chamou de “Cadeira do Ecletismo”. Eu preferiria chamá-la, entretanto, de “Cadeira da Utopia”. Utopia em seu sentido clássico, referindo-me ao momento ideal da história da civilização na qual todas as conquistas do homem seriam consolidadas entre seus semelhantes; o país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, no qual um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. O fundador da Cadeira 21, José do Patrocínio, herói da Abolição da Escravatura, diz em um dos seus discursos. Cito:

“Dentro em três dias vai começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos. As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte.”

=Um quarto de século se passou, e outro, e muitos outros. Apesar da abolição da escravatura, todos nós sabemos que até hoje o sonho de José do Patrocínio ainda não se tornou realidade. Entretanto, ele nos legou sua utopia, e nós continuamos a lutar por ela. Sucedeu-o o poeta Mário de Alencar, descrito por todos como um homem tímido e recluso, cujo modelo de vida era o corajoso Sócrates. Suas obras só nos chegaram por causa da dedicação de seus filhos. Tinha como ideal a beleza pura, e comentava em um dos seus versos:

“Goza mulher teus dias
que as puras alegrias
vêm da ilusão.”

De novo a idéia utópica de um mundo no qual é possível, apesar da ilusão, permitir-se o prazer das grandes alegrias. O mesmo acontecia com o poeta Olegário Mariano, que o sucedeu: embora mais extrovertido em seu comportamento – afinal, são dele várias letras de músicas, uma das quais ainda cantamos: “Cai, cai, balão” – leva a sua utopia do terreno literário para o campo político, como antes fizera José do Patrocínio. Luta por um Brasil moldado no ideário de Getúlio Vargas.

Quero fazer uma pequena observação aqui: não me cabe, neste discurso de posse, julgar as afinidades partidárias dos ocupantes desta Cadeira, mas o empenho sincero que tiveram em procurar uma opção melhor para o Brasil, levando em conta suas convicções pessoais.

Como os seus predecessores, também Olegário Mariano quer seguir um sonho impossível. Ele mantém em seu horizonte os ideais utópicos da existência. Como nos versos a seguir. Cito:

“Vida! Quero viver todas as tuas horas, As que prendi na mão e as que nunca alcancei.”

Álvaro Moreyra, o cronista do Rio, é o próximo ocupante, um dos precursores do novo teatro brasileiro, que se declara adepto da utopia comunista. Deixa importante legado literário, que inclui um estudo sobre o teatro espanhol na Renascença, escrito em 1946, e a peça “Adão e Eva e outros membros da família (1929)”, que até hoje faz parte do repertório de muitas companhias teatrais. Em seu trabalho poético, de novo o mesmo louvor utópico à vida, que o acompanhou até nos dizeres de seu epitáfio:
O epitáfio de Álvaro Moreyra é o seguinte:

“Acreditei na Vida, e a Vida em mim. Depois, desandamos a rir de nós mesmos – os dois.”
O crítico Adonias Filho, que sucede Álvaro Moreyra, parte para uma utopia exatamente oposta: ex-integralista, defende o golpe militar de 1964. Mas é tão íntegro em suas convicções que merece o respeito de Jorge Amado, militante de campo exatamente oposto, que faz questão de recebê-lo nesta Casa. Provocador, irônico, Adonias Filho declara em um dos seus textos:

“Ainda se discute a utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão. Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca os leria depois…”

De novo o pêndulo da Cadeira 21 oscila para uma utopia oposta: é a vez de Dias Gomes entrar para a Academia Brasileira de Letras, trazendo em seu teatro e na sua vasta bagagem literária o sonho de um Brasil redimido pela vitória do oprimido sobre o opressor. Seu nome torna-se mundialmente conhecido quando uma de suas peças, “O Pagador de Promessas”, é transformada em filme e ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Dono de uma linguagem moderna, é levado pelas circunstâncias a escrever para a televisão, e o faz de maneira inovadora, criando obras que até hoje permanecem no imaginário do povo, como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”. Em uma de suas peças, “O Santo Inquérito”, a personagem Branca comenta sobre o abismo que separa o sonho da realidade:

“Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam … Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio.”

Com sua morte trágica, prematura, que privou o Brasil contemporâneo de uma de suas inteligências mais brilhantes, o pêndulo torna a oscilar e, em uma eleição onde a discussão sobre utopias foi a tônica, Roberto Campos consegue a maioria necessária para ocupar a Cadeira 21.

Lembro-me de, ainda jovem, ir para as ruas protestar contra sua política econômica – embora na época não tivesse sequer idéia do que isso significava. Fernando Sabino, porém, cunhou uma expressão primorosa: “Todo homem é incendiário aos vinte anos, e bombeiro aos quarenta.”

Aos quarenta anos, quando resolvi comprar o meu primeiro computador, vi um Brasil paralisado pela Lei da Informática, caminhando a passos largos em direção – não ao futuro, mas ao passado. Essa lei, que Roberto Campos tanto combatera, e que antes era uma abstração para mim, agora se transformava em algo concreto: estava me privando de um instrumento de trabalho. Ainda durante minha transição de incendiário a bombeiro, tive oportunidade de ler muitos artigos seus, e – mesmo a contragosto, já que sempre somos mais sectários do que ousamos admitir – terminei por lhe dar razão. O meu suposto inimigo de antes transformava-se em um homem capaz de defender com coerência e responsabilidade a sua utopia, buscando aí todas as tribunas possíveis.

Minha admiração chegou a tal ponto que, sabendo de uma noite de autógrafos de seu livro “Lanterna de Popa”, fui até a Gávea para encontrá-lo. Uma chuva torrencial impediu muitas pessoas de comparecer, e eu tive a oportunidade de privar, por meia hora, da sua intimidade e inteligência fulgurante. Firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, polêmico e provocador, Roberto de Oliveira Campos marcou a história do Brasil moderno. Correndo sempre o risco de não ser compreendido, era capaz de lutar até o fim por tudo aquilo que julgava melhor para nossa Pátria. Poucos foram os que se aplicaram em identificar profundamente o pensamento de Roberto Campos, e, entre estes encontra-se o jornalista Olavo Luz. Em sua biografia “Roberto Campos, o homem por detrás do mito”, Olavo nos deu uma dimensão humana desse Economista, Professor, Embaixador, Ministro de Estado, Senador, Deputado, e Acadêmico. Roberto Campos viveu entre o amor e o ódio.

Despertava a fúria raivosa dos contendores e a paixão extremada, quase uma religião, dos admiradores. Um episódio na vida do meu antecessor merece especial atenção: Corriam os chamados “anos de chumbo”, cujo prolongamento Roberto Campos tanto condenou, defendendo o retorno do poder à sociedade civil, após o governo Castelo Branco, que chamava de “arrumação da casa”. Carlos Lacerda, também um brilhante político e, naquele momento, em campo oposto ao então Ministro Extraordinário do Planejamento, cunhou uma frase histórica:

“O senhor Roberto Campos irrita a todos: mata os ricos de raiva e os pobres de fome”.
Impassível, Roberto Campos respondeu com uma outra frase histórica, que seria também uma declaração honrada de armistício:

“A violência da flecha dignifica o alvo”.
Muitas vezes, em momentos em que me sentia julgado com severidade excessiva pela crítica, me recordava dessa frase. E me lembrava de outro sonho, do qual eu não estava disposto a desistir: entrar, um dia, para a Academia Brasileira de Letras.

Há cinco anos, o acadêmico Eduardo Portella, durante o lançamento de “O Monte Cinco” na França, me se eu consideraria a possibilidade de uma candidatura. Perguntei se estava falando sério; ele disse que sim. Pouco tempo depois, Maria Eugenia Stein, amiga de longa data, resolveu promover um encontro com o então Presidente da Academia, Arnaldo Niskier. Retirei o sonho do meu coração, convidei-o para tomar um chá em minha casa, conversei abertamente sobre minhas pretensões, e tornei a guardar meu sonho em lugar onde pudesse contemplá-lo de vez em quando.

No dia 9 de outubro de 2001, eu participava do Festival de Autores e Cineastas, em Montecarlo. Conversava despreocupadamente com o diretor americano Sidney Pollack, quando meu telefone celular tocou: Roberto Campos havia morrido.

Pedi licença a Pollack, caminhei até a praia, fiquei contemplando o Mediterrâneo. Nos momentos em que precisamos tomar uma decisão muito importante, é melhor confiar no impulso, na paixão, porque a razão geralmente procura nos afastar do sonho – justificando que ainda não é chegada a hora. A razão tem medo da derrota. Mas a intuição gosta da vida, e dos desafios da vida. Eu também gosto, de modo que resolvi me candidatar, e confiei em meus amigos da Academia. Pessoas mais próximas me perguntavam: “Mas está mesmo na hora? Por que você não deixa isso para mais adiante?” Eu respondia: “Como é que você sabe que “mais adiante” é a hora certa?”

E segui em frente.

Vez por outra me lembrava de um episódio de minha adolescência: Com um grupo de amigos da Academia de Letras do Colégio Santo Inácio – onde cursava o ginasial – vimos até aqui para assistir a uma palestra. Foi preciso vestir terno e gravata, tomar o bonde, viajar muito tempo para chegar ao centro da cidade. Não me lembro da palestra, nem do palestrante – mas a primeira impressão desse lugar jamais saiu de minha cabeça.

Hoje, quase 40 anos depois, estou nesta tribuna, fazendo meu discurso de posse. O que era uma utopia de adolescente virou – no início da década de 90 – uma verdadeira heresia. Mas, como acontece com algumas heresias, esta também se transformou em realidade. Lutei por esse sonho, confiei em meus amigos, combati o bom combate e mantive a fé. Aprendi com Jorge Amado, o maior escritor brasileiro do século XX, o insubstituível, o grande, o generoso, o digno Jorge Amado, que as utopias são possíveis.

E hoje aqui com vocês, celebramos juntos.

Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seu trabalho com dignidade e dedicação. Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso anátema, mas não posso deixar passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro.

O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo sobre a glória do mundo:

“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exército, foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, virou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos.

“Certa noite, o homem teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.

“Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos.

“- Você foi um homem bom – disse-lhe o anjo. – Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.

“- A vida também foi boa para mim – respondeu o homem. – Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem.

“O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha.

“O homem chorou de alegria.

“- Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais – disse para o anjo, entre lágrimas. – Toda Roma se encantava com eles, e sei algumas de suas poesias de cor: gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.

“- Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma – disse o anjo. – Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército.

“O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:

“- Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus.

Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um centurião romano, converteu-se ao seu credo. Até que certa manhã chegou perto do Rabi.

“Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, disse não ser necessário.

“O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:

“- Estas são as palavras do seu filho soldado – disse o anjo ao homem. – São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas:

“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. A glória do mundo é transitória, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos – como o centurião romano – que deixam as marcas mais duradouras. Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente. Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.

O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.

Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que levam escritores a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Muito obrigado.

Fiódor Dostoiévski

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский, AFI [ˈfʲodər mʲɪˈxajləvʲɪtɕ dəstɐˈjɛfskʲɪj]; Moscovo, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881), ocasionalmente grafado como Dostoievsky, foi um dos maiores escritores da literatura russa. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita.”

O reconhecimento definitivo de Dostoiévski como escritor universal veio somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances: O Idiota e Crime e Castigo, este publicado em 1866, considerado por muitos como uma das obras mais famosas da literatura mundial. Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.

É conhecido por explorar a autodestruição, humilhação e assassinatos, além da análise de estados patológicos que levam ao suicídio, loucura e homicídio: seus escritos são chamados por isso de “romances de idéias”, pela retratação filosófica e atemporal. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.

Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, então médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscou, e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de proteção do ambiente familiar.

Seu pai tornou-se um nobre em 1828. Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da mãe por tuberculose em 1837, e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão, Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde o jovem Fiódor começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. É aceito hoje, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Dostoiévski, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Freud a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio.

Dostoiévski sofria de epilepsia e seu primeiro ataque ocorreu quando tinha nove anos. Suas experiências epiléticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns de seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance O idiota, e de Smerdyakov na obra Os Irmãos Karamazov.

Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoiévski aprendeu matemática, um tema que desprezava. Também estudou a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e E.T.A. Hoffmann. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoiévski descrevia-se como um “sonhador” em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.

Em 1844, Honoré de Balzac visitou, em São Petersburgo, Dostoiévski, que como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou sua vocação. Pouco depois, ele abandonaria o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura.[13]

Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Fez traduções de Balzac e George Sand.

Aluga, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedica-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixa o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoiévski “a mais nova revelação do cenário literário do pais.”

Em O Diário de um Escritor, recorda que após concluir Pobre Gente, deu uma cópia para seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção psicológica da obra. Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. “Um novo Gogol apareceu!”, disse Nekrasov. “Com você, a primavera de Gogol nasce como cogumelos!”. Bielínski respondeu a Dostoiévski.

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.(Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski)

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer mais freqüentemente de epilepsia. Seus romances seguintes, Duas vezes (1846), Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849) e a Inveja do Marido e Esposa de Outro, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, que fizeram com que Dostoiévski mergulhasse em depressão. Nesta época entrou em contato com alguns grupos de idéias utópicas, chamados niilistas, que procuravam a liberdade humana.

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual liberal chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia.[6] Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na prisão até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoiévski teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram abaixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. Sua pena foi comutada para cinco anos de árduo trabalho em Omsk, na Sibéria.

O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece várias descrições sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Durante este tempo os ataques epiléticos aumentaram ainda mais. Anos mais tarde, Dostoiévski descreveu seu sofrimento para seu ao irmão, dizendo-se um “silenciado em um caixão “[17] e que o local onde estava “deveria ter sido demolido anos atrás”.

No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a celemim.(Dostoiévski sobre seu local de prisão)

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indefinido.[6] Apaixona-se por Maria Dimítrievna Issáievna, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no próximo ano, em fevereiro de 1857, casam-se.[19] Na noite de núpcias Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia.

Depois de dez anos voltou à Rússia. Na Sibéria chamou a experiência de uma “regeneração” das suas convicções, e rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor, O Mujique Marei.

Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver.(Páginas escritas durante o seu cativeiro na Sibéria.)

Estudos médicos permitiram diagnosticar que Fiódor sofria de epilepsia temporal. Suas crises sistemáticas, que ele atribuía a “uma experiência com Deus”, tiveram papel importante em sua crise religiosa e em sua conversão durante o desterro, quando a Bíblia era sua única leitura. Dostoiévski se tornou um forte crítico do niilismo e do movimento socialista, e dedicou em seu livro O Diário de um Escritor para expor idéias críticas ao conservadorismo socialista.[21][22] Formou uma amizade com o estadista conservador Konstantin Pobedonostsev e abraçou alguns dos princípios do Pochvennichestvo. Por este tempo começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser solto sob a condição de residir em qualquer lugar, exceto em São Petersburgo e Moscou, e assim, mudou-se para Tver. Ele conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas por Dostoiévski. Em dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista Vremya (“Tempo”), que no primeiro número publicou Humilhados e Ofendidos, também inspirada em seu trabalho na Sibéria. Sua obra Memórias da Casa dos Mortos foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo.

Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de idéias progressistas. Perdeu muito dinheiro jogando e retornou à Rússia no fim de outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.[13]

Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado Epoja (“Época”), onde publicou Memórias do Subsolo. Seu ânimo acabou após a morte de sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo de sustentá-los.[13] Profundamente depressivo e viciado em jogos, acumulou enormes dívidas. Para sanar seus problemas financeiros, fugiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em cassinos.[20] Ali se reencontrou com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma de suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro O Jogador. O relacionamento com a Anna finalmente terminou em casamento em 15 de fevereiro de 1867.

Juntos continuaram a viajar pela Europa e Genebra, onde nasceu e morreu pouco tempo depois sua primeira filha. Em 1868, escreveu O Idiotae em 1871, terminou Os Endemoniados, publicado no ano seguinte. A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Esta publicação seria interrompida em 1878, para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.

Em 1880 participou da inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. Em 8 de novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, em 9 de fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Em sua lápide pode-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:

Em verdade vos digo que se o grão de trigo que cai na terra não morrer, é por si só, mas se ele morrer produz muito fruto.(Evangelho segundo João, 12:24)

Dostoiévski necessitava de dinheiro e sempre fora apressado em concluir suas obras. Por isso disse não conseguir realizar seu pleno poder literário. Ao contrário de escritores que descreviam o círculo familiar moldados na tradição e “belas formas”, ele escreveu sobre o caos familiar e os que humilhavam e insultavam.

Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.

Seus romances ocorrem em um período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais.

Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bajtín têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.

O russo Alexey Rémizov durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: “A Rússia é Dostoiévski. Rússia não existe sem Dostoiévski. “ A maioria dos críticos concorda que Dostoiévski, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e outros poucos escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo.

Publicou inúmeros contos: O Mujique Marëi, O Sonho de um Homem Ridículo, Bobock e outros, além de novelas: O Senhor Prokhartchin, A Dócil, O Homem Debaixo da Cama, Uma História Suja, O Pequeno Herói, Uma Criatura Gentil, Coração Fraco e Noites Brancas. Criou duas revistas literárias: Tempo (Vrêmia) e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.

Os personagens podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskij), intelectuais rebeldes (Rodion Românovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por idéias e não imperações sociais ou biológicas.

A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores.[30][24] Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como “o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal.” Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: “chorei verdade a partir do sangue”. Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. “Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo”, disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.

A falta de critérios mais definidos para a transliteração do alfabeto cirílico para o latino no idioma português faz com que existam diversas variantes da grafia do nome possam ser utilizadas simultaneamente; além de Fiodor Dostoiévski, pode-se encontrar comumente a versão anglicizada Fyodor Dostoievsky, e híbridos como Dostoiévsky.

Literatura brasileira

A literatura brasileira, considerando seu desenvolvimento baseada na língua portuguesa, faz parte do espectro cultural lusófono, sendo um desdobramento da literatura em língua portuguesa. Ela surgiu a partir da atividade literária incentivada pelo Descobrimento do Brasil durante o Século XVI. Bastante ligada, de princípio, à literatura metropolitana, ela foi ganhando independência com o tempo, especialmente durante o século XIX com os movimentos romântico e realista.

A literatura produzida no Brasil possui papel de destaque na esfera cultural do país: todos os principais jornais do país dedicam grande parte de seus cadernos culturais à análise e crítica literária, assim como o ensino da disciplina é obrigatório no Ensino Médio.

Período Colonial

  • Quinhentismo
  • Literatura de Informação
  • Literatura Barroca no Brasil
  • Literatura jesuítica
  • Barroco
  • Arcadismo

Século XIX

  • Romantismo
  • Realismo
  • Naturalismo
  • Parnasianismo
  • Simbolismo
  • Pré-Modernismo

Século XX

  • Modernismo
  • Pós-Modernismo / Geração de 45

Concretismo

Poesia Práxis

O que esperar da Literatura atual?

Literatura Contemporânea

  • Adélia Prado
  • Adão Ventura
  • Affonso Ávila
  • Alberto Mussa
  • Álvaro Cardoso Gomes
  • Ana Maria Machado
  • Ana Miranda
  • Ana Cristina César
  • Angela Dutra de Menezes
  • Antônio Barreto
  • Antônio Callado
  • Antônio Carlos Viana
  • Antônio Torres
  • Augusto Boal
  • Augusto de Campos
  • Autran Dourado
  • Benito Barreto
  • Bernardo Élis
  • Caio Fernando Abreu
  • Campos de Carvalho
  • Carlos Ávila
  • Carlos Heitor Cony
  • Carlos Herculano Lopes
  • Carlos Nascimento Silva
  • Chico Buarque de Holanda
  • Dalton Trevisan
  • Décio Pignatari
  • Dias Gomes
  • Domício Proença Filho
  • Domingos Pellegrini Jr.
  • Duílio Gomes
  • Eduardo Alves da Costa
  • Edla Van Steen
  • Edy Lima
  • Elias José
  • Elza Beatriz
  • Esdras do Nascimento
  • Fernando Sabino
  • Francisco Alvim
  • Geraldo Ferraz
  • Gianfrancesco Guarnieri
  • Haroldo de Campos
  • Harry Laus
  • Hélio Pólvora
  • Henry Corrêa de Araújo
  • Hilda Hilst
  • Humberto Werneck
  • Ignácio de Loyola Brandão
  • Jaime Prado Gouveia
  • Jeter Neves
  • João Antônio
  • João Pedro Roriz
  • João Ubaldo Ribeiro
  • Joel Silveira
  • Jorge Amado
  • José J. Veiga
  • José Maria Cançado
  • José Paulo Pais
  • José Roberto Torero
  • José Sarney
  • Laís Corrêa de Araújo
  • Libério Neves
  • Lindanor Celina
  • Lucia Castello Branco
  • Luís Fernando Veríssimo
  • Luiz Antonio Aguiar
  • Luiz Antonio de Assis Brasil
  • Luiz Fernando Emediato
  • Luiz Vilela
  • Lya Luft
  • Lygia Fagundes Teles
  • Manoel Carlos Karam
  • Marcelo Mirisola
  • Márcia Frazão
  • Mário Garcia de Paiva
  • Mário Prata
  • Mário Ribeiro da Cruz
  • Marques Rebello
  • Moacyr Scliar
  • Murilo Mendes
  • Murilo Rubião
  • Nélida Piñon
  • Nelson Motta
  • Otavio Augusto Lisboa
  • Otto Lara Resende
  • Paschoal Mota
  • Paulo Bentancur
  • Paulo Coelho
  • Paulo Leminski
  • Paulo Mendes Campos
  • Paulinho Assunção
  • Per Johns
  • Raduan Nassar
  • Reinaldo Moraes
  • Renard Perez
  • Ricardo Bellissimo
  • Ricardo Ramos
  • Ronald Claver
  • Rubem Braga
  • Rubem Fonseca
  • Rui Mourão
  • Ruth Rocha
  • Ruy Castro
  • Samuel Rawet
  • Sérgio Sant’Anna
  • Silviano Santiago
  • Sylvia R. Pellegrino
  • Wander Piroli
  • Yara Cecim
  • Zélia Gattai

Escritores do início do século XXI

Prosadores

  • Adriana Falcão
  • Adriana Lisboa
  • Adriana Lunardi
  • Alberto Mussa
  • Alexandre Soares Silva
  • Amílcar Bettega Barbosa
  • Ana Paula Maia
  • Andréa del Fuego
  • André Takeda
  • André Sant’Anna
  • Antônio Dutra
  • Antonio Prata
  • Astolfo Lima Sandy
  • Augusto Sales
  • Bernardo Carvalho
  • Bruno Zeni
  • Cecília Giannetti
  • Christiane Tassis
  • Cintia Moscovich
  • Clarah Averbuck
  • Clarice Pacheco
  • Cristiano Baldi
  • Daniel Frazão
  • Daniel Galera
  • Daniel Pellizzari
  • Eduardo Selga
  • Estevão Azevedo
  • Fernanda Young
  • Fernando Bonassi
  • Fernando Molica
  • Flávio Carneiro
  • Francisco Slade
  • Henrique Chagas
  • Ivana Arruda Leite
  • Ivan Sant’Anna
  • João Paulo Cuenca
  • Joca Reiners Terron
  • Julia Mendes
  • Leonardo de Moraes
  • Livia Garcia-Roza
  • Luis Eduardo Matta
  • Luiz Alfredo Garcia-Roza
  • Luiz Ruffato
  • Mara Coradello
  • Marçal Aquino
  • Marcelino Freire
  • Marcelo Benvenutti
  • Marcelo Mirisola
  • Marcelo Moutinho
  • Mariel Reis
  • Mário Bortolotto
  • Max Mallmann
  • Michel Laub
  • Miguel Sanches Neto
  • Milton Hatoum
  • Modesto Carone
  • Nelson de Oliveira
  • Orlando Pais Filho
  • Patrícia Melo
  • Paulo Bullar
  • Paulo Polzonoff Jr
  • Paulo Roberto Pires
  • Paulo Scott
  • Ricardo Bellissimo
  • Ricardo Lísias
  • Ricardo Soares
  • Raduan Nassar
  • Ronaldo Bressane
  • Ronaldo Cagiano
  • Ronaldo Correia de Brito
  • Ruy Tapioca
  • Santiago Nazarian
  • Sérgio Rodrigues
  • Simone Campos
  • Sonia Sant’Anna
  • Thales Guaracy
  • Thiago Iacocca
  • Vera Carvalho Assumpção
  • Vicente Franz Cecim
  • Vinicius Jatobá
  • Walter Solon
  • Xico Sá
  • Zé Rodrix
  • Zulmira Ribeiro Tavares

Poetas

  • Ana Elisa Ribeiro
  • Andréa Catrópa
  • Andrea Paola Costa Prado
  • Angélica Freitas
  • Annita Costa Malufe
  • Bruna Beber
  • Carlito Azevedo
  • Carlos Eduardo Drummond
  • Clarice Pacheco
  • Claudio Daniel
  • Delmo Montenegro
  • Dimythryus
  • Dirceu Villa
  • Donny Correia
  • Eduardo de Paula Barreto
  • Eduardo Lacerda
  • Elisa Nazarian
  • Fabiano Calixto
  • Fabrício Carpinejar
  • Fábio Aristimunho Vargas
  • Fabio Weintraub
  • Francisco Alvim
  • Frederico Barbosa
  • Gilmar Luís Silva Júnior
  • Heitor Ferraz
  • Horacio Costa
  • João Pedro Roriz
  • Laurindo dos Santos
  • Leila Mícollis
  • Leônidas de Albuquerque
  • Lilian Aquino
  • Luiz Roberto Guedes
  • Márcio Calixto
  • Marco Antônio Saraiva
  • Micheliny Verunschk
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  • Paulo Aquarone
  • Paulo Ferraz
  • Paulo Henriques Britto
  • Pedro Tostes
  • Renan Nuernberger
  • Ricardo Bellissimo
  • Tarso de Melo
  • Thiago Ponce de Moraes
  • Valério Oliveira
  • Victor Del Franco
  • Virna Teixeira
  • Zacarias Martins

Coletivos

  • Editora Baleia
  • Editora Casa Verde

Paul Verlaine

´´Eu sou o Império no final da decadência / Que vê passarem os grandes Bárbaros brancos…“. Extraídos do poema intitulado Langueurs da coletânea Jadis et Naguère (1884)

Paul-Marie Verlaine nasceu em Metz, França, em 30 de março de 1844. Filho de um militar abastado, estudou no Liceu Bonaparte — hoje Condorcet — de Paris e mais tarde conciliou o trabalho numa companhia de seguros com a vida boêmia nos círculos literários parisienses. Em seus primeiros livros, Poèmes saturniens (1866; Poemas saturninos) e Fêtes galantes (1869; Festas galantes), ouvem-se ecos do romantismo e do parnasianismo.

Próximo a Bouillon, na Bélgica, o pequeno Paul passou felizes verões com sua família paterna, no meio das paisagens das margens do Semois, que alternam lavouras, pastos, matas fechadas e pântanos. Uma região de lobos esguios, murtas negras e azinheiras à qual ele voltará mais tarde com a alma atormentada. Quando, em 1873, esse recém-casado e pai de um filho que acaba abandonando, tomado de fascínio pelo jovem Rimbaud, é procurado pela polícia por haver participado da Comuna de Paris, é para a Ardenne belga que parte em exílio. Ele acredita encontrar aí o prazer de um paraíso perdido.

No mês de agosto de 1862, Verlaine completa os estudos secundários em Paris, onde seus pais se instalaram em 1851. Eles o enviam então para morar com a família materna no norte da França. Que alegria poder mergulhar numa paisagem melancólica que corresponde a seus estados depressivos! A crisálida transforma-se em poeta maldito. Ali, entre os campos de colza e a leitura de Baudelaire, apaixona-se pela prima Elisa Moncomble. Amor impossível que o fará afogar a tristeza à noite em um cabaré.

Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville / Quelle est cette langueur / qui pénètre rnon coeur?” (Chora em meu coração / Como chove sobre a cidade / Que langor é esse / que penetra meu coração?).

Em Paris, ele se deixa levar docemente pelas delícias da “fada verde”, o absinto. Começa então a estudar direito. Nada lhe interessa. Emprega-se numa companhia de seguros e, em seguida, na Prefeitura de Paris. Aí ele passa sete anos, entediando-se. Nos cafés, esquece a melancolia, escreve versos e freqüenta os parnasianos (1). Em 1866, sua coletânea “Poèmes Saturniens” (Poemas Saturninos), editada graças a Elisa, que a financiou, faz com que seja percebido pela crítica. Em poemas de musicalidade lírica e singular, Verlaine expressa os arrebatamentos e quedas da alma, transpondo seus sentimentos em impressões e sensações através de paisagens nostálgicas e refinadas. Aos implorantes de absoluto como ele, resta o Belo, o Azul dos céus e o pesar pelos amores desvanecidos.

Mas Elisa não o amou. Foi a partir desse primeiro amor não correspondido que se cristalizou sua poesia melancólica e langorosa. Em 11 de agosto de 1870, ao casar-se com Mathilde Mauté de Fleurville – que não tinha mais do que dezesseis anos – ele tenta acomodar-se a uma burguesia “de boa família”, “aspirando uma vida simples e tranqüila”. Doce ilusão. Em setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud escreve-lhe de Charlevile. Alguns dias mais tarde, “le voleur de feu aux semelles de vent” chega a Paris a chamado de Verlaine, que se torna seu pai-amante. Em fevereiro de 1872, Mathilde pede a separação. Para acalmar a esposa ultrajada, o poeta afasta Rimbaud, fora de si. Mas em julho acontece a grande escapada: o adolescente foi mais persuasivo. Os dois amantes pegam a estrada para Bruxelas. Mathilde tenta uma reconciliação, mas Rimbaud e Verlaine partem para Londres.

De volta ao continente, Verlaine trabalha em Romances sans Paroles (Romances sem Palavras), enquanto o adolescente publica algumas páginas que revolucionam a literatura moderna: Une Saison en Enfer (Uma temporada no inferno). Sucedem rupturas e reconciliações. Eles formam um par tumultuado. Em Bruxelas, em 1873, Verlaine dá um tiro de pistola em Rimbaud.

Ele é preso, condenado e passará dois anos na prisão. Em 1874, em seu cárcere de Mons, ele compõe poemas místicos, marcas de um sincero arrependimento, que serão publicados em Sagesse (Sabedoria) (1881) e Jadis et Naguère (Outrora e recentemente) (1884), mas também eróticos, como em Parallèlement (1889). Ao sair da prisão em 1875, Verlaine embarca para a Inglaterra, onde será professor durante dois anos. Ele volta lá em 1879, onde vive com seu novo amante Lucien Létinois, um ex-aluno da instituição em que Verlaine ensinou durante dois anos, em Rethel, nas Ardennes. Eles foram expulsos de lá por causa de sua “amizade particular”.

Por que não se ouviu em Romances sans Paroles (1874), ou em La Bonne Chanson (A Boa Canção) (1870) inspirada por Mathilde, seu pedido de ajuda, para não ceder ao demônio? A Ardenne generosa ainda o esconderá por algum tempo. Em 1880, em Coulommes, perto de Rethel, o poeta compra uma fazenda para Létinois. Juntos, eles pretendem tornar-se camponeses. E vem mais uma vez o fracasso, a ruptura, o álcool. No ano seguinte, Verlaine volta a viver em Paris com sua mãe, na rua de la Roquette… Findo o tempo dos jovens amantes.

Depois de viver uma existência de pária, povoada de hospitais, prisões, móveis velhos e dramas sórdidos, Verlaine morre em Paris, aos cinqüenta e dois anos, em 8 de janeiro de 1896. Com a pena na mão, ele terá sido a imagem do velho iluminado. Bruscamente, enquanto é consumido por “reumatismo, cirrose, gastrite e icterícia“, finalmente lhe chega uma parcela de glória. Em 1895, os jovens poetas reconhecem nele o mestre da arte poética moderna. Ele é então rodeado, solicitado na Bélgica, na Inglaterra e na Holanda. Tarde demais. “Qu’as -tu fait, ô toi que voilà / Pleurant sans cesse / Dis qu’as-tu fait, toi que voilà ? De ta jeunesse?” ( O que você fez, ei, você aí / que chora sem parar, / diga o que fez, você aí / de sua juventude?) (Sagesse).


Em 1872, dois anos após casar-se, Verlaine abandonou mulher e filho e iniciou, com o jovem poeta francês Arthur Rimbaud, uma turbulenta ligação sentimental que os levou a percorrer vários países europeus. O relacionamento teve um final abrupto em Bruxelas, em 10 de julho de 1873, quando Verlaine feriu o amigo com um tiro de revólver e foi condenado a dois anos de prisão. Libertado, Verlaine tentou em vão reconciliar-se com Rimbaud. Viveu no Reino Unido até 1877, quando regressou à França. Datam desses anos dois magníficos livros de poesia, Romances sans paroles (1874; Romances sem palavras) e Sagesse (1880; Sabedoria), este a expressão de sua volta aos ideais de um cristianismo simples e humilde.
Apesar de sua crescente fama e de ser considerado um mestre pelos jovens simbolistas, o fracasso dos esforços que fez para recuperar a esposa e levar uma vida retirada conduziram Verlaine a uma recaída no mundo da boêmia e do alcoolismo que, durante o resto de seus dias, o obrigou a freqüentes hospitalizações.
Os vários livros de poemas que se seguiram apenas ocasionalmente recuperaram a antiga magia, como Amour (1888). Da produção posterior de Verlaine, o que mais se destaca são os textos em prosa, como o ensaio Les Poètes maudits (1884; Os poetas malditos), vital para o reconhecimento público de Rimbaud, Mallarmé e outros autores, e as atormentadas obras autobiográficas Mes hôpitaux (1892; Meus hospitais) e Mes prisons (1893; Minhas prisões). Paul Verlaine morreu em Paris em 8 de janeiro de 1896.

É considerado um dos maiores e mais populares poetas franceses. Um dos maiores poetas simbolistas franceses, seu lirismo musical abriu novos caminhos para a poesia em seu país e no mundo.

Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.

Em 1863, surgia na Revue du Progrés Moral o primeiro poema de Paul Verlaine (1844-1896). Ele prenunciava uma obra tumultuada, infinitamente bela, que beirava os umbrais da modernidade e transtornou definitivamente o cometa Rimbaud.



Obra

  • Poèmes saturniens (1866)
  • Les Amies (1867)
  • Fêtes galantes (1869)
  • La Bonne chanson (1870)
  • Romances sans paroles (1874)
  • Sagesse (1880)
  • Les Poètes maudits (1884)
  • Jadis et naguère (1884)
  • Amour (1888)
  • Parallèlement (1889)
  • Dédicaces (1890)
  • Femmes (1890)
  • Hombres (1891)
  • Bonheur (1891)
  • Mes hôpitaux (1891)
  • Chansons pour elle (1891)
  • Liturgies intimes (1892)
  • Mes prisons (1893)
  • Élégies (1893)
  • Odes en son honneur (1893)
  • Dans les limbes (1894)
  • Épigrammes (1894)
  • Confessions (1895)

Arte poética

A Charles Morice

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.

Canção do Outono

Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh’alma
num langor de calma
e sono.

Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.

Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido…

Tradução de
Alphonsus de Guimaraens

O Rouxinol

Numa revoada azul de pássaros cantando,
descem-me ao coração as saudades, em bando;
descem à murchecida e lúrica folhagem
do meu peito, que mira a dolorosa imagem
sobre a violácea cor do rio da Amargura.

Tradução de Batista Cepelos

Mário de Andrade

Mário de Andrade

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.

(A Costela de Grão Cão)

Mário Raul de Morais Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945) foi um poeta, romancista, crítico de arte, folclorista, musicólogo e ensaísta brasileiro.

Nasceu, estudou e iniciou a sua carreira musical e literária na cidade de São Paulo. Em 1917 foi publicado o seu primeiro livro de versos: Há uma gota de sangue em cada poema. A sua segunda obra, Paulicéia desvairada, colocou-o entre os pioneiros do movimento modernista no Brasil, culminando, em 1922, como uma das figuras mais proeminentes da histórica Semana de Arte Moderna. Alguns dos seus livros de poesia mais conhecidos são: Losango cáqui, Clã do jabuti, Remate de males, Poesias e Lira paulistana.

Publicou, em 1928, Macunaíma o herói sem nenhum caráter e Ensaio sobre a Música Brasileira.

Em 1938 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu o cargo de diretor do Instituto de Artes na antiga Universidade do Distrito Federal (hoje Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Regressando a São Paulo em 1942, regeu durante muitos anos a cadeira de História da Música no Conservatório Dramático e Musical.

Possuidor de uma cultura ampla e profunda erudição, foi o fundador e primeiro diretor do Departamento de Cultura de São Paulo da Prefeitura Municipal de São Paulo, onde implantou a Sociedade de Etnologia e Folclore, o Coral Paulistano e a Discoteca Pública Municipal.

Foi amigo e compartilhou os ideais estéticos modernistas de Oswald de Andrade.

Em 1938 Mário de Andrade reuniu uma equipe com o objetivo de catalogar músicas do Norte e Nordeste brasileiros.

Dessa Missão resultaram um vasto acervo registrados em vídeo, áudio, imagens, anotações musicais, dos lugares percorridos pela Missão de Pesquisas Folclóricas, o que pode ser considerado como um dos primeiros projetos multimédia da cultura brasileira.

O material foi dividido de acordo com o caráter funcional das manifestações: músicas de dançar, cantar, trabalhar e rezar.

Mário de Andrade também foi um dos mentores e fundadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, junto com o advogado Rodrigo de Melo Franco de Andrade. Mário tinha um projeto arrojado para o SPHAN, mas limitações de ordem política e financeira impediram a realização desse projeto (que seria caracterizado por uma radical investida no inventário artístico e cultural de todo o país), restringindo as atribuições do instituto, fundado em 1937, à preservação de sítios e objetos históricos relacionados a fatos políticos históricos e ao legado religioso no país.

O “prefácio interessantíssimo” é o prefácio de Mário de Andrade ao seu próprio livro Paulicéia Desvairada. Abre com uma citação do escritor belga Émile Verhaeren, que é o autor de Villes Tentaculaires. O prefácio não fala do livro mas sim de uma atitude geral perante a literatura. É uma espécie de manifesto poético, em versos livres.

No início do Prefácio ele próprio denuncia a sua atitude. Depois de afirmar que “está fundado o Desvairismo”, afirma que o seu texto é meio a sério meio a brincar. O que lhe dá um caráter inconfundível de, por um lado, programa poético e, por outro, paródia. Assim o sério e o divertimento se misturam num todo sem fronteiras definidas. Repare-se ainda que é um texto muito assertivo, provocativo e polêmico no que é característico o Modernismo.

Num estilo rápido e solto, com idéias truncadas, e que atinge um efeito de grande dinamismo. Mário de Andrade luta por uma expressão nova, por uma expressão que não esteja agarrada a formas do passado: “escrever arte moderna não significa jamais para mim representar a vida atual no que tem de exterior: automóveis, cinema, asfalto.”

Outra das idéias expressas por Mário de Andrade neste Prefácio/Manifesto é que a língua portuguesa é uma opressão para a livre expressão do escritor no Brasil. Assim ele afirma que “A língua brasileira é das mais ricas e sonoras”. Para reforçar esta idéia do brasileiro como língua, grafa propositadamente a ortografia de modo a ficar com o sotaque brasileiro. Assim aparece muitas vezes neste manifesto “si” em vez de “se”. Neste ponto está a ser completamente contra os poetas parnasianos que defendiam uma idéia de que a língua portuguesa seria a língua dos bons e grandes escritores do passado. Neste ponto, Mário de Andrade é um nacionalista. Mas não admira Marinetti. É contra a rima. E contra todas as imposições externas. “A gramática apareceu depois de organizadas as línguas. Acontece que meu inconsciente não sabe da existência de gramáticas, nem de línguas organizadas”. “Os portugueses dizem ir à cidade. Os brasileiros, na cidade. Eu sou brasileiro”. (Citado por Celso Pedro Luft).

A idéia talvez mais importante deste Prefácio é a de Polifonia e de Liberdade. “Arroubos… Lutas… Setas… Cantigas… povoar!” (trecho da poesia Tietê) Estas palavras não se ligam. Não formam enumeração. Cada uma é frase, período elíptico, reduzido ao mínimo telegráfico”.

A escrava que não era Isaura

A “Escrava que não é Isaura” (1922-1924) é um texto, de gênero também inclassificável como o anterior e é outra espécie de manifesto. Na sua globalidade é um texto “mais sério” do que o Prefácio Interessantíssimo. Aproxima-se mais de um ensaio. Tem por subtítulo “discurso sobre algumas tendências da poesia Moderna”. Constitui-se por uma Parábola, Primeira Parte, Segunda Parte e Posfácio. O texto é dedicado ao seu amigo Oswald de Andrade. A intertextualidade explícita da Escrava com outros autores é maior.

Parábola

No entanto começa na parábola de uma maneira extremamente parodística em relação ao genesis bíblico. Mário de Andrade diz “Gosto de falar por parábolas como Cristo”. O primeiro homem, depois da criação de Eva, plagia Deus tirando da língua (órgão da fala) uma mulher. Essa mulher nua ficou no cimo de um monte. Adão envergonhou-se da nudez e colocou-lhe uma parra. Depois passou Caim e cobriu-a com um “velocino alvíssimo”. Depois as gerações continuaram a subterrá-la de vestes e adereços. Um dia passou um vagabundo, Rimbaud, e ao dar um chute no monte este desmoronou-se. E surgiu em toda o seu esplendor a Poesia na sua nudez. E é essa mulher “escandalosamente nua” que os poetas modernos se puseram a adorar.

Primeira parte

Na Primeira Parte deste texto o poeta Mário de Andrade enuncia algumas fórmulas e receitas para a poesia. O que não deixa de ser irónico porque ele está contra o formalismo dos parnasianos. Por exemplo: “Necessidade de expressão+necessidade de comunicação+necessidade de ação+ necessidade de prazer = Belas Artes”. Repare-se que uma fórmula é tipicamente o mais oposto que há da Poesia, ao colocar-se a Poesia dentro de fórmulas matemáticas está a ser tipicamente vanguardista, na busca de efeitos surpreendentes. Por isso acrescenta mais uma fórmula “Lirismo Puro+Crítica+Palavra=Poesia”. Mário de Andrade apresenta uma receita e fala de como juntar os ingredientes.

Em seguida discute o problema do [[Beleza|BeloE postula que a “Beleza é uma consequência”. Retomando a parábola explica que o adorno da poesia não é mais do que roupagem frívola que esconde a essência da Poesia.

Defende uma arte que parta do Subconsciente e que cabe ao leitor tentar ir de encontro a esse subconsciente, a essa mensagem que pode não ser muito acessível. Aqui a sua posição é a de que o escritor não deve se preocupar com o leitor, que este é que deve tentar chegar ao texto por esforço próprio. Duas consequências são retiradas: uma é a de que deixa de haver assuntos poéticos por excelência e que estes têm de brotar espontaneamente no Subconsciente. O outro é que o Poeta deve estar na vida do seu tempo (ser moderno, portanto) e que é a renovação da “fúria”.

Segunda parte

Na Segunda Parte Mário de Andrade mostra como deve ser feita a nova poesia: “Tecnicamente: Verso Livre, rima livre, vitória do dicionário. Esteticamente: Substituição da ordem intelectual pela ordem subconsciente, rapidez e síntese, polifonismo.”

Mas a nova Poesia partindo do Subconsciente tem que se aliar a um “máximo de crítica”. Para Mário de Andrade a inspiração provém do Subconsciente. Mas a inspiração descontrolada não leva à criação mas a um lirismo acéfalo. Por isso para que a poesia seja criação tem que o subconsciente ser vigiado , corrigido, pelo esforço da atenção. No fundo é como se a poesia tivesse como matéria prima o subconsciente, este tem erupções e depois dessas erupções é preciso trabalhar a matéria que foi expelida.

Para Mário de Andrade o poeta é o intérprete do Eu, aquele que escreve em línguas conhecidas o Eu profundo.

Defende ainda que é típico dos poetas modernistas escreverem poemas curtos, que isso não se deve a uma falta de inspiração ou menor talento mas sim a uma necessidade de “rapidez sintética” devida à Vida Moderna. Nessa rapidez e poemas curtos se exprimem qualidades como “resumo, essência, substrato”. Mário de Andrade defende uma arte da Síntese e da Abstracção.

Importante ainda é a ideia de simultaneidade e polifonismo. O polifonismo é aquilo que estava a acontecer nas várias vanguardas, para Andrade é o mesmo que os vários ismos das outras literaturas mas com outro nome. Polifonismo é “a teorização de certos processos empregados quotidianamente por alguns poetas modernistas”.

Na vida moderna a sensação complexa é a simultaneidade de sensações (esta ideia é típica no modernismo mundial).

“Denominei esse aspecto da literatura modernista: POLIFONIA POÉTICA. razões: Simultaneidade é a coexistência de coisas e fatos num momento dado Polifonia é a união artística simultânea de duas ou mais melodias cujos efeitos passageiros e de embates de sons concorrem para um efeito total final.”

Posfácio

A Escrava que não é Isaura (que é a poesia, por isso não é a isaura), foi escrito em 1922 em pleno auge da euforia do modernismo brasileiro. Foi publicado em 1924 e Mário de Andrade tem um comentário autocrítico de desencanto e de cepticismo. Apresenta-se como uma pessoa que tomou posições de revolta mas que não pretende “ser revoltado toda a vida”. “Estou cético e cínico. cansei-me de ideiais terrestres.” e acerca de certos cultores de poesia, que eram o alvo preferencial dos seus ataques acaba por reconsiderar: “(…) cá muito em segredo, rapazes, acho que um poeta parnasiano e um modernista todos nos equiparamos”. O que de certa forma é um esfriamento, em relação ao projecto modernista. Esta atitude aconteceu muito nas vanguardas, depois de um momento breve de afirmação histriónica se cair num certo abatimento, num relativismo e melancolia existenciais.

Mário de Andrade já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Paulo Hesse no filme O Homem do Pau-Brasil (1982) e Pascoal da Conceição nas minisséries Um Só Coração (2004) e JK (2006).

Oscar Wilde

Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde (Dublin, 16 de outubro de 1854 — Paris, 30 de novembro de 1900) foi um escritor irlandês.

Criado numa família protestante, estudou na Portora Royal School de Enniskillem e no Trinity College de Dublin, onde sobressaiu como latinista e helenista. Ganhou depois uma bolsa de estudos para o Magdalene College de Oxford.

Wilde saiu de Oxford em 1878. Um pouco antes havia ganhado o prêmio Newdigate com o poema “Ravena”.

Passou a morar em Londres e começou a ter uma vida social bastante agitada, sendo logo caracterizado por suas atitudes extravagantes.

Foi convidado para ir aos Estados Unidos a fim de dar uma série de palestras sobre o movimento estético por ele fundado, o esteticismo, ou dandismo, que defendia, a partir de fundamentos históricos, o belo como antídoto para os horrores da sociedade industrial, sendo ele mesmo um dandi.

Em 1883, vai para Paris e entra para o mundo literário local, o que o leva a abandonar seu movimento estético. Volta para a Inglaterra e casa-se com Constance Lloyd, filha de um rico advogado de Dublin, indo morar em Chelsea, um bairro de artistas londrinos. Com Constance teve dois filhos, Cyril, em 1885 e Vyvyan, em 1886. O melhor período intelectual de Oscar Wilde é o que vai de 1887 a 1895.

Em 1892, começa uma série de bem sucedidas comédias, hoje clássicos da dramaturgia britânica: O Leque de Lady Windernere (1892), Uma mulher sem importância (1893), Um marido ideal e A importância de ser fervoroso,(ambas de 1895). Nesta última, o ar cômico começa pelo título ambíguo: Earnest, “fervoroso” em inglês, tem o mesmo som de Ernest, nome próprio

Publica contos como O Príncipe Feliz e O rouxinol e a rosa (que escrevera para os seus filhos) e O crime de Lord Artur Saville.

O seu único romance foi O retrato de Dorian Gray.

A situação financeira de Wilde começou a melhorar cada vez mais, e, com ela, conquista uma fama cada vez maior. O sucesso literário foi acompanhado de uma vida cada vez mais mundana. Suas atitudes tornaram-se cada vez mais excêntricas.

Em Maio de 1895, após três julgamentos, foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por “cometer atos imorais com diversos rapazes”.[1] Wilde escreveu uma denúncia contra um jovem chamado Bosie, publicada no livro De Profundis, acusando-o de tê-lo arruinado. Bosie era o apelido de Lorde Alfred Douglas, um dos homens de que se suspeitava que Wilde fosse amante. Foi o pai de Bosie que levou Oscar Wilde ao tribunal. No terrível período da prisão, Wilde redigiu uma longa carta a Douglas.

A imaginação como fruto do amor é uma das armas que Wilde utiliza para conseguir sobreviver nas condições terríveis da prisão. Apesar das críticas severas a Douglas, ele ainda alimenta o amor dentro de si como estratégia de sobrevivência. A imaginação, a beleza e a arte estão presentes na obra de Wilde.

Após a condenação sua vida mudou radicalmente e o talentoso escritor viu, no cárcere, serem consumidas sua saúde e reputação. No presídio, o autor de Salomé (1893) produziu, entre outros escritos, De Profundis, o clássico anarquista, A alma do homem sob o socialismo e a célebre Balada do cárcere de Reading.

Foi libertado em 19 de maio de 1897. Poucos amigos o esperavam na saída, entre eles o maior, Robert Ross.

Passou a morar em Paris e a usar o pseudônimo Sebastian Melmoth. Suas roupas tornaram-se mais simples, e o escritor morava em um lugar humilde, de apenas dois quartos. Sua produtividade literária é pequena.

O fato histórico de seu sucesso ter sido arruinado pelo Lord Alfred Douglas (Bosie) tornou-lhe ainda mais culto e filosófico, sempre defendendo o amor que não ousa dizer o nome, definição sobre a homossexualidade, como forma de mais perfeita afeição e amor.

Oscar Wilde morreu de um violento ataque de meningite (agravado pelo álcool e pela sífilis) às 9h50min do dia 30 de novembro de 1900.

Wilde foi grande porque conseguiu escrever para todos as formas de expressões em palavras. Embora pouco conhecido em algumas, mesmo assim, escreveu para elas.

Em seu único romance, O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde trata da arte, da vaidade e das manipulações humanas. Aliás, é considerado por muitos de seus leitores, como sua maior obra-prima, sendo rica em diálogos.

Já em novelas escritas por ele, como a maioria de todos seus escritos, Wilde criticava o patriotismo da sociedade. Isso fica claro na novela O Fantasma de Canterville.

Em seus contos infantis sempre tratou da criança que vive em cada um de nós, com lições de moral na sua mais bela e pura forma com linguagens simples. O Filho da Estrela (ver em Ligações Externas), é exemplo disso.

No teatro, escreveu nove dramas, que inclusive fizeram sucesso na época.

Wilde poeta usou a poesia simplesmente talvez para ampliar sua sensibilidade para as artes, embora não seja muito conhecido nesse campo. É recomendado ler Rosa Mystica, Flores de Ouro.

Cronologia

1874- Ganha a medalha de Ouro de Berkeley por seu trabalho em grego sobre os poetas helenos no Trinity College.

1876- Ganha o prêmio em literatura grega e latina, no Magdalen College. Publica sua primeira poesia, versão de uma passagem de As Nuvens de Aristófanes, intitulada O coro das Virgens das Nuvens.

1878- Ganha o prêmio Newizgate, com seu poema Ravenna, escrito em março desse ano.

1879- Phèdre, sob o título A Sara Bernhardt, é publicado no The Word.

1880- Escreve o drama em cinco atos Vera, ou Os Niilistas, sobre o niilismo na Rússia.

1881- Publica em julho a primeira edição de Poemas, coligidos por David Bogue.

1883- Em Paris termina sua tragédia A Duquesa de Pádua.

1887-89- Trabalha como editor de The Woman’s World.

1888- Publica O Príncipe Feliz e Outras Histórias, contos de fadas.

1889- Publica O Retrato do Sr. W.H., baseado no mistério criado em torno do protagonista e do autor dos Sonetos de Shakespeare, sendo recebido de forma hostil pela crítica.

1890- A primeira versão de O Retrato de Dorian Gray é publicada no Lippincott’s Monthly Magazine.

1891- O ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo é publicado no The Fortnightly Review. Publica a versão revisada de O Retrato de Dorian Gray. Também publica Intentions, Lord Arthur Savile’s Crime and Other Stories e A house of Pomegranates.

1892- Estréia com grande sucesso no St. James Theatre, de Londres, O Leque de Lady Windermere. Sarah Bernhardt ensaia em Londres Salomé, peça em um ato escrita em francês, sobre a morte de São João Batista, cuja estréia, à última hora, é proibida por apresentar personagens bíblicos.

1893- Salomé é bem recebida quando produzida em Paris e Berlim. Uma mulher sem importância é montada em Londres, também com êxito, e O Leque de Lady Windermere é publicado.

1894- Edição de Salomé em Londres, com ilustrações do desenhista Audrey Bearsdley. Publica Uma Mulher sem importância e o poema A Esfinge que não obteve sucesso.

1895- As peças Um marido ideal e A Importância de ser fervoroso são montadas em Londres com êxito total. Em 27 de maio deste ano Oscar Wilde é preso, primeiro na Prisão de Pentoville, depois na de Wandsworth. Ainda em maio, o ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo é publicado em livro. A 13 de novembro é transferido para a Prisão de Reading, na cidade do mesmo nome, onde ficará até o final de sua sentença.

1896- Salomé é representada em Paris, tendo Sarah Bernhardt no papel principal. Em 7 de julho é executado na Prisão de Reading o ex-sargento Charles T. Woolridge, cuja morte inspira Oscar Wilde ao seu maravilhoso poema A Balada do Cárcere de Reading.

1897- Ainda na prisão, Oscar Wilde escreve De Profundis, uma longa carta a Lorde Douglas. Sai da Prisão e em 28 de maio, aparece no Daily Chronicle, sua primeira carta sobre o regime penitenciário britânico, sob o título O Caso do Guarda Martin.

1898- Publica A Balada do Cárcere de Reading e escreve outra longa carta ao Daily Chronicle sobre as condições carcerárias.

1899- A Importância de Ser Fervoroso e Um marido ideal são publicados em livro.

1900- Em 30 de novembro morre Oscar Wilde vítima de meningite.

Introdução à Teoria da Literatura

Desde os gregos se estudava literatura e os aspectos inerentes a ela. Platão, na República, e especialmente Aristóteles, na Poética, dedicaram-se a tais investigações e são hoje fonte primeira da teoria literária. Essa, entretanto, com o nome e a função da moderna teoria literária, passaria por um longo processo de formação e, para muitos teóricos, só aparece no começo do século XX, com a Neo Crítica de um lado e o Formalismo Russo de outro.

Vale sumariamente comentar as correntes anteriores à teoria literária. No classicismo houve uma veneração aos clássicos gregos e romanos, e as poéticas foram não apenas ressuscitadas como revalidadas e rescritas em diversos países e idiomas. Não se tratava de uma revisão da Poética clássica, e sim de uma adaptação para o mundo renascentista em formação. Pouco adiante, quando o humanismo torna-se a ideologia dominante, o indivíduo ganha força. Ou seja, passa a se valorizar o escritor enquanto artista, suas inovações e invenções são vistas como obras de gênio e a análise literária recorre às biografias desses gênios como forma de explicar seu texto. Era um ponto de vista humanístico que os oitocentos substituirão gradativamente por uma perspectiva científica. E o resgate histórico que o mundo oitocentista se permite fazer traz à tona a história literária como primeira investigação científica da literatura.

Aliado ao biografismo, a história literária procura no contexto social e político da época as explicações ou relações com a obra literária. Mais tarde este mesmo século XIX consolida o racionalismo Iluminista e a literatura aos poucos é vista como ciência. Já se fala em ciência da literatura. Os modelos metodológicos desta ciência seriam – alternadamente ou em combinação – (1) biográfico-psicológico, (2) sociológico, e (3) filológico.

O movimento que surgiria, com a Neo Crítica estadunidesne e o Formalismo Russo, é de rompimento com esta noção de que a literatura só pode ser analisada sob o prisma de outra ciência. Os novos estudiosos querem uma análise imanentista da literatura, uma análise dos sons e ritmos dos versos, das estruturas narrativas da prosa, enfim, de aspectos estritamente literários.

Objetos de Estudo:

  • Literariedade
  • Evolução literária
  • Períodos literários
  • Gêneros literários
  • Narratividade
  • Versos, sons e ritmos
  • Influências externas (política, cultural, filosófica etc)
  • Escolas:>

    Desde os gregos se estudava literatura e os aspectos inerentes a ela. Platão, na República, e especialmente Aristóteles, na Poética, dedicaram-se a tais investigações e são hoje fonte primeira da Teoria da Literatura. Essa, entretanto, com o nome e a função da moderna teoria literária, passaria por um longo processo de formação e, para muitos teóricos, só aparece no começo do século XX, com o New Criticism de um lado e o Formalismo Russo de outro.

    O movimento que surgiria com o New Criticism norte-americano e o Formalismo russo é de rompimento com a noção de que a literatura só pode ser analisada sob o prisma de outra ciência. Os novos estudiosos querem uma análise imanentista da literatura, uma análise dos sons e ritmos dos versos, das estruturas narrativas da prosa, enfim, de aspectos estritamente literários.

    Algumas escolas da Teoria Literária:

    • Neo Crítica
    • Formalismo Russo
    • Estruturalismo francês
    • Fenomenologia
    • Correntes marxistas