I have a dream – EU TENHO UM SONHO Discurso de Martin Luther King (28/08/1963)

“Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.
Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, “Quando vocês estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

“Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!”

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

“Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.”

Paulo Coelho

Paulo Coelho (Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1947) é um escritor, compositor, modelo e ator brasileiro.

Nascido numa família de classe média católica, aos sete anos Paulo Coelho ingressa em um colégio jesuíta da então capital do Brasil.

Desde muito novo, gostava de escrever e mantinha um diário. No colégio, participava de concursos de poesia e cursos de teatro. No entanto, seu pai queria que ele fosse engenheiro, e sua mãe desestimulava Paulo a seguir a carreira de escritor. As brigas com os pais eram constantes e Paulo teve muitas crises de depressão e raiva na adolescência, tendo sido internado três vezes em uma clínica de repouso, onde foi tratado com eletrochoques.

Na década de 1960, adere ao movimento hippie, ao mundo das drogas e ao ocultismo e satanismo. Profissionalmente, exerce a profissão de ator em algumas peças, e escreve e produz outras. Exerce também a função de jornalista em publicações ditas alternativas, quando conhece Raul Seixas, então executivo de uma produtora musical. Os dois se tornam parceiros em diversas músicas que exercem influência no rock brasileiro (mas consta na biografia de Paulo Coelho, “O Mago“, que Raul Seixas compusera sozinho algumas delas mas colocara o nome do amigo Paulo). Nessa época, Paulo Coelho envolve-se com Marcelo Motta e torna-se um seguidor de Aleister Crowley e da chamada “Sociedade Alternativa”, a qual apresenta a Raul e que lhe renderia problemas com o governo militar. Compõe também para diversos intérpretes, tais como Elis Regina, Rita Lee e Rosana Fiengo.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

A edição do seu primeiro livro foi em 1982, Arquivos do Inferno, que não teve repercussão desejada. Lançou o seu segundo livro O Manual Prático do Vampirismo em 1985, que logo mandou recolher considerando o trabalho de má qualidade. Conforme suas próprias palavras, confessa: “O mito é interessante, o livro é péssimo”.

Em 1986, Paulo Coelho fez a viagem de peregrinação pelo Caminho de Santiago. Percorreu quase 700 quilômetros a pé do sul da França até a cidade de Santiago de Compostela na Galiza, experiência que relata em detalhes no livro O Diário de um Mago, editado em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que – apesar de sua lenta vendagem inicial, o que provocou a desistência do seu primeiro editor – se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos; O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países e vendeu, até o momento, 41 milhões de exemplares.

Nos anos subseqüentes foram lançados os seguintes livros : Brida [1] (1990), As Valkírias [1] (1992), Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei [1] (1994), Maktub [1] (1994), O Monte Cinco [1] (1996), Manual do Guerreiro da Luz [1] (1997), Veronika Decide Morrer [1] (1998), O Demônio e a Srtª Prym [1] (2000), Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos [1] (2003), O Gênio e as Rosas (2004), O Zahir [1] (2005) e A Bruxa de Portobello (2006).

Como escritor, apesar das críticas, ocupa as primeiras posições no ranking dos livros mais vendidos no mundo. Vendeu, até hoje, um total de 92 milhões de livros[2], em mais de 150 países[3], tendo suas obras traduzidas para 66 idiomas[4] e sendo o autor mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos[5], ultrapassando até mesmo Jorge Amado, cujas vendas somam 54 milhões de livros[5].

Sua penúltima obra, O Zahir, foi lançada primeiramente no Irã, para que lá pudesse ser registrada como obra local e que fossem processados aqueles que fizessem cópias ilegais do livro em língua persa[carece de fontes?]. Para escrever O Zahir, Paulo Coelho instalou-se por uma temporada no Casaquistão, país onde a obra se desenvolve.

No fim de 2006 o autor lançou seu mais novo livro A Bruxa de Portobello, que figura na lista dos mais vendidos no Brasil desde então. A história é construída apenas por depoimentos das personagens fictícias, respeitando a parcialidade de cada uma.

Paulo Coelho escreve seus livros em um apartamento na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, e possui uma casa para retiro na França, na região dos Pireneus.

Em 2007, Paulo Coelho fez uma partipação na novela Eterna Magia, representando Mago Simon, representação humana do grande Dagda, deus supremo da mitologia celta.

Não deixou de causar grande surpresa a eleição, em 25 de julho de 2002, de Paulo Coelho para a academia. A instituição tinha um histórico de rejeitar autores de sucesso, ditos “populares” – e dela ficaram fora Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Mário Quintana e outros tantos autores reconhecidos.

Mas o autor, que se candidatara outras vezes, foi eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo acadêmico Arnaldo Niskier como o oitavo ocupante da cadeira nº 21, cujo patrono é Joaquim Serra

Apesar de sua popularidade, Paulo Coelho é também alvo de fortes críticas de vários segmentos da sociedade, que abarcam tanto o mérito espiritual quanto literário de sua obra. Algumas opiniões desaprovam os seus livros e os qualificam como “literatura esotérica de auto-ajuda”. Muitos de seus textos possuem erros de concordância e gramaticais, muitas vezes corrigidos em edições posteriores ou em sua versão para outros idiomas – minimizando a crítica estrangeira. A falta de fidelidade quanto aos fatos torna-se evidente quando cotejados com situações verídicas, como o transpor de distâncias não factíveis no tempo determinado quando em peregrinação. A mesma crítica também contesta seu ingresso na Academia Brasileira de Letras.

Em setembro de 2007, a ONU nomeou o escritor Paulo Coelho seu novo Mensageiro da Paz, ao lado da princesa jordaniana, Haya, do maestro argentino-israelense Daniel Barenboim e da violonista japonesa Midori Goto. O anúncio foi feito durante a cerimônia de comemoração do Dia Internacional da Paz na sede da ONU em Nova Iorque presidida pelo secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon.

“Aceito com gosto esta responsabilidade e me comprometo a fazer o máximo para melhorar o futuro desta e das próximas gerações”, declarou o escritor brasileiro ao saber de sua nomeação. Os Mensageiros da Paz são designados pessoalmente pelo secretário-geral das Nações Unidas, com base em seu trabalho em campos como artes plásticas, literatura ou esporte, e seu compromisso de colaborar com os objetivos da ONU.

Obras do autor

  • Arquivos do inferno (1982)
  • Manual prático do vampirismo (1986) [recolhido pelo autor]
  • O diário de um mago (1987)
  • O Alquimista (1988)
  • Brida (1990)
  • O dom supremo (1991)
  • As valkírias (1992)
  • Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994)
  • Maktub (1994), coletânea de suas melhores colunas publicadas na Folha de São Paulo
  • Frases (1995), compilação de textos
  • O Monte Cinco (1996)
  • O manual do guerreiro da luz (1997)
  • Veronika decide morrer (1998)
  • Palavras essenciais (1999)
  • O demônio e a Srta. Prym (2000)
  • Histórias para pais, filhos e netos (2001), coletânea de contos tradicionais
  • Onze minutos (2003)
  • O Gênio e as Rosas (2004)
  • O Zahir (2005)
  • A Bruxa de Portobello (2006)
  • Ser como o rio flui (2007)
  • O vencedor está só (2008)
  • O mago… (2008)


Principais prêmios e condecorações

  • “I Premio Álava en el Corazón” (Espanha, 2006)
  • “Wilbur Award” (Estados Unidos, 2006)
  • Premio Kiklop pelo O Zahir na categoria “Hit of the Year” (Croácia, 2006)
  • Premio “DirectGroup Inrternational Author” (Alemanha 2005)
  • “Goldene Feder Award” (Alemanha, 2005)
  • “The Budapest Prize” (Hungria, 2005)
  • “Order of Honour of Ukraine” (Ucrânia, 2004)
  • “Order of St. Sophia” (Ucrânia, 2004)
  • “Nielsen Gold Book Award” pelo O Alquimista (Inglaterra, 2004)
  • Premio “Ex Libris Award” pelo o livro Onze Minutos (Serbia, 2004)
  • Premio “Golden Bestseller Prize” do jornal “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
  • Oficial de Artes e Letras (França, 2003)
  • Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
  • Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
  • “Crystal Mirror Award” (Polônia, 2000)
  • “Chevalier de L’Ordre National de la Legion d’Honneur” (França, 2000)
  • “Golden Medal of Galicia” (Espanha, 1999)
  • “Crystal Award” World Economic Forum (1999)
  • “Comendador de Ordem do Rio Branco” (Brasil, 1998)
  • Finalista para o “International IMPAC Literary Award” (Irlanda, 1997)
  • “Golden Book” (Yugoslavia ’95, ’96, ’97, ’98)
  • “Super Grinzane Cavour Book Award” (Itália, 1996)
  • “Flaiano International Award” (Itália ’96)
  • “Knight of Arts and Letters” (França ’96)
  • “Grand Prix Litteraire Elle” (França/95)
  • “Mensageiro da Paz”, pela ONU (2007)

O escritor, meus amigos, é um pobre ser frágil cheio de vaidade e solidão. A grande ilusão de Luiz Fernando Emediato

Jornalista e escritor vencedor de vários prêmios literários, e dos prêmios Esso de Jornalismo e Rei de Espanha de Jornalismo Internacional. Criador do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo e responsável pela introdução do “âncora” na televisão brasileira. Autor de “Trevas no Paraíso”, “Geração Abandonada”, entre outros livros. É editor da Geração Editorial. As crônicas desta seção foram publicadas no Caderno 2 e no livro “A grande ilusão”.

http://www.geracaobooks.com.br/

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A Solidão do Criador

Quando a solidão do artista
é maior, e mais amarga, que a
comum solidão dos seres

Esta semana eu tive uma experiência inesquecível. Fui entrevistar um dos mais
famosos músicos brasileiros, conhecido por sua timidez e laconismo, e ele, muito à vontade, discorreu durante quase três horas sobre sua infância, sua pobreza, sua emocionante luta para ser um dia um grande artista, aquele que vai sempre onde o povo está, para dividir com ele o embriagante pão da poesia.

Não vou dizer quem é, pelo menos por enquanto: a entrevista vai ser publicada até o próximo domingo. Mas o que eu queria dizer é que, no final da conversa, gravador já desligado, ele olhou para o mar através da janela – estávamos no Rio –, suspirou profundamente, virou-se para mim e disse:

– Eu queria dizer mais uma coisa.

Esperei, surpreso, e então, como se queixasse, ele falou:

– Engraçado. A gente canta em tantos lugares do mundo, para cinco mil, dez mil, quinze mil pessoas, e então elas dançam, algumas choram, aplaudem, vibram com minha música. É como se fosse uma missa, com emoções compartilhadas – mas depois todos vão embora e eu vou para o camarim e fico lá sozinho. Depois eu vou sozinho para o hotel, ou para a minha casa, e me pergunto: para onde foram as pessoas?

Silêncio. Ele respira, olha para a parede vazia, baixa os olhos e conclui:

– Eu me sinto muito solitário.

Todos nós sofremos, uma vez ou outra, por causa da solidão. Eu me lembro de quando estava em El Salvador, cobrindo a guerra civil, e à noite, sozinho no meu quarto de hotel, não tinha com quem dividir o sofrimento por ter visto, durante o dia, tanto horror: crianças mortas a tiros e bombas, jovens esquartejados e queimados, soldados quase crianças lutando contra seus parentes guerrilheiros.

Em 1978, quando escrevi uma série de reportagens sobre a cidade de São Paulo e as pessoas que vivem aqui, descobri uma coisa desconcertante: há em São Paulo 300 mil pessoas que moram sozinhas, em pequenos apartamentos, no espaço vazio das mansões, debaixo das pontes e dos viadutos e até – pasmem – nos túmulos vazios dos cemitérios, como no do Araçá, onde vivia uma moça num belo túmulo-capela. Em São Paulo, informavam então as frias estatísticas do IBGE, todos os dias pelo menos dez pessoas tentam matar-se, de tédio, desespero – ou solidão.

Muitas delas não são realmente solitárias – convivem com seus familiares, têm amigos, trabalham em ambientes onde dezenas de pessoas compartilham com elas, diariamente, seus pequenos ou grandes problemas pessoais. Um dia o jornalista José Maria Mayrink escreveu uma série de reportagens depois publicada em livro. O título foi Solidão (não adianta procurar nas livrarias, pelo menos agora. O livro está esgotado). Mayrink descobriu, de maneira comovente, a solidão dos que vivem num grande aglomerado urbano, São Paulo. Milhões de pessoas juntas. E, apesar disso, solitárias.

Eu estava aqui pensando na terrível solidão do congressista honesto – coisa rara, hoje em dia – que chega ao Congresso, em Brasília, vai ao plenário e discursa, solitário, para um ou dois companheiros. Ou do presidente da República, que, na solidão de seu gabinete, tem de decidir sobre o destino de mais de 130 milhões de brasileiros. Como Deus, que antes de criar o mundo deve ter sido muito, muito solitário.

Pensando entretanto na solidão de uns e outros, no amargo isolamento dos que sonham em dividir com alguém um sorriso, uma palavra amiga, uma opinião, volto ao início desta crônica: é terrível, sim, a solidão do artista. Porque o artista se entrega, de corpo e alma, aos que buscam sua arte, e ele se entrega porque tem necessidade de amar e ser amado. O mais amargo nesta história toda é que, quanto mais querido, quanto mais amado, mais solitário às vezes ele pode ser. Tão solitário quanto por exemplo os escritores. Quando, no silêncio de seu gabinete, eles têm apenas um papel entre seus dedos e a máquina, os escritores são, sem dúvida, os mais solitários dos seres.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Balada Triste
29-11-2006

Perdido em lembranças,
papéis e naufrágios,
um homem pensa e sofre

então ele olha a gotinha cristalina da chuva escorrendo pela folha verde e uma grande saudade invade o seu triste e solitário coração. O cheiro de terra molhada, a chuva na vidraça, o vidrinho com a água açucarada para atrair o beija-flor movendo-se como um pêndulo, empurrado pelo vento: isso é belo, ele pensa, mas como é triste!

Trinta e seis anos. Metade da vida já se foi, e então ele começa a ter saudades da infância, a inocência dos olhinhos arregalados perguntando pelo sentido das coisas, os brinquedinhos de madeira, o cheiro de jasmim nas roupas, o pai ausente, a mãe gritando com os irmãos. Tão longe.

O céu cinzento anuncia tempestade, relâmpagos, trovões. Então ele anda pela casa, calado, curvado, o coração apertado de angústia e lembranças. A calça curta, as pernas finas, a adolescência chegando, o medo do sexo e da vida, o primeiro beijo. Espinhas no rosto. Timidez.

Que estranha é a vida! Que estranho e grande é o mundo, pensa, olhando no espelho os primeiros fios brancos na barba, as rugas ao redor dos olhos, o vinco amargo e seco ao redor dos lábios. Tenta rir, sai uma careta feia e dolorida. Carne. Carne.

E então ele desiste de olhar a chuva lá fora, a água nas folhas, o céu cinzento e anda pela casa buscando tudo e nada, pedaços de coisas, frangalhos, quebra-cabeças. Mexe nas gavetas, nos papéis, nas fotografias. A mãe sorri em uma delas, jovem e feliz. O rosto severo do avô morto. O irmão briguento. O tio alcoólatra morto aos 33 anos, de cirrose. O parente distante que enlouqueceu e deu um tiro no ouvido. O primo que fugiu para ser padre. Vida. Vida.

Tem alergia de papéis velhos e espirra. Mas segue em frente e vê: esboços de histórias, contos, romances e poemas que não escreveu e jamais escreverá. Bilhetes, cartas que não respondeu, versos de amor para alguém e para ninguém. Um soneto apaixonado escrito aos 17 anos em um papel amarelo e manchado; lágrimas. E então ele se lembra, com amargura, que já não consegue chorar, nem nada. Que pena.

Abre e fecha as gavetas, cheio de ansiedade e pressa. Rostos que já não reconhece desfilam entre seus dedos nervosos. Mas há aqueles que jamais esquecerá: Teco, o amigo fiel que se perdeu pelo mundo; Cândida, o primeiro amor; Regina, a primeira e desvairada paixão; Juan, que não se chamava Juan e morreu na guerra; Caio, o escritor sensível e bom, mas tão trágico, tão triste, tão frágil…

Caio fazia perguntas e dava conselhos: “Viver para quê?”. Ou: “Meu irmão, a gente tem de descobrir maneiras de ficar forte”. Ou: “Não se preocupe demais. Relaxe. Navegue”. E então: “Foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Cuide bem de você”. E a data: 19 de maio de l977. Dez anos depois, nada restou além da fria distância entre os dois: olhares furtivos; fugas; silêncios.

Lê, comovido, e pensa: o tempo separa as pessoas, e as idéias também. O que mais separa as pessoas além do orgulho, a sensibilidade exagerada, a incompreensão? Nada vale uma amizade. E então lê, no papel amarelo onde o amigo datilografava as cartas (e a máquina dele tinha até nome, Virgínia Woolf: “Releio Alice no País das Maravilhas e descubro que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda não conseguiu entender nada. Ou conseguiu entender tudo (jamais saberei)”.

Jamais, pensa então. Jamais. E então ele anda pela casa, olha os filhos brincando – inocentes, felizes, quanta beleza! – e se pergunta se não está sofrendo por estar fazendo sofrer. Quem sabe? (Jamais saberemos.)

Perguntas doem. Respostas também. Então ele desiste de fazer perguntas e buscar respostas, vai para a varanda, senta-se na cadeira de balanço, fecha os olhos e ouve apenas o ruído das últimas gotinhas de chuva deslizando pelas telhas e pelas folhas das árvores. Sonha com elfos, duendes, camaleões, fadas, uma princesa alta e branca de cabelos pretos como azeviche – um rosto igualzinho ao da Melanie Grifith, totalmente selvagem. Acorda sorrindo sem saber por quê.

A chuva parou. Um sol frágil e frio despeja luz sobre as gotículas de água. Então ele se ergue, olha o relógio, descobre que está atrasado para o trabalho e corre. Beija as crianças, despede-se apressadamente, tropeça nas pedras do jardim, entra no carro e sai. Até chegar ao trabalho cantarola inconscientemente a letra de uma velha canção chamada Balada Triste. É uma canção cuja letra fala de outra canção que faz o cantor lembrar-se de alguém – alguém que existe dentro do seu (dele) coração. O dele, porém, é um coração vazio e solitário e talvez nem exista. Talvez nem o homem exista. Talvez suas próprias lembranças não existam. Talvez existam apenas as palavras, estas que escrevo. Que pena.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992.

Queridos Leitores

Tenho pensado seriamente em pôr um fim à minha vida.” Era terça-feira, eu tinha acabado de chegar ao jornal para começar mais um dia de minha vida efêmera e frágil e a carta estava lá, sobre a mesa: um envelope branco, subscrito com letra bem desenhada, feminina – alguém que assinou apenas como Kamikaze. Alguém sem nome e endereço. Alguém amargurado e triste.

Olhei em volta e vi pessoas trabalhando, silenciosas ou não, cada um com seu destino. Na mesa mais próxima, Glorinha, Ana Cândida, Enedina, Motta e Charles tinham o rosto triste: Alexandre Bressan, nosso colega, tinha sido assassinado com dois tiros no final de semana. Trinta e cinco anos, uma vida inteira pela frente. E, no entanto, em algum lugar desta São Paulo fria e grande, uma mulher solitária diz que pensa em morrer.

Há sol lá fora, são 9 horas da manhã. Os automóveis passam pela avenida marginal do rio Tietê conduzindo homens, mulheres e crianças: passageiros habitantes deste planeta azul. Daqui da janela sou apenas um homem comum com uma carta desesperada entre os dedos. Foi escrita no dia 9 de novembro por uma mulher com mais de 35 anos, que estudou química e estava, naquele dia, desempregada e sem vontade de viver.

Recebo cartas todos os dias. Alguns leitores escrevem todas as semanas. Quase sempre é bom. Outras vezes, não. Dulceli Nogueira (Lila), de Ribeirão Preto, quer que eu volte a acreditar em Deus e conforta minha descrença com belas citações da Bíblia. G. H. Wills, de Vargem Grande Paulista, avô de dois, sem dúvida, belos netinhos, Tati e Du, é um homem de fé que compreende e aceita minha descrença, e escreve quase sempre me confortando quando estou amargurado, ou se alegrando comigo quando faço força para ter esperança.

Regina quer ser minha namorada. Não dá, querida: minha Sylvia não iria gostar. Nem você, talvez: as pessoas fazem uma idéia da gente quando não nos conhecem – poderia ser, console-se, uma enorme decepção. Pedro Sena (ou será Souza? Ou Serra?) escreve dizendo que tenho me lastimado demais aqui neste espaço e que não adianta chorar – o jeito é entrar no Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Também não dá, Pedro: o seu partido é conservador demais. Vai ser difícil dar as mãos, como você pede, para os seus camaradas: já lhes dei as mãos há dez anos, quando quis ser comunista e tive grande apoio do Partido, até que um dia quis pensar com minha própria cabeça e os camaradas não tiveram dó nem piedade – cortaram minhas mãos e quase levaram a cabeça junto. Seja feliz, Pedro – mas fico aqui do meu canto anarquista, cheio de dúvidas e incertezas. Para o Partidão, Pedro, nem com perestroika. Seja feliz com a foice, o martelo e a sua comovente certeza de que “o socialismo deu certo na metade do mundo”. Será?

Paulo, um publicitário, quer meus préstimos para conhecer minha amiga Susana Kakowicz, uma judiazinha polaca que conquistou corações (inclusive o meu) escrevendo duas ou três vezes aqui mesmo neste espaço dominical e depois sumiu sem dar notícias.

Volta, Susana, volta. Mas pior é um sujeito que tem um projeto agropecuário e telefonou pedindo que o auxiliasse a mostrá-lo para o empresário Sílvio Santos, com direito a comissão e tudo. Cada coisa…

Há também os que ameaçam – são sempre anônimos – e que telefonam insultando e gritando palavrões, toda vez que reclamamos, por exemplo, da imoralidade com que os homens públicos destroem o que sobrou deste país. Pobre gente.

“Leitor e eu formamos um bicho composto, uno e dividido, uma parte querendo engolir a outra”, escreveu uma vez o grande e bom Carlos Drummond de Andrade, aquele que procurou sempre “extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam”.

Queridos leitores. Bons e cruéis leitores. Carentes leitores. Um deles, severo, diz que só tenho escrito coisas amargas, sombrias. É verdade: não tenho o talento do Osmar Freitas Jr. ou do Carlos Antônio Castelo Branco para brincar com as coisas. De resto, brincar como? Baixo os olhos, vejo a carta dessa mulher anônima que se assina Kamikaze, e penso, então, sobre as tristes e alegres coisas da vida. A vida é amarga, Kamikaze querida. A vida é dúvida, como escreveu uma vez meu amigo Adão Ventura, mas também é dádiva. Por isso, não se mate, meu bem. Por favor, não se mate. Morrer é muito pior que viver.

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O Sentido da Vida

Perguntas demais,
respostas de menos. Uma luz
no fim da escuridão?

O sentido da vida é nascer, crescer, envelhecer e morrer, deixando sob a terra
este antigo corpo constituído da solitária e silenciosa matéria de que foram feitas as estrelas e seus filhos, e os filhos de seus filhos, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

O sentido da vida é descobrir alegre ou amargamente a consciência das coisas, da alegria e da dor, da tristeza e do tédio, e então alegrar-se ou entristecer-se, corada ou pálida personagem de uma peça absurda, uma tragédia, comédia, ópera bufa, ou não?

Sim, o sentido da vida é este – ou não.

Será o sentido da vida amar e odiar seu irmão, em silêncio ou aos gritos, perdoar, ser perdoado, caminhar com firmeza ou vacilante sobre o abismo, cair e erguer-se, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

Será porventura o sentido da vida caminhar juntos sobre a mesma velha e generosa e solitária terra, dividir angústias e dor, enredar-se no cipoal das palavras, dizer sim, ser entendido não, dizer não, ser entendido sim, ou não?
Sim, o sentido da vida é este. Ou não.

Será o sentido da vida buscar luz nas sombras ou sombras na luz, consumir dias e noites a trilhar o áspero caminho imperfeito, buscar o caminho reto, a verdade, e descobrir então o caminho torto, a estrada estreita e, no fim da estrada, apenas neblina, mistério, horror, escuridão?

Sim, o sentido da vida é bem este, ou não.

Será, meu Deus, o sentido da vida acreditar em Deus ou alguma coisa superior à capacidade de entender, cair de joelhos e em prantos pedir caridade ou outro vago sentimento qualquer, e nada ouvir em resposta, ou sim, ouvir então uma voz silenciosa, inexistente e fria e, então, chorar, dormir, sonhar, tudo em vão?
Sim, o sentido da vida é bem este – ou não.

Será o sentido da vida crer na dourada utopia, descobrir então a insustentável fragilidade dos seres, o poder, a miséria, o horror da humana e frágil condição?
Sim, é bem este, ou não, o sentido da vida. Ou não?

Estará o sentido da vida em sonhar o sonho impossível, alcançar a estrela inatingível, vencer o inimigo imbatível, tocar a realidade intangível, e encontrar nada mais que pesadelo, o nada, a queda, a fantasia, miragens, ou não?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Será o sentido da vida entregar-se apaixonadamente às idéias de grande extensão, consumir-se como o fogo e ver apagar-se a chama, a pedra virar pó, a brasa virar carvão? Será, criaturas, o sentido da vida consumir o sangue das veias, esgotar a serenidade, despentear os cabelos, perseguir a ilusão?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Porque se existe sol também existe a lua, e a noite pode ser tão clara às vezes quanto o mais claro dos dias, ou não; mas se há perguntas demais e respostas de menos sempre haverá a busca, a esperança, a viva luz no fim da escuridão.
Porque é isto – buscar – o sentido da vida. Ou não.

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Somos todos assassinos
27-03-2007

A morte, a violência,

a solidão. Pequenos e

grandes assassinatos

Carlos Drummond de Andrade morreu. Era o que restava de poesia. Sobraram

vates patrióticos, canastrões dramáticos, revolucionários de botequim e robôs efêmeros cantando ninfetas narcóticas, calcinhas comestíveis, polícia. Sinal dos tempos?

***

(…)

Um leitor escreve e é sempre a mesma coisa: você fala demais da morte. De Deus, em que não acredita. Do amargo ato de viver. Você precisa acreditar. Bem que gostaria – e é desesperador descobrir essa terrível vontade. Não seria uma rima, talvez fosse uma solução. Mas não adianta: a fé é só um fio entre o ser e o nada.

***

(…)

***

E então silenciamos. Por quê?

***

Somos todos assassinos.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Blogalização

Um weblog, blog ou blogue é uma página da Web cujas atualizações (chamadas posts) são organizadas cronologicamente de forma inversa (como um diário). Estes posts podem ou não pertencer ao mesmo gênero de escrita, referir-se ao mesmo assunto ou ter sido escritos pela mesma pessoa.

O weblog conta com algumas ferramentas para classificar informações técnicas a seu respeito, todas elas são disponibilizadas na internet por servidores e/ou usuários comuns. As ferramentas abrangem: registro de informações relativas a um site ou domínio da internet quanto ao número de acessos, páginas visitadas, tempo gasto, de qual site ou página o visitante veio, para onde vai do site ou página atual e uma série de outras informações.

Os sistemas de criação e edição de blogs são muito atrativos pelas facilidades que oferecem, pois dispensam o conhecimento de HTML, o que atrai pessoas a criá-los.

A Deutsche Welle premia a cada ano os melhores weblogs internacionais em onze categorias no evento The Bobs – Best of Blogs.

Jorn Barger, autor de um dos primeiros FAQ – Frequently Asked Questions, foi o editor do blog original [robotwisdom http://www.robotwisdom.com/] e concebeu o termo – “weblog” – em 1997, definindo-o como uma página da Web onde um diarista (da Web) relata todas as outras páginas interessantes que encontra. O blog de Barger tem uma aparência diferente dos atuais e ainda hoje mantém a mesma interface de quando foi criado. O termo foi alterado por Peter Merholz, que decidiu pronunciar “wee-blog”, que tornou inevitável o encurtamento para o termo definitivo “blog”. Rebecca Blood, pioneira no uso de blogs, relatou suas experiências, explicando que em 1999, os blogs eram distintos tanto em forma como conteúdo das publicações periódicas que os precederam (ezines e journals). Eles eram rudimentares em design e conteúdo, mas aqueles que os produziam achavam que estavam realizando algo interessante e decidiram ir adiante. Os blogueiros referenciavam entradas interessantes em outros blogs,normalmente adicionando suas opiniões. Créditos eram concedidos a um blogueiro individual quando outros reproduziam os links que este havia encontrado. Devido à freqüente interligação entre os blogs existentes na época, os críticos chamaram os blogueiros de incestuosos, que por sua vez sabiam que amplificavam as vozes uns dos outros quando criavam links entre si. E assim a comunidade cresceu. Os blogueiros pioneiros trabalharam para se tornar fontes de links para material de qualidade, aprendendo a escrever concisamente, utilizando os elementos que induziam os leitores a visitar outros sites.

O panorama mudou quando, naquele mesmo ano de 1999, diversas empresas lançaram softwares desenvolvidos para automatizar a publicação em blogs. Um destes softwares, chamado Blogger, apresentava enorme facilidade para publicação de conteúdo, e com a sua interface privilegiando a escrita espontânea, foi adotado por centenas de pessoas. O conhecimento tecnológico para manutenção de uma ferramenta para publicação na Web passou a não ser mais um requisito. A estrutura técnica era gerenciada pela empresa, que também oferecia a criação de blogs a custo zero, assim como os valores agregados: um item em um blog possui valor de produção irrisório comparado com o de um artigo veiculado na grande mídia. Essa adoção em massa, e a não utilização dos links como o elemento central da forma, causou controvérsia na comunidade original blogueira. Eles acusavam os blogs gerados pelos novos softwares de serem simplesmente diários, e não blogs – e o que representava os blogs “de verdade” eram os links. Alguns achavam que com a seleção criteriosa e justaposição de links, os blogs poderiam se tornar uma importante nova forma de mídia alternativa, agregando informações oriundas de diversas fontes, revelando diferentes pontos de vista e talvez, influenciar a opinião em larga escala – uma visão chamada “mídia participativa”.

Mas a mensagem passou a modelar o meio. No início de 2000, Blogger introduziu uma inovação – o permalink, conhecido em português como ligação permanente ou apontador permanente – que transformaria o perfil dos blogs. Os permalinks garantiam a cada publicação num blog uma localização permanente – uma URL – que poderia ser referenciada. Anteriormente, a recuperação em arquivos de blogs só era garantida através da navegação livre (ou cronológica). O permalink permitia então que os blogueiros pudessem referenciar publicações específicas em qualquer blog. Em seguida, hackers criaram programas de comentários aplicáveis aos sistemas de publicação de blogs que ainda não ofereciam tal capacidade. O processo de se comentar em blogs significou uma democratização da publicação, consequentemente reduzindo as barreiras para que leitores se tornassem escritores.

A blogosfera, termo que representa o mundo dos blogs, ou os blogs como uma comunidade ou rede social, cresceu em ritmo espantoso. Em 1999 o número de blogs era estimado em menos de cinqüenta; no final de 2000, a estimativa era de poucos milhares. Menos de três anos depois, os números saltaram para algo em torno de 2,5 a 4 milhões. Atualmente existem cerca de 70 milhões de blogs e cerca de 120 mil são criados diariamente, de acordo com o estudo State of Blogosphere.[1] O estudo revela que a blogosfera aumentou em 100 vezes nos três últimos anos e que atualmente ela tende a dobrar a cada seis meses. Esse aumento significativo no número de blogs ao longo dos anos, fez com que a grande mídia desse maior importância ao fenômeno: entre 1995 e 1999 apenas onze artigos jornalísticos sobre blogs foram publicados. No ano de 2003, estima-se que 647 artigos foram publicados.

Provavelmente a maior diferença entre os blogs e a mídia tradicional é que os blogs compõem uma rede baseada em ligações – os links, propriamente. Todos os blogs por definição fazem ligação com outras fontes de informação, e mais intensamente, com outros blogs. Muitos blogueiros mantêm um “blogroll”, uma lista de blogs que eles frequentemente lêem ou admiram, com links diretos para o endereço desses blogs. Os blogrolls representam um excelente meio para observar os interesses e preferências do blogueiro dentro da blogosfera; os blogueiros tendem a utilizar seus blogrolls para ligar outros blogs que compartilham os mesmos interesses.

Blogueiro (português brasileiro) ou bloguista (português europeu) ou ainda blogger são palavras utilizadas para designar aquele que escreve em blogues. O universo dos blogueiros (a soma de tudo o que está relacionado a este grupo e este grupo em si) é conhecido como blogosfera.

No dia 31 de agosto, comemora-se o Dia do Blog (devido a semelhança da data 31.08 com a palavra blog), que se propõe a promover a descoberta de novos blogues e de novos blogueiros.

O rock brasileiro ou BRock

O rock brasileiro ou BRock (conhecido no Brasil de rock nacional) é um estilo musical derivado do rock, que teve início nos anos 50 e 60, mas só começou a ter força nos anos 80.

Prólogo – anos 40

Apesar de muitos estudiosos acreditarem que a primeira gravação de rock no país coube à cantora Nora Ney — que, aliás, começou a carreira radiofônica com o nome de Nora May, e cantando em inglês — o primeiro disco de rock foi gravado pelo veterano Gilberto Alves (disco RCA Victor 80.0598-a). O título da composição é Bonitão, de Marino Pinto e Mário Rossi — uma composição nacional e com letra registrada no longínquo ano de 1949. Durante o solo instrumental, pode-se notar de forma bastante nítida a batida e as intervenções de metais que bem caracterizam o rock propriamente dito, formalizado por Bill Haley e Seus Cometas.

Este tipo de arranjo faz parte das raízes do rock and roll e do estilo de um dos predecessores, o jazz dançante das big bands. Outro exemplo de “disco de rock” brasileiro pre-histórico nesta linha é Dizem Que Sou Um Mau Rapaz, composição de Custódio Mesquita gravada por Francisco Alves (disco Odeon de número 12.028-b, gravado e lançado em 1941).

Anos 50

O “pontapé inicial” do rock no Brasil foi Nora Ney (conhecida cantora de samba-canção) gravar o considerado primeiro rock, “Rock around the Clock”, de Bill Haley & His Comets (trilha do filme Sementes da Violência), em outubro de 1955, para a versão brasileira do filme. Em uma semana a canção já estava no topo das paradas (mas Nora Ney nunca mais gravou nada no gênero, tirando a irônica “Cansei do Rock”, em 1961). Em dezembro, a mesma canção recebia versão em português, “Ronda das Horas” (por Heleninha Ferreira) e outra gravada por um acordeonista, não tão bem sucedidas quanto a “original”.

Em 1957, foi gravado o primeiro rock original em português, “Rock and Roll em Copacabana”, escrito por Miguel Gustavo (futuro autor de “Para Frente Brasil“) e gravada por Cauby Peixoto. Entre 57 e 58, diversos artistas gravaram versões de músicas americanas, como “Até Logo, Jacaré” (“See You Later, alligator”),”Meu Fingimento” (“My Great Pretender”) e “Bata Baby” (Long Tall Sally).

Embora em 57 o grupo Betinho & Seu Conjunto, de “Enrolando o Rock” tenha alcançado grande fama, os primeiros ídolos do rock nacional foram os irmãos Tony e Celly Campelo que, em 1958, lançaram o compacto Forgive Me/Handsome Boy, que vendeu 38 mil cópias. Tony gravaria mais dois singles até seu álbum em 1959, e Celly estourou em 1959 com “Estúpido Cupido” (120 mil cópias vendidas), chegando a ter boneca própria (com a qual aparece na capa de seu LP “Celly Campello, A Bonequinha Que Canta”).

Os Campello também apresentariam Crush em Hi-Fi na Rede Record, programa totalmente voltado para a juventude, que revelou diversas bandas.Outros programas também surgiram para aproveitar a “febre” como Ritmos para a Juventude (Rádio Nacional-SP), Clube do Rock (Rádio Tupi -RJ) e Alô Brotos! (TV Tupi). Em 1960, surgira até a Revista do Rock.

Anos 60

O começo da década foi marcado pelo surgimento de grupos instrumentais como The Jet Black’s, The Jordans e The Cleevers (futuros Os Incríveis), e do cantor Ronnie Cord, que lançaria dois “hinos”: a versão “Biquini de Bolinha Amarelinha” e a rebelde “Rua Augusta”.

Até que surge um capixaba que se tornaria o maior ídolo do Rock Nacional dos anos 60 e, posteriormente, o maior nome da música brasileira: Roberto Carlos, que emplacou dois hits em 1963: “Splish Splash” e “Parei na Contramão”. No ano seguinte, obteve mais sucessos como “É Proibido Fumar” (mais tarde regravada pelo Skank) e “O Calhambeque”. Aproveitando o sucesso, a Rede Record lançou o programa Jovem Guarda, apresentado por Roberto (“Rei”), seu amigo Erasmo Carlos (“Tremendão”) e Wanderléa (“Ternurinha”). Só nas primeiras semanas, atingira 90% da audiência.

Seguindo o sucesso das Jovem Guarda, surgem entre outros, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Ronnie Von, que tinham seu som inspirado nos Beatles (o gênero apelidado “iê-iê-iê”) e no rock primitivo. A Jovem Guarda também levou a todo tipo de produto e filmes como Roberto Carlos em Ritmo de Adventura (seguindo a trilha de A Hard Day’s Night e Help! dos Beatles).

Apesar disso, os artistas da MPB “declararam guerra” ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, chegando a um protesto de Elis Regina, Jair Rodrigues, entre outros, conhecido “Passeata contra as guitarras elétricas”. O programa terminaria em 1968, com a saída de Roberto Carlos.

Então, surgiria a Tropicália. Em 1966, surgiram Os Mutantes: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com seu deboche e som inovador. Em 1967, a dupla Caetano Veloso e Gilberto Gil faria as canções “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, apresentadas no III Festival da Rede Record. No ano seguinte, o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band fascinou a dupla, levando a apresentações vaiadas em festivais de Record e Excelsior, e ao álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circensis, com Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto, Capinan, Rogério Duprat e Nara Leão, considerado um dos melhores álbuns brasileiros da história.

Os Mutantes também criariam carreira grandiosa, com álbuns elogiados a partir de 1968 e chegando a influenciar até Kurt Cobain, do Nirvana. O grupo começaria a se desmanchar com a saída de Rita Lee, em 1973.

Anos 70

O endurecimento da ditadura militar levou Caetano e Gil ao exílio em Londres, onde viveram de 1969 a 1972. Durante o período, gravaram dois discos considerados dos seus melhores, Transa (Caetano), e Expresso 2222 (Gil).

Após sair dos Mutantes no final de 1972, Rita Lee iniciou uma muito bem sucedida carreira solo, acompanhada do grupo Tutti Frutti. Arnaldo Baptista também gravou o aclamado Loki? (1974). Os Mutantes ainda atravessaram a década convertidos ao rock progressivo, passando por várias formações e dissolvendo-se em 1978.

Em 1973, surgiram Secos & Molhados, liderados por João Ricardo, com Ney Matogrosso como vocalista, que faziam a chamada “poesia musicada”, com canções muito bem elaboradas como “Rosa de Hiroshima” ou “Prece Cósmica”, apesar de alguns flertes menos poéticos e mais divertidos como “O Vira”. Dois álbuns e um ano depois, em 1974, o grupo com sua formação clássica (João, Ney e Gerson Conrad) se desfez.

Em 1973 também surgiu outro ícone: Raul Seixas, que vendera 60.000 compactos de “Ouro de Tolo” em poucos dias e se tornaria “bardo dos hippies” com músicas debochadas como “Mosca na Sopa” e “Maluco Beleza”, esotéricas como “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” (composta em parceria com o futuro autor Paulo Coelho) e “Gita”, e as motivacionais “Metamorfose Ambulante” e “Tente Outra Vez”.

Movimentos surgiram em outros locais do Brasil: em Minas Gerais, o “Beatlesco” Clube da Esquina, liderado por Milton Nascimento e Lô Borges; e no Nordeste, a “nova onda” dos Novos Baianos, além da chamada “Invasão Nordestina”: artistas que misturaram o sertanejo ao rock, como Fagner, Zé Ramalho e Belchior.

Mesmo com o pouco espaço na mídia, várias bandas e estilos se destacavam no circuito underground da época, como o progressivo regional de O Terço (que chegou a gravar um álbum em inglês voltado para o mercado italiano), o hard rock do Made in Brazil, o rock rural de Sá, Rodrix e Guarabyra e o hard progressivo do Casa das Máquinas.

Anos 80

Atribui-se a esta década a popularização do rock brasileiro, movimento que surgiu para aproveitar a onda do estilo musical (rock) que já havia se consagrado mundialmente nos anos 70. Muitas bandas deste estilo, como o Ultraje a Rigor e Ira! permanecem ativas até hoje, fazendo apresentações por todo o Brasil. Outras bandas e artistas da época, como Legião Urbana e Renato Russo, foram imortalizados e tocam nas rádios até hoje, devido ao grande sucesso entre o público, principalmente adolescentes.

Nos anos 80, ocorreu a verdadeira “explosão” do rotulado “BRock”. Isso se deve em parte à criação de casas de show, como Noites Cariocas e Circo Voador (Rio) e Aeroanta (São Paulo).

As primeiras bandas a fazerem sucesso foram os irônicos Blitz (“Você não soube me amar”) e Eduardo Dusek (“Rock da Cachorra”, junto com João Penca e Seus Miquinhos Amestrados), no batizado “Verão do Rock”, em 1982.

As bandas mais cultuadas dos anos 80 formam um “quarteto sagrado”[carece de fontes?]. São elas:

  • Os Paralamas do Sucesso, cariocas (que se conheceram em Brasília) surgidos em 82, com um ska parecido com o The Police.
  • Titãs, paulistas (mais tarde “suavizados”). Inicialmente, juntavam as estéticas da new wave e do reggae com a da MPB, e, de 1982 à 1984, a banda era formada por nove integrantes – além dos músicos que continuam no grupo, fizeram parte do conjunto: Ciro Pessoa (vocais), Arnaldo Antunes (vocais), Marcelo Fromer (guitarra) e Nando Reis (baixo/vocais), logo se tornando um octeto, numa formação que duraria até 1992, com a saída de Arnaldo. O baterista do grupo Ira!, André Jung, tocou seu instrumento no primeiro trabalho titânico, depois cedendo seu posto a Charles Gavin.
  • Os cariocas Barão Vermelho, surgidos em 82 e liderados por Cazuza. Com a saída dele (que teve carreira-solo bem sucedida), o guitarrista Frejat assumiu os vocais.
  • Os brasilienses Legião Urbana, liderados por Renato Russo, surgiram em 82. Acabou com a morte de Renato, em 1996. Os outros legionários que compunham a banda eram: Marcelo Bonfá (bateria) e Dado Villa-Lobos (Guitarra). Renato Rocha foi baixista da banda até 1988.

E teve outras também de grandes sucessos na época, como as bandas Sempre Livre, Gang 90 e as Absurdettes, Biquini Cavadão, Hanói Hanói, Hojerizah, Harmony Cats, Lobão e os Ronaldos, Metrô, Magazine, Grafitti, além de cantores(as) como Marina Lima, Léo Jaime, Fausto Fawcett, Ritchie, Kid Vinil, entre outros.

Vários locais do Brasil tinham suas bandas surgindo:

  • No Rio de Janeiro, surgiram os alegres Kid Abelha e Léo Jaime; Uns e Outros e o fim da banda Vímana revelou Lulu Santos, Lobão (também ex-Blitz) e Ritchie.
  • Em São Paulo, o Festival Punk de 81 revelou Inocentes, Cólera e Ratos de Porão; os debochados Ultraje a Rigor (no qual Edgard Scandurra tocou antes do Ira!) e Kid Vinil (então vocalista da banda Magazine); Metrô (banda) de Virginie Boutaud; Zero e RPM, que vendeu 2,2 milhões de cópias de Rádio Pirata ao Vivo.
  • Em Brasília, o Aborto Elétrico (em que Renato Russo tocara) virou o Capital Inicial (que acabou se fixando em São Paulo), e o Plebe Rude teve o sucesso “Até Quando Esperar”
  • No Rio Grande do Sul, os “cabeças” Engenheiros do Hawaii e Nenhum de Nós chegaram ao sucesso nacional.também estouraram bandas gauchas de rock como TNT, Taranatiriça, Cascavelletes, Os Replicantes, Os Eles, Bandaliera e Garotos da Rua.

Além deles, houveram os baianos Camisa de Vênus, e os headbangers mineiros Sepultura, que com o seu Thrash Metal único, foram uma das poucas bandas brasileiras a fazer sucesso no exterior.

Anos 90

A década começou com apenas uma novidade: a MTV Brasil, em 1990. E o primeiro “grande grupo” da década foram os mineiros Skank, que misturavam rock e reggae. Ao longo da década, outros grupos mineiros surgiriam, como Pato Fu, Jota Quest e Tianastacia.

Em 1994, surgiu em Recife o movimento Mangue beat, liderados por Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. O movimento misturava percussão nordestina a guitarras pesadas, conquistando a crítica.

Entre 94 e 95 surgiram dois grupos bem-sucedidos pelo humor: os brasilienses Raimundos (94), com o ritmo forrócore” (forró+hardcore) e os guarulhenses Mamonas Assassinas (95), parodiando do heavy metal ao sertanejo, que chegaram a fazer 3 shows por dia e venderam 1,5 milhão de cópias antes de morrerem em um acidente de avião, em 96 (chegaram a 2,6 milhões).

Alguns rappers tiveram ligação íntima com o rock, como Gabriel o Pensador e o Planet Hemp (que pedia a legalização da maconha).

Seguindo o caminho do Sepultura, o Angra gravou em inglês, alcançando considerável sucesso no exterior.

Outros destaques são O Rappa, também reggae/rock; Charlie Brown Jr., um “skate rock” com vocais rap; Cássia Eller, com um repertório de Cazuza e Renato Russo; e Los Hermanos, que surgiram com “Anna Júlia”, canção pop que não combinava com a imagem intelectual da banda.

Outro fato da década é que todas as bandas do “quarteto sagrado” (exceto a Legião) tiveram de se reinventar para reconquistar audiência: os Paralamas, depois de uma fase experimental, voltaram às paradas com Vamo Batê Lata (95); o Barão Vermelho, com o semi-eletrônico Puro Êxtase(98); e os Titãs, com seu Acústico MTV (97).

Anos 2000

2001 foi um ano “trágico” para o rock brasileiro. Herbert Vianna, dos Paralamas, sofreu acidente de ultraleve e ficou paraplégico (mas voltou a tocar); Marcelo Frommer, dos Titãs, morreu atropelado; Marcelo Yuka, d’O Rappa, foi baleado e ficou paraplégico (saiu da banda); e Cássia Eller morre.

As bandas dos 90 passaram por muitas mudanças: o Skank ficou mais britpop e cheio de experimentalismo nas músicas o que foi visto nos discos Cosmotron (2003) e Carrosel (2006); o líder dos Raimundos, Rodolfo, converteu-se a um culto evangélico e saiu da banda para formar o Rodox (que também acabaria algum tempo depois); A banda Los Hermanos, lançada com o sucesso “Anna Júlia”, mudou seu estilo a partir do segundo, polêmico, experimental e aclamado disco Bloco do eu sozinho (2001), e conseguiram continuar essa nova identidade com Ventura (2003) e 4 (2005); e três dos quatro integrantes do Charlie Brown Jr. abandonaram o grupo.

Duas origens alavancaram sucessos: a MTV, com seu Acústico, “ressuscitou” alguns grupos dos 80, como Capital Inicial e Ira!; e o produtor dos Mamonas, Rick Bonadio, que revelou entre outros, Charlie Brown Jr., Tihuana, Leela, O Surto, CPM22 (com hardcore melódico) e Detonautas Roque Clube (com a mistura hardcore melódico/electro/pop)

Paul Verlaine

´´Eu sou o Império no final da decadência / Que vê passarem os grandes Bárbaros brancos…“. Extraídos do poema intitulado Langueurs da coletânea Jadis et Naguère (1884)

Paul-Marie Verlaine nasceu em Metz, França, em 30 de março de 1844. Filho de um militar abastado, estudou no Liceu Bonaparte — hoje Condorcet — de Paris e mais tarde conciliou o trabalho numa companhia de seguros com a vida boêmia nos círculos literários parisienses. Em seus primeiros livros, Poèmes saturniens (1866; Poemas saturninos) e Fêtes galantes (1869; Festas galantes), ouvem-se ecos do romantismo e do parnasianismo.

Próximo a Bouillon, na Bélgica, o pequeno Paul passou felizes verões com sua família paterna, no meio das paisagens das margens do Semois, que alternam lavouras, pastos, matas fechadas e pântanos. Uma região de lobos esguios, murtas negras e azinheiras à qual ele voltará mais tarde com a alma atormentada. Quando, em 1873, esse recém-casado e pai de um filho que acaba abandonando, tomado de fascínio pelo jovem Rimbaud, é procurado pela polícia por haver participado da Comuna de Paris, é para a Ardenne belga que parte em exílio. Ele acredita encontrar aí o prazer de um paraíso perdido.

No mês de agosto de 1862, Verlaine completa os estudos secundários em Paris, onde seus pais se instalaram em 1851. Eles o enviam então para morar com a família materna no norte da França. Que alegria poder mergulhar numa paisagem melancólica que corresponde a seus estados depressivos! A crisálida transforma-se em poeta maldito. Ali, entre os campos de colza e a leitura de Baudelaire, apaixona-se pela prima Elisa Moncomble. Amor impossível que o fará afogar a tristeza à noite em um cabaré.

Il pleure dans mon coeur / Comme il pleut sur la ville / Quelle est cette langueur / qui pénètre rnon coeur?” (Chora em meu coração / Como chove sobre a cidade / Que langor é esse / que penetra meu coração?).

Em Paris, ele se deixa levar docemente pelas delícias da “fada verde”, o absinto. Começa então a estudar direito. Nada lhe interessa. Emprega-se numa companhia de seguros e, em seguida, na Prefeitura de Paris. Aí ele passa sete anos, entediando-se. Nos cafés, esquece a melancolia, escreve versos e freqüenta os parnasianos (1). Em 1866, sua coletânea “Poèmes Saturniens” (Poemas Saturninos), editada graças a Elisa, que a financiou, faz com que seja percebido pela crítica. Em poemas de musicalidade lírica e singular, Verlaine expressa os arrebatamentos e quedas da alma, transpondo seus sentimentos em impressões e sensações através de paisagens nostálgicas e refinadas. Aos implorantes de absoluto como ele, resta o Belo, o Azul dos céus e o pesar pelos amores desvanecidos.

Mas Elisa não o amou. Foi a partir desse primeiro amor não correspondido que se cristalizou sua poesia melancólica e langorosa. Em 11 de agosto de 1870, ao casar-se com Mathilde Mauté de Fleurville – que não tinha mais do que dezesseis anos – ele tenta acomodar-se a uma burguesia “de boa família”, “aspirando uma vida simples e tranqüila”. Doce ilusão. Em setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud escreve-lhe de Charlevile. Alguns dias mais tarde, “le voleur de feu aux semelles de vent” chega a Paris a chamado de Verlaine, que se torna seu pai-amante. Em fevereiro de 1872, Mathilde pede a separação. Para acalmar a esposa ultrajada, o poeta afasta Rimbaud, fora de si. Mas em julho acontece a grande escapada: o adolescente foi mais persuasivo. Os dois amantes pegam a estrada para Bruxelas. Mathilde tenta uma reconciliação, mas Rimbaud e Verlaine partem para Londres.

De volta ao continente, Verlaine trabalha em Romances sans Paroles (Romances sem Palavras), enquanto o adolescente publica algumas páginas que revolucionam a literatura moderna: Une Saison en Enfer (Uma temporada no inferno). Sucedem rupturas e reconciliações. Eles formam um par tumultuado. Em Bruxelas, em 1873, Verlaine dá um tiro de pistola em Rimbaud.

Ele é preso, condenado e passará dois anos na prisão. Em 1874, em seu cárcere de Mons, ele compõe poemas místicos, marcas de um sincero arrependimento, que serão publicados em Sagesse (Sabedoria) (1881) e Jadis et Naguère (Outrora e recentemente) (1884), mas também eróticos, como em Parallèlement (1889). Ao sair da prisão em 1875, Verlaine embarca para a Inglaterra, onde será professor durante dois anos. Ele volta lá em 1879, onde vive com seu novo amante Lucien Létinois, um ex-aluno da instituição em que Verlaine ensinou durante dois anos, em Rethel, nas Ardennes. Eles foram expulsos de lá por causa de sua “amizade particular”.

Por que não se ouviu em Romances sans Paroles (1874), ou em La Bonne Chanson (A Boa Canção) (1870) inspirada por Mathilde, seu pedido de ajuda, para não ceder ao demônio? A Ardenne generosa ainda o esconderá por algum tempo. Em 1880, em Coulommes, perto de Rethel, o poeta compra uma fazenda para Létinois. Juntos, eles pretendem tornar-se camponeses. E vem mais uma vez o fracasso, a ruptura, o álcool. No ano seguinte, Verlaine volta a viver em Paris com sua mãe, na rua de la Roquette… Findo o tempo dos jovens amantes.

Depois de viver uma existência de pária, povoada de hospitais, prisões, móveis velhos e dramas sórdidos, Verlaine morre em Paris, aos cinqüenta e dois anos, em 8 de janeiro de 1896. Com a pena na mão, ele terá sido a imagem do velho iluminado. Bruscamente, enquanto é consumido por “reumatismo, cirrose, gastrite e icterícia“, finalmente lhe chega uma parcela de glória. Em 1895, os jovens poetas reconhecem nele o mestre da arte poética moderna. Ele é então rodeado, solicitado na Bélgica, na Inglaterra e na Holanda. Tarde demais. “Qu’as -tu fait, ô toi que voilà / Pleurant sans cesse / Dis qu’as-tu fait, toi que voilà ? De ta jeunesse?” ( O que você fez, ei, você aí / que chora sem parar, / diga o que fez, você aí / de sua juventude?) (Sagesse).


Em 1872, dois anos após casar-se, Verlaine abandonou mulher e filho e iniciou, com o jovem poeta francês Arthur Rimbaud, uma turbulenta ligação sentimental que os levou a percorrer vários países europeus. O relacionamento teve um final abrupto em Bruxelas, em 10 de julho de 1873, quando Verlaine feriu o amigo com um tiro de revólver e foi condenado a dois anos de prisão. Libertado, Verlaine tentou em vão reconciliar-se com Rimbaud. Viveu no Reino Unido até 1877, quando regressou à França. Datam desses anos dois magníficos livros de poesia, Romances sans paroles (1874; Romances sem palavras) e Sagesse (1880; Sabedoria), este a expressão de sua volta aos ideais de um cristianismo simples e humilde.
Apesar de sua crescente fama e de ser considerado um mestre pelos jovens simbolistas, o fracasso dos esforços que fez para recuperar a esposa e levar uma vida retirada conduziram Verlaine a uma recaída no mundo da boêmia e do alcoolismo que, durante o resto de seus dias, o obrigou a freqüentes hospitalizações.
Os vários livros de poemas que se seguiram apenas ocasionalmente recuperaram a antiga magia, como Amour (1888). Da produção posterior de Verlaine, o que mais se destaca são os textos em prosa, como o ensaio Les Poètes maudits (1884; Os poetas malditos), vital para o reconhecimento público de Rimbaud, Mallarmé e outros autores, e as atormentadas obras autobiográficas Mes hôpitaux (1892; Meus hospitais) e Mes prisons (1893; Minhas prisões). Paul Verlaine morreu em Paris em 8 de janeiro de 1896.

É considerado um dos maiores e mais populares poetas franceses. Um dos maiores poetas simbolistas franceses, seu lirismo musical abriu novos caminhos para a poesia em seu país e no mundo.

Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.

Em 1863, surgia na Revue du Progrés Moral o primeiro poema de Paul Verlaine (1844-1896). Ele prenunciava uma obra tumultuada, infinitamente bela, que beirava os umbrais da modernidade e transtornou definitivamente o cometa Rimbaud.



Obra

  • Poèmes saturniens (1866)
  • Les Amies (1867)
  • Fêtes galantes (1869)
  • La Bonne chanson (1870)
  • Romances sans paroles (1874)
  • Sagesse (1880)
  • Les Poètes maudits (1884)
  • Jadis et naguère (1884)
  • Amour (1888)
  • Parallèlement (1889)
  • Dédicaces (1890)
  • Femmes (1890)
  • Hombres (1891)
  • Bonheur (1891)
  • Mes hôpitaux (1891)
  • Chansons pour elle (1891)
  • Liturgies intimes (1892)
  • Mes prisons (1893)
  • Élégies (1893)
  • Odes en son honneur (1893)
  • Dans les limbes (1894)
  • Épigrammes (1894)
  • Confessions (1895)

Arte poética

A Charles Morice

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo…
E tudo o mais é só literatura.

Canção do Outono

Os soluços graves
dos violinos suaves
do outono
ferem a minh’alma
num langor de calma
e sono.

Sufocado em ânsia,
Ai! quando à distância
soa a hora,
meu peito magoado
relembra o passado
e chora.

Daqui, dali,
pelo vento em atropelo
seguido,
vou de porta em porta
como a folha morta,
batido…

Tradução de
Alphonsus de Guimaraens

O Rouxinol

Numa revoada azul de pássaros cantando,
descem-me ao coração as saudades, em bando;
descem à murchecida e lúrica folhagem
do meu peito, que mira a dolorosa imagem
sobre a violácea cor do rio da Amargura.

Tradução de Batista Cepelos

Gertrude Stein

Gertrude Stein (nasceu dia 3 de fevereiro de 1874, em Pittsburgh, EUA – faleceu dia 27 de julho de 1946, em Paris, França). Foi uma escritora, poeta e feminista.

Tinha um apreciável círculo de amigos, como Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picábia, Ezra Pound e James Joyce, isso apenas pra citar alguns.

Miss Stein era realmente genial e escreveu “Autobiografia de Alice B. Toklas”, livro fundamental da vanguarda dos anos 1910, 20 e 30. Com estilo muito próprio, a narrativa conta como jovens artistas e escritores vindos das mais diversas partes do mundo se encontram em Paris e detonam novos caminhos para a arte. Picasso vinha da Catalunha, Joyce da Irlanda, ela própria vinha da América, Nijinski era russo, havia vários franceses, como Cocteau, Apollinaire, Matisse. É bom lembrar que, apesar do nome, o livro foi escrito por Miss Stein, tendo como porta-voz Alice B. Toklas, sua companheira durante vinte e cinco anos. Compondo um interessante painel das três primeiras décadas deste século: “Gertrude Stein e o irmão visitavam frequentemente os Matisse que constantemente retribuíam as visitas. De vez em quando Madame Matisse convidava-os para almoçar, o que acontecia principalmente quando recebia alguma lebre de presente. Lebre estufada feita por Madame Matisse à moda de Perpignan era algo fora do comum. Tinha também vinho de primeira, um pouco pesado, mas excelente”. Durante esse tempo Miss Stein e sua companheira Alice viveram no número 27, rue de Fleurus. Este endereço se tornaria lendário e um importante ponto de encontro desses “gênios”.

Gertrude Stein seria a primeira a pendurar em sua parede pinturas de Juan Gris, Matisse e Picasso. Mais tarde romperia com muitos deles, inclusive com Picasso, por quem manteve grande afeição. Antes porém, posaria noventa e três vezes para que o artista catalão desse por finalizado o seu retrato: “Mas em nada se parece comigo, Pablo” disse ela. “Mas certamente vai parecer ,Gertrude, certamente…” respondeu o pintor. O rompimento dos dois se daria apenas em 1927, por ocasião da morte de Juan Gris. Gertrude acusou Picasso de não ter estimado Gris o bastante, ele retrucou e os dois tiveram um belo e histórico bate-boca.

Miss Stein adorava fazer provocações. A palavra génio exercia mesmo uma influência considerável em sua vida. Afinal era uma escritora de estilo bastante peculiar e engenhoso, a inventora da escrita automática. Assim os intelectuais de seu tempo perguntavam se ela era mesmo gênio ou não passava de uma impostora. Ela dava o troco:“Ser gênio exige um tempo medonho, indo de um lugar a outro sem nada fazer”, ou então:” um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”.

Com a Primeira Guerra Mundial Miss Stein e Alice viveram sua aventura alistando-se no F.A.F.F, um Fundo de proteção aos americanos que então viviam na Europa, dando folga a seus embates artísticos e literários, a aventura é narrada na Autobiografia. Após a guerra a vida voltou ao normal mas tudo já estava transformado para sempre, inclusive e principalmente Paris. Não tanto a fachada e a arquitetura da cidade, mas as pessoas e o ritmo da vida.