Fiódor Dostoiévski

Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский, AFI [ˈfʲodər mʲɪˈxajləvʲɪtɕ dəstɐˈjɛfskʲɪj]; Moscovo, 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 9 de Fevereiro de 1881), ocasionalmente grafado como Dostoievsky, foi um dos maiores escritores da literatura russa. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a “melhor proposta para existencialismo já escrita.”

O reconhecimento definitivo de Dostoiévski como escritor universal veio somente depois dos anos 1860, com a publicação dos grandes romances: O Idiota e Crime e Castigo, este publicado em 1866, considerado por muitos como uma das obras mais famosas da literatura mundial. Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Freud como o maior romance já escrito.

É conhecido por explorar a autodestruição, humilhação e assassinatos, além da análise de estados patológicos que levam ao suicídio, loucura e homicídio: seus escritos são chamados por isso de “romances de idéias”, pela retratação filosófica e atemporal. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.

Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. Mikhail era um pai autoritário, então médico no Hospital de pobres Mariinski, em Moscou, e a mãe era vista pelos filhos como um paraíso de amor e de proteção do ambiente familiar.

Seu pai tornou-se um nobre em 1828. Até 1833, Fiódor foi educado em casa, mas com a morte precoce da mãe por tuberculose em 1837, e a decorrente depressão e alcoolismo do pai, foi conduzido, com o irmão, Fiódor Mikhail, à Escola Militar de Engenharia de São Petersburgo, onde o jovem Fiódor começou a demonstrar interesse pela Literatura.

Em 1839, quando tinha dezoito anos, recebeu a notícia de que seu pai havia morrido. É aceito hoje, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal fato exerceu enorme influência sobre o futuro do jovem Dostoiévski, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Freud a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio.

Dostoiévski sofria de epilepsia e seu primeiro ataque ocorreu quando tinha nove anos. Suas experiências epiléticas serviram-lhe de base para a descrição de alguns de seus personagens, como o príncipe Myshkin no romance O idiota, e de Smerdyakov na obra Os Irmãos Karamazov.

Na Academia Militar de Engenharia, em São Petersburgo, Dostoiévski aprendeu matemática, um tema que desprezava. Também estudou a obra de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo e E.T.A. Hoffmann. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoiévski descrevia-se como um “sonhador” em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direcção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo.

Em 1844, Honoré de Balzac visitou, em São Petersburgo, Dostoiévski, que como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou sua vocação. Pouco depois, ele abandonaria o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura.[13]

Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Fez traduções de Balzac e George Sand.

Aluga, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedica-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixa o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoiévski “a mais nova revelação do cenário literário do pais.”

Em O Diário de um Escritor, recorda que após concluir Pobre Gente, deu uma cópia para seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção psicológica da obra. Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. “Um novo Gogol apareceu!”, disse Nekrasov. “Com você, a primavera de Gogol nasce como cogumelos!”. Bielínski respondeu a Dostoiévski.

Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.(Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski)

O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer mais freqüentemente de epilepsia. Seus romances seguintes, Duas vezes (1846), Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849) e a Inveja do Marido e Esposa de Outro, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, que fizeram com que Dostoiévski mergulhasse em depressão. Nesta época entrou em contato com alguns grupos de idéias utópicas, chamados niilistas, que procuravam a liberdade humana.

Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849 por participar de um grupo intelectual liberal chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia.[6] Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia.

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na prisão até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Dostoiévski teve de situar-se em frente ao pelotão de fuzilamento com uma venda e até mesmo ouvir os seus disparos. No último momento, as armas foram abaixadas e um mensageiro trouxe a informação de que czar havia decidido poupar a vida do escritor. Sua pena foi comutada para cinco anos de árduo trabalho em Omsk, na Sibéria.

O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece várias descrições sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual.

Durante este tempo os ataques epiléticos aumentaram ainda mais. Anos mais tarde, Dostoiévski descreveu seu sofrimento para seu ao irmão, dizendo-se um “silenciado em um caixão “[17] e que o local onde estava “deveria ter sido demolido anos atrás”.

No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a celemim.(Dostoiévski sobre seu local de prisão)

Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indefinido.[6] Apaixona-se por Maria Dimítrievna Issáievna, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no próximo ano, em fevereiro de 1857, casam-se.[19] Na noite de núpcias Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia.

Depois de dez anos voltou à Rússia. Na Sibéria chamou a experiência de uma “regeneração” das suas convicções, e rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor, O Mujique Marei.

Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver.(Páginas escritas durante o seu cativeiro na Sibéria.)

Estudos médicos permitiram diagnosticar que Fiódor sofria de epilepsia temporal. Suas crises sistemáticas, que ele atribuía a “uma experiência com Deus”, tiveram papel importante em sua crise religiosa e em sua conversão durante o desterro, quando a Bíblia era sua única leitura. Dostoiévski se tornou um forte crítico do niilismo e do movimento socialista, e dedicou em seu livro O Diário de um Escritor para expor idéias críticas ao conservadorismo socialista.[21][22] Formou uma amizade com o estadista conservador Konstantin Pobedonostsev e abraçou alguns dos princípios do Pochvennichestvo. Por este tempo começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro.

Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser solto sob a condição de residir em qualquer lugar, exceto em São Petersburgo e Moscou, e assim, mudou-se para Tver. Ele conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas por Dostoiévski. Em dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista Vremya (“Tempo”), que no primeiro número publicou Humilhados e Ofendidos, também inspirada em seu trabalho na Sibéria. Sua obra Memórias da Casa dos Mortos foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo.

Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de idéias progressistas. Perdeu muito dinheiro jogando e retornou à Rússia no fim de outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863.[13]

Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado Epoja (“Época”), onde publicou Memórias do Subsolo. Seu ânimo acabou após a morte de sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo de sustentá-los.[13] Profundamente depressivo e viciado em jogos, acumulou enormes dívidas. Para sanar seus problemas financeiros, fugiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em cassinos.[20] Ali se reencontrou com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado.

Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma de suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro O Jogador. O relacionamento com a Anna finalmente terminou em casamento em 15 de fevereiro de 1867.

Juntos continuaram a viajar pela Europa e Genebra, onde nasceu e morreu pouco tempo depois sua primeira filha. Em 1868, escreveu O Idiotae em 1871, terminou Os Endemoniados, publicado no ano seguinte. A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Esta publicação seria interrompida em 1878, para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro.

Em 1880 participou da inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. Em 8 de novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, em 9 de fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Em sua lápide pode-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:

Em verdade vos digo que se o grão de trigo que cai na terra não morrer, é por si só, mas se ele morrer produz muito fruto.(Evangelho segundo João, 12:24)

Dostoiévski necessitava de dinheiro e sempre fora apressado em concluir suas obras. Por isso disse não conseguir realizar seu pleno poder literário. Ao contrário de escritores que descreviam o círculo familiar moldados na tradição e “belas formas”, ele escreveu sobre o caos familiar e os que humilhavam e insultavam.

Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes.

Seus romances ocorrem em um período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais.

Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bajtín têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica.

O russo Alexey Rémizov durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: “A Rússia é Dostoiévski. Rússia não existe sem Dostoiévski. “ A maioria dos críticos concorda que Dostoiévski, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Victor Hugo e outros poucos escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo.

Publicou inúmeros contos: O Mujique Marëi, O Sonho de um Homem Ridículo, Bobock e outros, além de novelas: O Senhor Prokhartchin, A Dócil, O Homem Debaixo da Cama, Uma História Suja, O Pequeno Herói, Uma Criatura Gentil, Coração Fraco e Noites Brancas. Criou duas revistas literárias: Tempo (Vrêmia) e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.

Os personagens podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskij), intelectuais rebeldes (Rodion Românovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por idéias e não imperações sociais ou biológicas.

A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores.[30][24] Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou D.H. Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências.

Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como “o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal.” Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: “chorei verdade a partir do sangue”. Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. “Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo”, disse Mihajlo Mihajlov.

Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos fundadores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.

A falta de critérios mais definidos para a transliteração do alfabeto cirílico para o latino no idioma português faz com que existam diversas variantes da grafia do nome possam ser utilizadas simultaneamente; além de Fiodor Dostoiévski, pode-se encontrar comumente a versão anglicizada Fyodor Dostoievsky, e híbridos como Dostoiévsky.

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O escritor, meus amigos, é um pobre ser frágil cheio de vaidade e solidão. A grande ilusão de Luiz Fernando Emediato

Jornalista e escritor vencedor de vários prêmios literários, e dos prêmios Esso de Jornalismo e Rei de Espanha de Jornalismo Internacional. Criador do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo e responsável pela introdução do “âncora” na televisão brasileira. Autor de “Trevas no Paraíso”, “Geração Abandonada”, entre outros livros. É editor da Geração Editorial. As crônicas desta seção foram publicadas no Caderno 2 e no livro “A grande ilusão”.

http://www.geracaobooks.com.br/

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A Solidão do Criador

Quando a solidão do artista
é maior, e mais amarga, que a
comum solidão dos seres

Esta semana eu tive uma experiência inesquecível. Fui entrevistar um dos mais
famosos músicos brasileiros, conhecido por sua timidez e laconismo, e ele, muito à vontade, discorreu durante quase três horas sobre sua infância, sua pobreza, sua emocionante luta para ser um dia um grande artista, aquele que vai sempre onde o povo está, para dividir com ele o embriagante pão da poesia.

Não vou dizer quem é, pelo menos por enquanto: a entrevista vai ser publicada até o próximo domingo. Mas o que eu queria dizer é que, no final da conversa, gravador já desligado, ele olhou para o mar através da janela – estávamos no Rio –, suspirou profundamente, virou-se para mim e disse:

– Eu queria dizer mais uma coisa.

Esperei, surpreso, e então, como se queixasse, ele falou:

– Engraçado. A gente canta em tantos lugares do mundo, para cinco mil, dez mil, quinze mil pessoas, e então elas dançam, algumas choram, aplaudem, vibram com minha música. É como se fosse uma missa, com emoções compartilhadas – mas depois todos vão embora e eu vou para o camarim e fico lá sozinho. Depois eu vou sozinho para o hotel, ou para a minha casa, e me pergunto: para onde foram as pessoas?

Silêncio. Ele respira, olha para a parede vazia, baixa os olhos e conclui:

– Eu me sinto muito solitário.

Todos nós sofremos, uma vez ou outra, por causa da solidão. Eu me lembro de quando estava em El Salvador, cobrindo a guerra civil, e à noite, sozinho no meu quarto de hotel, não tinha com quem dividir o sofrimento por ter visto, durante o dia, tanto horror: crianças mortas a tiros e bombas, jovens esquartejados e queimados, soldados quase crianças lutando contra seus parentes guerrilheiros.

Em 1978, quando escrevi uma série de reportagens sobre a cidade de São Paulo e as pessoas que vivem aqui, descobri uma coisa desconcertante: há em São Paulo 300 mil pessoas que moram sozinhas, em pequenos apartamentos, no espaço vazio das mansões, debaixo das pontes e dos viadutos e até – pasmem – nos túmulos vazios dos cemitérios, como no do Araçá, onde vivia uma moça num belo túmulo-capela. Em São Paulo, informavam então as frias estatísticas do IBGE, todos os dias pelo menos dez pessoas tentam matar-se, de tédio, desespero – ou solidão.

Muitas delas não são realmente solitárias – convivem com seus familiares, têm amigos, trabalham em ambientes onde dezenas de pessoas compartilham com elas, diariamente, seus pequenos ou grandes problemas pessoais. Um dia o jornalista José Maria Mayrink escreveu uma série de reportagens depois publicada em livro. O título foi Solidão (não adianta procurar nas livrarias, pelo menos agora. O livro está esgotado). Mayrink descobriu, de maneira comovente, a solidão dos que vivem num grande aglomerado urbano, São Paulo. Milhões de pessoas juntas. E, apesar disso, solitárias.

Eu estava aqui pensando na terrível solidão do congressista honesto – coisa rara, hoje em dia – que chega ao Congresso, em Brasília, vai ao plenário e discursa, solitário, para um ou dois companheiros. Ou do presidente da República, que, na solidão de seu gabinete, tem de decidir sobre o destino de mais de 130 milhões de brasileiros. Como Deus, que antes de criar o mundo deve ter sido muito, muito solitário.

Pensando entretanto na solidão de uns e outros, no amargo isolamento dos que sonham em dividir com alguém um sorriso, uma palavra amiga, uma opinião, volto ao início desta crônica: é terrível, sim, a solidão do artista. Porque o artista se entrega, de corpo e alma, aos que buscam sua arte, e ele se entrega porque tem necessidade de amar e ser amado. O mais amargo nesta história toda é que, quanto mais querido, quanto mais amado, mais solitário às vezes ele pode ser. Tão solitário quanto por exemplo os escritores. Quando, no silêncio de seu gabinete, eles têm apenas um papel entre seus dedos e a máquina, os escritores são, sem dúvida, os mais solitários dos seres.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Balada Triste
29-11-2006

Perdido em lembranças,
papéis e naufrágios,
um homem pensa e sofre

então ele olha a gotinha cristalina da chuva escorrendo pela folha verde e uma grande saudade invade o seu triste e solitário coração. O cheiro de terra molhada, a chuva na vidraça, o vidrinho com a água açucarada para atrair o beija-flor movendo-se como um pêndulo, empurrado pelo vento: isso é belo, ele pensa, mas como é triste!

Trinta e seis anos. Metade da vida já se foi, e então ele começa a ter saudades da infância, a inocência dos olhinhos arregalados perguntando pelo sentido das coisas, os brinquedinhos de madeira, o cheiro de jasmim nas roupas, o pai ausente, a mãe gritando com os irmãos. Tão longe.

O céu cinzento anuncia tempestade, relâmpagos, trovões. Então ele anda pela casa, calado, curvado, o coração apertado de angústia e lembranças. A calça curta, as pernas finas, a adolescência chegando, o medo do sexo e da vida, o primeiro beijo. Espinhas no rosto. Timidez.

Que estranha é a vida! Que estranho e grande é o mundo, pensa, olhando no espelho os primeiros fios brancos na barba, as rugas ao redor dos olhos, o vinco amargo e seco ao redor dos lábios. Tenta rir, sai uma careta feia e dolorida. Carne. Carne.

E então ele desiste de olhar a chuva lá fora, a água nas folhas, o céu cinzento e anda pela casa buscando tudo e nada, pedaços de coisas, frangalhos, quebra-cabeças. Mexe nas gavetas, nos papéis, nas fotografias. A mãe sorri em uma delas, jovem e feliz. O rosto severo do avô morto. O irmão briguento. O tio alcoólatra morto aos 33 anos, de cirrose. O parente distante que enlouqueceu e deu um tiro no ouvido. O primo que fugiu para ser padre. Vida. Vida.

Tem alergia de papéis velhos e espirra. Mas segue em frente e vê: esboços de histórias, contos, romances e poemas que não escreveu e jamais escreverá. Bilhetes, cartas que não respondeu, versos de amor para alguém e para ninguém. Um soneto apaixonado escrito aos 17 anos em um papel amarelo e manchado; lágrimas. E então ele se lembra, com amargura, que já não consegue chorar, nem nada. Que pena.

Abre e fecha as gavetas, cheio de ansiedade e pressa. Rostos que já não reconhece desfilam entre seus dedos nervosos. Mas há aqueles que jamais esquecerá: Teco, o amigo fiel que se perdeu pelo mundo; Cândida, o primeiro amor; Regina, a primeira e desvairada paixão; Juan, que não se chamava Juan e morreu na guerra; Caio, o escritor sensível e bom, mas tão trágico, tão triste, tão frágil…

Caio fazia perguntas e dava conselhos: “Viver para quê?”. Ou: “Meu irmão, a gente tem de descobrir maneiras de ficar forte”. Ou: “Não se preocupe demais. Relaxe. Navegue”. E então: “Foi bom demais te conhecer. Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Cuide bem de você”. E a data: 19 de maio de l977. Dez anos depois, nada restou além da fria distância entre os dois: olhares furtivos; fugas; silêncios.

Lê, comovido, e pensa: o tempo separa as pessoas, e as idéias também. O que mais separa as pessoas além do orgulho, a sensibilidade exagerada, a incompreensão? Nada vale uma amizade. E então lê, no papel amarelo onde o amigo datilografava as cartas (e a máquina dele tinha até nome, Virgínia Woolf: “Releio Alice no País das Maravilhas e descubro que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda não conseguiu entender nada. Ou conseguiu entender tudo (jamais saberei)”.

Jamais, pensa então. Jamais. E então ele anda pela casa, olha os filhos brincando – inocentes, felizes, quanta beleza! – e se pergunta se não está sofrendo por estar fazendo sofrer. Quem sabe? (Jamais saberemos.)

Perguntas doem. Respostas também. Então ele desiste de fazer perguntas e buscar respostas, vai para a varanda, senta-se na cadeira de balanço, fecha os olhos e ouve apenas o ruído das últimas gotinhas de chuva deslizando pelas telhas e pelas folhas das árvores. Sonha com elfos, duendes, camaleões, fadas, uma princesa alta e branca de cabelos pretos como azeviche – um rosto igualzinho ao da Melanie Grifith, totalmente selvagem. Acorda sorrindo sem saber por quê.

A chuva parou. Um sol frágil e frio despeja luz sobre as gotículas de água. Então ele se ergue, olha o relógio, descobre que está atrasado para o trabalho e corre. Beija as crianças, despede-se apressadamente, tropeça nas pedras do jardim, entra no carro e sai. Até chegar ao trabalho cantarola inconscientemente a letra de uma velha canção chamada Balada Triste. É uma canção cuja letra fala de outra canção que faz o cantor lembrar-se de alguém – alguém que existe dentro do seu (dele) coração. O dele, porém, é um coração vazio e solitário e talvez nem exista. Talvez nem o homem exista. Talvez suas próprias lembranças não existam. Talvez existam apenas as palavras, estas que escrevo. Que pena.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992.

Queridos Leitores

Tenho pensado seriamente em pôr um fim à minha vida.” Era terça-feira, eu tinha acabado de chegar ao jornal para começar mais um dia de minha vida efêmera e frágil e a carta estava lá, sobre a mesa: um envelope branco, subscrito com letra bem desenhada, feminina – alguém que assinou apenas como Kamikaze. Alguém sem nome e endereço. Alguém amargurado e triste.

Olhei em volta e vi pessoas trabalhando, silenciosas ou não, cada um com seu destino. Na mesa mais próxima, Glorinha, Ana Cândida, Enedina, Motta e Charles tinham o rosto triste: Alexandre Bressan, nosso colega, tinha sido assassinado com dois tiros no final de semana. Trinta e cinco anos, uma vida inteira pela frente. E, no entanto, em algum lugar desta São Paulo fria e grande, uma mulher solitária diz que pensa em morrer.

Há sol lá fora, são 9 horas da manhã. Os automóveis passam pela avenida marginal do rio Tietê conduzindo homens, mulheres e crianças: passageiros habitantes deste planeta azul. Daqui da janela sou apenas um homem comum com uma carta desesperada entre os dedos. Foi escrita no dia 9 de novembro por uma mulher com mais de 35 anos, que estudou química e estava, naquele dia, desempregada e sem vontade de viver.

Recebo cartas todos os dias. Alguns leitores escrevem todas as semanas. Quase sempre é bom. Outras vezes, não. Dulceli Nogueira (Lila), de Ribeirão Preto, quer que eu volte a acreditar em Deus e conforta minha descrença com belas citações da Bíblia. G. H. Wills, de Vargem Grande Paulista, avô de dois, sem dúvida, belos netinhos, Tati e Du, é um homem de fé que compreende e aceita minha descrença, e escreve quase sempre me confortando quando estou amargurado, ou se alegrando comigo quando faço força para ter esperança.

Regina quer ser minha namorada. Não dá, querida: minha Sylvia não iria gostar. Nem você, talvez: as pessoas fazem uma idéia da gente quando não nos conhecem – poderia ser, console-se, uma enorme decepção. Pedro Sena (ou será Souza? Ou Serra?) escreve dizendo que tenho me lastimado demais aqui neste espaço e que não adianta chorar – o jeito é entrar no Partido Comunista Brasileiro, o Partidão. Também não dá, Pedro: o seu partido é conservador demais. Vai ser difícil dar as mãos, como você pede, para os seus camaradas: já lhes dei as mãos há dez anos, quando quis ser comunista e tive grande apoio do Partido, até que um dia quis pensar com minha própria cabeça e os camaradas não tiveram dó nem piedade – cortaram minhas mãos e quase levaram a cabeça junto. Seja feliz, Pedro – mas fico aqui do meu canto anarquista, cheio de dúvidas e incertezas. Para o Partidão, Pedro, nem com perestroika. Seja feliz com a foice, o martelo e a sua comovente certeza de que “o socialismo deu certo na metade do mundo”. Será?

Paulo, um publicitário, quer meus préstimos para conhecer minha amiga Susana Kakowicz, uma judiazinha polaca que conquistou corações (inclusive o meu) escrevendo duas ou três vezes aqui mesmo neste espaço dominical e depois sumiu sem dar notícias.

Volta, Susana, volta. Mas pior é um sujeito que tem um projeto agropecuário e telefonou pedindo que o auxiliasse a mostrá-lo para o empresário Sílvio Santos, com direito a comissão e tudo. Cada coisa…

Há também os que ameaçam – são sempre anônimos – e que telefonam insultando e gritando palavrões, toda vez que reclamamos, por exemplo, da imoralidade com que os homens públicos destroem o que sobrou deste país. Pobre gente.

“Leitor e eu formamos um bicho composto, uno e dividido, uma parte querendo engolir a outra”, escreveu uma vez o grande e bom Carlos Drummond de Andrade, aquele que procurou sempre “extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam”.

Queridos leitores. Bons e cruéis leitores. Carentes leitores. Um deles, severo, diz que só tenho escrito coisas amargas, sombrias. É verdade: não tenho o talento do Osmar Freitas Jr. ou do Carlos Antônio Castelo Branco para brincar com as coisas. De resto, brincar como? Baixo os olhos, vejo a carta dessa mulher anônima que se assina Kamikaze, e penso, então, sobre as tristes e alegres coisas da vida. A vida é amarga, Kamikaze querida. A vida é dúvida, como escreveu uma vez meu amigo Adão Ventura, mas também é dádiva. Por isso, não se mate, meu bem. Por favor, não se mate. Morrer é muito pior que viver.

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O Sentido da Vida

Perguntas demais,
respostas de menos. Uma luz
no fim da escuridão?

O sentido da vida é nascer, crescer, envelhecer e morrer, deixando sob a terra
este antigo corpo constituído da solitária e silenciosa matéria de que foram feitas as estrelas e seus filhos, e os filhos de seus filhos, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

O sentido da vida é descobrir alegre ou amargamente a consciência das coisas, da alegria e da dor, da tristeza e do tédio, e então alegrar-se ou entristecer-se, corada ou pálida personagem de uma peça absurda, uma tragédia, comédia, ópera bufa, ou não?

Sim, o sentido da vida é este – ou não.

Será o sentido da vida amar e odiar seu irmão, em silêncio ou aos gritos, perdoar, ser perdoado, caminhar com firmeza ou vacilante sobre o abismo, cair e erguer-se, ou não?

Sim, é este o sentido da vida, ou não.

Será porventura o sentido da vida caminhar juntos sobre a mesma velha e generosa e solitária terra, dividir angústias e dor, enredar-se no cipoal das palavras, dizer sim, ser entendido não, dizer não, ser entendido sim, ou não?
Sim, o sentido da vida é este. Ou não.

Será o sentido da vida buscar luz nas sombras ou sombras na luz, consumir dias e noites a trilhar o áspero caminho imperfeito, buscar o caminho reto, a verdade, e descobrir então o caminho torto, a estrada estreita e, no fim da estrada, apenas neblina, mistério, horror, escuridão?

Sim, o sentido da vida é bem este, ou não.

Será, meu Deus, o sentido da vida acreditar em Deus ou alguma coisa superior à capacidade de entender, cair de joelhos e em prantos pedir caridade ou outro vago sentimento qualquer, e nada ouvir em resposta, ou sim, ouvir então uma voz silenciosa, inexistente e fria e, então, chorar, dormir, sonhar, tudo em vão?
Sim, o sentido da vida é bem este – ou não.

Será o sentido da vida crer na dourada utopia, descobrir então a insustentável fragilidade dos seres, o poder, a miséria, o horror da humana e frágil condição?
Sim, é bem este, ou não, o sentido da vida. Ou não?

Estará o sentido da vida em sonhar o sonho impossível, alcançar a estrela inatingível, vencer o inimigo imbatível, tocar a realidade intangível, e encontrar nada mais que pesadelo, o nada, a queda, a fantasia, miragens, ou não?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Será o sentido da vida entregar-se apaixonadamente às idéias de grande extensão, consumir-se como o fogo e ver apagar-se a chama, a pedra virar pó, a brasa virar carvão? Será, criaturas, o sentido da vida consumir o sangue das veias, esgotar a serenidade, despentear os cabelos, perseguir a ilusão?
Sim, é bem este o sentido da vida, ou não.

Porque se existe sol também existe a lua, e a noite pode ser tão clara às vezes quanto o mais claro dos dias, ou não; mas se há perguntas demais e respostas de menos sempre haverá a busca, a esperança, a viva luz no fim da escuridão.
Porque é isto – buscar – o sentido da vida. Ou não.

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Somos todos assassinos
27-03-2007

A morte, a violência,

a solidão. Pequenos e

grandes assassinatos

Carlos Drummond de Andrade morreu. Era o que restava de poesia. Sobraram

vates patrióticos, canastrões dramáticos, revolucionários de botequim e robôs efêmeros cantando ninfetas narcóticas, calcinhas comestíveis, polícia. Sinal dos tempos?

***

(…)

Um leitor escreve e é sempre a mesma coisa: você fala demais da morte. De Deus, em que não acredita. Do amargo ato de viver. Você precisa acreditar. Bem que gostaria – e é desesperador descobrir essa terrível vontade. Não seria uma rima, talvez fosse uma solução. Mas não adianta: a fé é só um fio entre o ser e o nada.

***

(…)

***

E então silenciamos. Por quê?

***

Somos todos assassinos.

Crônica retirada do livro A grande ilusão públicado em 1992

Prosa

Prosa é o nome que se dá à forma de um texto escrito em parágrafos.

“Prosa” é uma palavra de duplo sentido, pois pode designar uma forma (um texto escrito sem divisões rítmicas intencionais — alheias à sintaxe, e sem grandes preocupações com ritmo, métrica, rimas, aliterações e outros elementos sonoros), e pode designar também um tipo de conteúdo (um texto cuja função lingüística predominante não é a poética, como por exemplo, um livro técnico, um romance, uma lei, etc…). Na acepção relativa à forma, “prosa” contrapõe-se a “verso”; na acepção relativa ao conteúdo, “prosa” contrapõe-se a “poesia”.

Aristóteles já observava, em sua “Poética”, que nem todo texto escrito em verso é “poesia”, pois na época era comum se usar os versos até em textos de natureza científica ou filosófica, que nada tinham a ver com poesia. Da mesma forma, nem tudo que é escrito em forma de prosa tem conteúdo de prosa.

O lingüista Roman Jakobson define “poesia” a partir das funções da linguagem: “poesia” é o texto em que a função poética predomina sobre as demais. Assim, um texto escrito em forma de prosa pode ser considerado de “poesia”, se sua função principal, sua finalidade, for poética. A tal texto pode-se dar o nome de prosa poética ou poesia em prosa. Pois é “prosa” em sua forma; mas “poesia” em sua função, em sua essência, nos sentimentos que transmite.

Historicamente, o marco de início da prosa poética é geralmente associado aos simbolistas [França|franceses]], entre os quais Baudelaire e Mallarmé; no Brasil esse início também está associado aos simbolistas, principalmente ao Poeta Negro: o grande Cruz e Sousa, que tem cinco obras em prosa poética: Tropos e Fantasias (1893); Missal (1893); Evocações (1898); Outras Evocações (obra póstuma) e Dispersos (obra póstuma).

A partir do século XX o gênero foi adotado por muitos poetas e poetisas, de estilos e inclinações muito diversos. A essas obras está reservado esse novo espaço, que já de saída inclui algumas obras de poetas como Cláudio Willer e José Geraldo Neres que já faziam parte de nosso acervo. Hoje apresentamos um novo poeta adepto desse gênero: Jorge Amaral.

Costuma-se dividir a prosa em três subgêneros especificadores: o romance, o conto e a novela.

O romance é um tipo de história onde há um conflito principal, prolongado com conflitos menores, vindos dos painéis de época, das divagações filosóficas, da observação dos costumes, etc.

O conto é um tipo de história mais curta, construído geralmente com um único conflito, com poucas personagens.

A novela também é um tipo de história curta, que pode apresentar um ou mais conflitos (normalmente de tamanho intermediário entre o conto e o romance, com a particularidade de a novela ter um andamento mais episódico, dando a impressão de capítulos separados.

Sylvia Plath

Sylvia Plath (Jamaica Plain, Massachusetts, 27 de Outubro de 1932 — Primrose Hill, Londres, 11 de fevereiro de 1963) foi uma poeta, romancista e contista norte-americana.

Reconhecida principalmente por sua obra poética, Sylvia Plath escreveu também um romance semi-autobiográfico, “A Redoma de Vidro” (“The Bell Jar”), sob o pseudônimo Victoria Lucas, com detalhamentos do histórico de sua luta contra a depressão. Assim como Anne Sexton, Sylvia Plath é creditada por dar continuidade ao gênero de poesia confessional, iniciado por Robert Lowell e W.D. Snodgrass.

Infância

Filha de Aurelia Schober Plath, da primeira geração norte-americana de uma família austríaca, e de Otto Emile Plath, um imigrante de Grabow, Alemanha. O pai trabalhava como professor de zoologia e alemão na Universidade de Boston, sendo também um notável especialista em abelhas. A mãe de Sylvia era vinte e um anos mais nova que o marido. Em 1934, nasceu o segundo filho, Warren. A famíla mudou-se para Winthrop, Massachusetts, em 1936, durante a Grande Depressão. Sylvia, então com quatro anos de idade, passaria em Johnson Avenue grande parte de sua infância. A mãe de Sylvia, Aurelia, crescera em Winthrop, e seus avós maternos, os Schobers, viveram em uma parte da cidade, de nome Point Shirley, mencionada na poesia de Plath. Sylvia publicou seu primeiro poema em Winthrop, na sessão infantil de Boston Herald, aos oito anos de idade.

Otto Plath morre em 5 de novembro de 1940, uma semana e meia após o aniversário de oito anos de Sylvia, devido a complicações seguidas à amputação de uma das pernas em decorrência de diabetes. A doença já era tratável nessa época, porém ele não havia recebido o tratamento necessário, tendo diagnosticado a doença por conta própria. Otto ficara doente pouco tempo após a morte de um amigo próximo, de câncer no pulmão, e devido às similaridades entre os sintomas de seu amigo e seus próprios sintomas, Otto estava convencido de que também sofria da doença, e não buscou o tratamento, fazendo com que sua verdadeira doença progredisse criticamente. O pai de Sylvia Plath está enterrado no cemitério de Winthrop, onde sua lápide continua a atrair leitores de um dos poemas mais famosos de Plath, “Papai” (“Daddy”). Aurelia Plath, então, muda-se com seus pais e as crianças, para a rua Elmwood 26, em Wellesley, Massachusetts, em 1942.

Anos na faculdade

Durante o verão após seu terceiro ano na faculdade, Plath recebeu a posição de editora convidada na revista “Mademoiselle”, morando por um mês na cidade de Nova York ao ocupá-la. A experiência não foi nada do que Sylvia esperava, começando então um redemoinho em sua visão sobre si própria e da vida em geral. Muitos dos eventos ocorridos naquele verão inspiraram o seu único romance, A Redoma de Vidro. No seu primeiro ano em Smith College, Sylvia tenta o suicídio pela primeira vez, tomando uma overdose de narcóticos. Detalhes sobre outras tentativas, documentadas oficialmente ou não em seu histórico médico, estão presentes no livro em forma de crônica. Após esse episódio, Plath esteve brevemente comprometida a uma instituição psiquiátrica, onde recebeu terapia atavés de eletrochoques. Sua estada no hospital McLean foi financiada por Olive Higgins Prouty, também responsável pela bolsa concedida à Plath para arcar com as despesas de seus anos em Smith College. Sylvia recupera-se de seu estado satisfatoriamente, formando-se em Smith College com louvor em 1955. Aluna brilhante, obteu bolsa integral fullbright na Universidade de Cambrige, na Inglaterra, onde continuou a escrever poesia ativamente, publicando seu trabalho ocasionalmente no jornal Varsity, organizado por estudantes principalmente. No final de fevereiro de 1955, na festa de lançamento da “St. Botolph’s Review”, em Cambridge, conhece o jovem poeta britânico Ted Hughes, o que Plath afirmou em uma carta à mãe ser paixão imediata, visto que já acompanhava e admirava seu trabalho literário. Casaram-se em uma pequena cerimônia no dia 16 de junho de 1955.

Casamento e filhos

O jovem casal de poetas passou o período de julho de 1957 a outubro de 1959 vivendo e trabalhando nos Estados Unidos, onde Plath lecionava inglês em Smith.

Mudaram-se para Boston, onde Plath assistia a seminários do poeta Robert Lowell. Além de Sylvia, a poeta Anne Sexton também freqüentou esses seminários. Nessa época, Plath e Hughes conhecem também, W. S. Merwin, que admirou o trabalho do casal, firmando amizade com Sylvia e Ted por toda a sua vida.

Com a descoberta da gravidez de Plath, o casal muda-se de volta para a Inglaterra, vivendo em Chalcot Square, próximo à area Primrose Hill de Regent’s Park, em Londres. O casal fixa-se então, na pequena cidade de North Tawton, em Devon. Nessa época, é publicada a primeira coletânea de poemas de Sylvia Plath, chamada “The Colossus”. Em fevereiro de 1961, Plath sofre um aborto, que seria um dos seus temas principais, presente em grande número de poemas.

O casamento de Plath com Ted Hughes começa, então, a enfrentar muitos obstáculos, particularmente a relação extra-conjugal de Hughes com Assia Wevill, e o casal separa-se no final de 1962. Plath, então, retorna a Londres com seus dois filhos, Frieda e Nicholas, de três anos e um ano, respectivamente, alugando um apartamento na rua Fitzroy n° 23 (a apenas alguns quarteirões do apartamento em que havia morado com o marido, em Chalcot Square), no prédio onde W. B. Yeats também havia morado. Plath agradou-se do fato, considerando um bom presságio. Ali escreve o “A Redoma de Vidro”, seu único romance.

Falecimento

Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, Plath veda completamente o quarto das crianças com toalhas molhadas e roupas, deixando leite e pão perto de suas camas, tendo ainda o cuidado de abrir as janelas do quarto, ainda que em meio à uma forte nevasca. Então, toma uma grande quantidade de narcóticos, deitando logo após a cabeça sobre uma toalha no interior do forno, com o gás ligado.

Na manhã seguinte foi encontrada pela enfermeira que havia contratado, Myra Norris, que, quando chegou ao apartamento, sentiu um cheiro muito forte de gás. Pediu ajuda. A porta foi arrombada. O quarto das crianças estava gelado, e ambas com muito frio.

Diários

Plath manteve o hábito de escrever em diários desde a idade de 11 anos, até o seu suicídio. Seus diários da fase adulta, começando com seu anos como caloura em Smith College em 1950, foram publicados primeiramente em 1980, editados por Frances McCullough. Em 1982, quando o Smith College recuperou os diários que faltavam, Ted Hughes os selou até 11 de fevereiro de 2013, decorridos cinquenta anos da morte de Sylvia.

Em 1998, pouco antes de sua morte, Hughes liberou os manuscritos, passando-os para Frieda e Nicholas, que os repassaram para Karen V. Kukil, para serem editados. Kukil termina a edição em dezembro de 1999, e no anos de 2000, os Diários são publicados pela editora Anchor Books, com o título The Unabridged Journals of Sylvia Plath. De acordo com a contra-capa, dois terços dos Unabridged Journals eram materiais novos. A escritora americana Joyce Carol Oates descreve a publicação como um “genuíno evento literário”.

Hughes recebeu foi alvo de muito criticismo, pelo papel que desempenhou destruindo a última parte dos diários de Plath, que continham escritos desde o inverno de 1962 até a sua morte. Ele se defende, afirmando que os havia destruído em um ato de proteção de seus filhos, e que o esquecimento para ele era uma parte essencial da sua sobrevivência.

Cronologia das demais obras

The Colossus (1960), coletânea de poemas. The Bell Jar (1963), A Redoma de Vidro, único romance da autora. Ariel (1965), poemas. Crossing the Water (1971), A Travessia da Água, coletânea de poemas. Johnny Pannic and the Bible of Dreams (1977) (Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos) livro de contos e prosa. The Collected Poems, (1981), poemas inéditos.

Cinema

O filme Sylvia – Paixão além das palavras, de 2003, com Gwyneth Paltrow, retrata a relação conturbada de Plath com Hughes.

História alternativa

História alternativa (às vezes denominada ucronia), é um subgênero da ficção especulativa (ou da ficção científica) cuja trama transcorre num mundo no qual a história possui um ponto de divergência da história como nós a conhecemos. A literatura de história alternativa faz a seguinte pergunta: “o que aconteceria se a história tivesse transcorrido de maneira diferente?” A maioria das obras do gênero são baseadas em eventos históricos reais, ainda que aspectos sociais, geopolíticos e tecnológicos tenham se desenvolvido diferentemente. Embora em algum grau toda a ficção possa ser descrita como “história alternativa”, um representante apropriado do subgênero contém ficção na qual um ponto de divergência ocorre no passado, fazendo com que a sociedade humana se desenvolva de maneira distinta da nossa.

Desde os anos 1950, este tipo de ficção fundiu-se em grande parte com os tropos da ficção científica envolvendo (a) entrecruzamento de períodos históricos, tempo paralelo, viagens entre histórias/universos alternativos (ou conhecimento psíquico da existência do “nosso” universo por pessoas em outro, como em obras de Dick e Nabokov), ou (b) viagens rotineiras “para cima” e “para baixo” no tempo resultando na partição da história em duas ou mais linhas temporais. Cruzamento de épocas, partição do tempo e temas da história alternativa se tornaram tão entrelaçados que é impossível discutí-los separados uns dos outros.

Em francês, romances de história alternativa são denominados uchronie. Este neologismo é baseado na palavra utopia (um lugar que não existe) e na palavra grega para “tempo”, chronos. Uma uchronie, então, é definida como um tempo que não existe. Outro termo ocasionalmente utilizado (principalmente em espanhol) é “alohistória” (lit. “outra história”).

O mais antigo exemplo conhecido de história alternativa aparece na História de Roma desde sua fundação de Tito Lívio, livro IX, secções 17-19. Nele, o autor reflete sobre a possibilidade de Alexandre, o Grande ter partido para a conquista à oeste, antes de lançar suas tropas para o leste, o que o teria feito atacar Roma no século IV a.C.

A primeira obra efetivamente alohistórica parece ter sido o romance de Louis Napoléon Geoffroy-Château, denominado Napoléon et la Conquête du Monde, 1812-1813, no qual Geofffroy-Château imagina que Napoleão teria conquistado Moscou antes do desastroso inverno de 1812, o que lhe possibilitaria dominar boa parte do mundo.

Em língua inglesa, a primeira história alternativa conhecida parece ter sido o romance de Nathaniel Hawthorne, P.s Correspondance de 1845, livro cuja trama se volta para um homem aparentemente louco e que parece perceber uma realidade na qual figuras políticas e personalidades literárias já falecidas em 1845, tais como os poetas Burns, Byron, Shelley e Keats, o ator Edmund Kean, o político britânico George Canning e mesmo Napoleão Bonaparte ainda estão vivas. O primeiro romance inglês é Aristopia de Castello Holford (1895). Holford imagina o que teria sucedido se os primeiros colonizadores da Virgínia tivessem encontrado um recife de ouro puro, o que teria permitido estabelecer uma sociedade utópica na América do Norte.

Ucronia é um subgênero da literatura, geralmente, mas não necessariamente associada à ficção científica, cujas obras fazem referência a um período hipotético da história do nosso mundo, em contraste com lugares e mundos fictícios. É um conceito similar à história alternativa, mas que difere dela pelo fa(c)to de que os tempos ucrônicos não são claramente definidos (situando-se quase sempre em algum passado remoto).

Um bom exemplo de período ucrônico é a Era Hiboriana de Conan, o Bárbaro; esta e outras fantasias literárias têm lugar em períodos ucrônicos, por volta da época ou logo após a queda da Atlântida.

Ucronia (“não-tempo”) é uma palavra-valise, substituindo topia da palavra utopia (do grego u-topos ou “sem lugar”) por cronia (do grego chronos, “tempo”). A expressão surgiu em 1876 por obra de Charles Renouvier, que a utilizou no título de seu romance Uchronie (L’Utopie dans l’histoire). Esquisse historique apocryphe du développement de la civilisation européenne tel qu’il n’a pas été, tel qu’il aurait pu être., reimpresso em 1988, ISBN 2-213-02058-2

Cyberpunk

Ciberpunk (de Ciber(nética) + punk) é um sub-gênero de ficção científica que utiliza elementos de romances policiais, film noir, desenhos animados japoneses e prosa pós-moderna.

Cyberpunk é um subgênero da ficção científica, conhecido por seu enfoque de “Alta tecnologia e baixo nível de vida” (“High tech, Low life”) e toma seu nome da combinação de cibernética e punk. Mescla ciência avançada, como as tecnologias de informação e a cibernética junto com algum grau de desintegração o mudança radical na ordem social. De acordo com Lawrence Person: “Os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros despóticos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano.”

Segundo William Gibson, em seu livro Neuromancer, o indivíduo ciberpunk é uma espécie de “pichador virtual” que se utiliza de seu conhecimento acima da média dos usuários para realizar protestos contra a sistemática vigente das grandes corporações, sob a forma de vandalismo com cunho depreciativo, a fim de inflingir-lhes prejuízos sem, contudo, auferir qualquer ganho pessoal com tais atos.

O termo ciberpunk também significa uma subcultura, uma vez que dele fazem parte a mistura entre a música eletrônica e o rock, moda, animações, quadrinhos, etc.

O estilo ciberpunk descreve o lado niilista e underground da sociedade digital que começou a se desenvolver nas últimas duas décadas do século XX. Um mundo ciberpunk distópico é chamado de antítese das visões utópicas de mundos de ficção científica e meados do século XX como tipificadas pelo mundo de Jornada nas Estrelas (Star Trek), embora incorporando algumas dessas utopias, principalmente na questão do mito da separação entre corpo e mente, muito discutida na filosofia cartesiana.

Na literatura ciberpunk, muito da ação se ambienta virtualmente, no ciberespaço – a fronteira evidente entre o real e o virtual fica embaçada. Uma característica típica (ainda que não universal) desse gênero é uma ligação direta entre o cérebro humano e sistemas de computador.

O mundo ciberpunk é um lugar sinistro, sombrio, com computadores ligados em rede que dominam todos os aspectos da vida cotidiana. Empresas multinacionais gigantes substituíram o Estado como centros de poder. A batalha do excluído alienado contra um sistema totalitário é um tema comum na ficção científica; entretanto, na FC convencional tais sistemas tendem a ser estéreis, ordenados, e controlados pelo Estado. Em contraste a isso, no ciberpunk, mostram-se as entranhas da corporatocracia, e a batalha sisífica entre seu poder por renegados desiludidos.

As histórias ciberpunk são vistas como representações ficcionais do presente a partir de uma extrapolação e especulação das tecnologias de comunicação, como por exemplo, a internet.

O argumento da escrita cyberpunk se centra em um conflito entre hackers, inteligências artificiais, e megacorporações, tendentes a serem postos dentro da Terra num futuro próximo, em oposição do futuro distante panorama de encontros galáticos em romances como a Fundação de Isaac Asimov ou Dune de Frank Herbert. As visões deste futuro tenden a ser distopias pós-industriais, mas estão normalmente marcadas por um fomento cultural extraordinário e o uso de tecnologias em âmbitos nunca antecipados por seus criadores (“A rua encontra suas próprias aplicações pras coisas”). A atmosfera do gênero em sua maioria faz eco no cine negro e se utiliza pouco neste gênero técnicas de romances policiais. Entre os primeiros expoentes do gênero cyberpunk se encontran William Gibson, Bruce Sterling, Pat Cadigan, Rudy Rucker e John Shirley. O termo Cyberpunk se cunhou nos anos 80 e continua sendo atual.

Diferente da ficção científica da Nova onda, que importou as técnicas e as preocupações estilísticas que já existiam na literatura e na cultura, o cyberpunk se originou na ficção científica primeiro, antes de incrementar a tendência dominante de sua exposição. No começo e meio dos anos 80, o cyberpunk se converteu num tema de moda nos círculos acadêmicos, onde começou a ser objeto de investigação do pós-modernismo. Neste mesmo período, o gênero ingressou a Hollywood e se converteu em um dos estilos de la ficção científica do segmento do cine. Muitos filmes influentes tais como Blade Runner e a trilogia de Matrix se podem ver como conseqüências proeminentes dos estilos e dos temas do gênero. Os jogos de computador, os jogos de tabuleiro e os jogos de rpg, tais como Shadowrun, ou o apropriadamente nomeado Cyberpunk 2020, oferecem a miúdo roteiros que estão fortemente influenciados pelos filmes e a literatura cyberpunk. Iniciando os anos 90, algumas tendências da moda e a música foran etiquetadas como cyberpunk.

Enquanto que uma grande variedade de escritores começou a trabalhar com conceitos do cyberpunk, novos sub-gêneros emergiram, que se centravam na tecnologia e seus efeitos sociais duma maneira diferente. Os exemplos incluem o steampunk, iniciado por Tim Powers, Kevin Wayne Jeter e James Blaylock, e o biopunk (ou alternativamente ribofunk), no qual Paul Di Filippo é proeminente. Adicionalmente algumas pessoas consideram trabalhos tais como A era do Diamante de Neal Stephenson como o inicio da categoria postcyberpunk.

Na literatura ciberpunk, muito da ação se ambienta virtualmente, no ciberespaço – a fronteira evidente entre o real e o virtual fica embaçada. Uma característica típica (ainda que não universal) desse gênero é uma ligação direta entre o cérebro humano e sistemas de computador.

O mundo ciberpunk é um lugar sinistro, sombrio, com computadores ligados em rede que dominam todos os aspectos da vida cotidiana. Empresas multinacionais gigantes substituíram o Estado como centros de poder. A batalha do excluído alienado contra um sistema totalitário é um tema comum na ficção científica e particularmente no cyberpunk, ainda que na ficção científica convencional os sistemas totalitários tendem a ser estéreis, ordenados e controlados pelo Estado.

Os protagonistas da literatura cyberpunk geralmente são hackers moldados freqüentemente na idéia de herói solitário que combate a injustiça: cowboy, ronin, etc. Normalmente são pessoas desprivilegiadas, colocadas em situações extraordinárias, que mais se adaptam ao perfil de cientistas brilhantes buscando avanços ou aventura do que aos de verdadeiros “heróis”, (uma comparação conveniente pode ser la ambigüidade moral do personagem de Clint Eastwood na Trilogía do dólar).

Um dos personagens protótipo do gênero cyberpunk é Case, do romance Neuromancer de William Gibson. Case é um “cowboy do pc”, um hacker brilhante, que trai seus sócios do crime organizado. Roubado de seu talento por lesão que o deixa aleijado, fruto de uma vingança por parte de seus sócios criminosos, Case recebe uma inesperada e única oportunidade na vida de ser curado com assistência médica avançada, contudo, em troca de sua participação em outra empresa criminosa com uma nova equipe. Como Case, muitos protagonistas cyberpunk são manipulados, postos em situações onde têm pouca ou nenhuma opção, e ainda que eles podem ver-se nisto, não necessariamente chegam a estar mais longe do que previamente estavam. Estes anti-heróis – “criminosos, párias, visionários, desertores e inadaptados” – não experimentam o “caminho de herói” de Campbell como um protagonista da epopéia homérica ou um romance de Alexandre Dumas. Eles em troca, traem à memoria o investigador privado do romance policial, que poderia solucionar os casos mais complexos, mas nunca receber uma recompensa justa. Esta ênfase sobre os inadaptados e descontentes – que Thomas Pynchon chama o “pretérito” e Frank Zappa o “esquecimento da Grande Sociedade” – é o componente “punk” do cyberpunk.

A literatura cyberpunk é usada constantemente como uma metáfora pras preocupações atuais sobre os efeitos e o controle das corporações e multinacionais capitalistas sobre as pessoas, a corrupção nos governos, la alienação e a vigilância tecnológica. O cyberpunk pode ser entendido como uma inquietude aos leitores e um chamado à ação. Isto sempre expressa o sentido de rebelião, sugerindo que um pudera descrevê-lo como um tipo de ficção científica contra-cultural. Nas palavras do autor e crítico David Brin,

Uma olhada mais próxima, [dos autores cyberpunk], revela que retratam quase sempre a sociedades futuras com governos absurdos e patéticos… Contos populares de ficção científica de Gibson, Cadigan e outros são uma representação Orwelliana da acumulação do poder no próximo século, mas quase sempre em mãos secretas mais endinheiradas ou em corporações de elite.

As histórias cyberpunk se tem considerado as vezes como prognósticos fictícios da evolução da Internet. O mundo virtual agora conhecido como Internet, aparece sempre baixo vários nomes, incluindo “Cyberespaço”, “a Rede” e “a Matriz”. Neste contexto é importante observar que as descrições mais precoces duma rede global de comunicações vieram muito antes que a World Wide Web se incorporasse ao conhecimento popular, ainda que não antes de que os escritores tradicionais da ficção científica tais como Arthur Charles Clarke e alguns comentaristas sociais como James Burke começaram a prever que tais redes eventualmente se formariam.

O filme Blade Runner (1982), adaptado do livro “Sonham os andróides com ovelhas elétricas?” de Philip Kindred Dick, se centra em uma distopia futura na qual seres manufaturados chamados replicantes são usados como escravos em colônias do espaço, na Terra presa de vários caçadores de recompensas, os quais se encarregam de “aposentá-los” (matá-los). Ainda que Blade Runner não foi um éxito em seu lançamento, encontrou um grande nicho no mercado de aluguel de filmes. Posto que o filme omite os elementos religiosos e místicos do livro de Dick (e.g, caixas de empatia e Wilbur Mercer) cai mais estritamente dentro do genero cyberpunk que a obra. William Gibson revelaria depois que a primeira vez que viu o filme, se havia surpreendido muito de como a aparência deste filme era similar a sua visão quando estava trabalhando em Neuromancer.

Segundo o mencionado anteriormente, a série de TV “Max Headroom” também expandiu o cyberpunk, quiçá com um êxito mais popular que os primeiros trabalhos escritos do gênero.

O número de filmes deste gênero, ou pelo menos de um de seus elementos há crescido constantemente desde Blade Runner. Vários dos trabalhos de Philip Kindred Dick se hão adaptado à telona, com elementos cyberpunk chegando a ser tipicamente dominantes, os exemplos incluem Screamers (1996 ), Minority Report (2002), Paycheck (2003 ) y A Scanner Darkly (2006). Mas infelizmente pro argumento original, o filme Jhony Mnemonic (1995) foi um fracasso, comercialmente e pra crítica. Os fãs de Gibson reclamam que o argumento se desviou substancialmente do trabalho original, ainda quando o mesmo Gibson escreveu o roteiro final.

O diretor Darren Aronofsky direciona sua obra-prima π (1998 ) em uma Nova York atual, mas construiu o livreto com influências da estética cyberpunk. De acordo com comentários do DVD, ele fez esta produção usando deliberadamente máquinas antigas (como o diskete de 5-¼ de polegada), imitando o estilo tecnológico de “Brazil” (1985 ), pra criar una “sensação” cyberpunk. Aronofsky descreve o Chinatown, onde se dirige o filme, como “a vizinhança cyberpunk depois de Nova York”.

A série Robocop se ajusta mais ao futuro próximo onde há pelo menos uma corporação, Omni Produtos de Consumo, que é uma empresa toda-poderosa na cidade de Detroit. Até o fim do mundo (1991 ) mostra outro exemplo onde o cyberpunk é o tema de fundo, e uma estratégia de argumento, pra vê-la de outro modo e dirigir o personagem da história. Gattaca (1997) dirigida por Andrew Niccol é um filme negro futurista cujo empapado modo distópico provem um bom exemplo do biopunk.

A série Matrix, que iniciou em 1999 com “The Matrix” (conformada também por Matrix Reloaded, Matrix Revolutions y The Animatrix) usam uma ampla variedade de elementos cyberpunk.

O estilo cyberpunk e o desenho futurista hão encontrado uma grande acolhida (e vasta exposição) no anime, incluindo “Akira” (1° referente anime do gênero), “Cowboy Bebop”,”Desert Punk”, “Gunnm – Battle Angel”, “Bubblegum Crisis”, “Armitage III”, “Silent Möbius”, “Serial Experiments Lain “, “Texhnolyze”, “Boogiepop Phamtom” e “Ghost in the Shell”, Sendo esta última a que mais há influenciado a juventude contemporânea japonesa que vive com uma relativa proximidade à ambientação da serie, que mostra um Japão com tecnologias de ponta e que adverte sobre os riscos que pode causar isto ante uma possível perda de identidade humana.

O anime também há proporcionado exemplos do sub-gênero steampunk, particularmente em muitos dos trabalhos de Hayao Miyazaki, mas também notavelmente em “Last Exile” (2003) criado pelo estúdio “GONZO” e dirigido por Koichi Chigira, que oferece uma curiosa mescla de sociedade vitoriana e batalhas futurísticas entre naves aéreas. Também é notável “Steamboy” (2004) dirigido por Katsuhiro Otomo e mais recentemente “Ergo Proxy” produzida por Manglobe.

O termo “música cyberpunk” pode referir-se a 2 categorias pouco superpostas. 1° pode denotar a ampla gama dos trabalhos musicais que os filmes cyberpunk utilizam como trilha sonora. Estes trabalhos variam em gênero desde a música clássica e o jazz –usado en Blade Runner, e que por outra parte evoca o ambiente do cine negro- até o noise e a música eletrônica. Tipicamente os filmes fazem uso do eletrônico, EBM, música industrial, noise, future-pop, rock alternativo, rock gótico e intelligent dance music pra criar a sensação “apropriada”. O mesmo principio aplica aos videogames. Naturalmente, enquanto os trabalhos escritos não estão associados a trilhas sonoras com tanta freqüência como os filmes, a alusão a trabalhos musicais é usada pro mesmo efeito. Por exemplo o romance gráfico “Kling Klang Klatch” (1992), uma fantasia obscura sobre um mundo de brinquedos vivos, onde um urso de pelúcia amargado tem uma atração pelo açúcar e uma paixão pelo jazz.

A “música cyberpunk” também descreve os trabalhos associados com a tendência da moda que emergiu do desenvolvimento da ficção científica. O livro “Future Shock” de Alvin Toffler desenhou influências tanto pro grupo techno de Detroit Cybortron, que surgiu nos inícios de 1980, como pros pioneiros europeus do sinth-pop Kraftwerk, produzindo canções que evocam um claro modo distópico.Nos anos 90, a cultura popular começou a incluir um movimento na música e na moda que chamaram também “cyberpunk” e que chegou a ser particularmente associada com as sub-culturas rave e techno. Com o novo milênio chegou um novo movimento de bandas industriais que faziam música de “portátil”. Punks e invasores sem lar se armaram com equipe digital e fundiram a tecnologia com sons de rua. A sub-cultura hacker documentada em lugares como o arquivo da gíria contempla este movimento com sentimentos encontrados, desde os auto-proclamados cyberpunks que estão freqüentemente “inclinados” ate o couro negro e o cromo os quais falam entusiasmados de tecnologia em lugar de aprender ou ver-se envolvidos nisto. (“A atitude não substitue a capacidade”, entrada do Arquivo). Mas estes auto-proclamados cyberpunks ao menos estão “excitados com as coisas corretas” e tipicamente respeitam às pessoas que atualmente trabalham com isto – isto de “a natureza hacker”.

Certos gêneros musicais como o “drum and bass” foram diretamente influenciados pelo cyberpunk, inclusive gerando um sub-gênero completo chamado Neurofunk.

Os games freqüentemente usam o cyberpunk como fuente de inspiração, alguns destes como Blade Runner ou Enter the Matrix, são baseados nos filmes do gênero, enquanto outros como Deus Ex e System Shock, Final Fantasy VII e as séries de Metal Gear são trabalhos originais.

Existem vários jogos de RPG chamados Cyberpunk: Cyberpunk 2013, Cyberpunk 2020 e Cyberpunk V.3 de Talsorian Games e GURPS Cyberpunk, publicado por Steve Jackson Games como um módulo da família GURPS de jogos de RPG. Cyberpunk 2020 foi desenhado com o argumento dos escritos de William Gibson em mente, e até certo ponto com sua aprovação, diferente da aproximação (quiçá mais criativa) feita pela FASA na produção do jogo Shadowrun. Ambos jogos se ambientam num futuro próximo, num mundo onde a cibernética é proeminente. Netrunner é um jogo de cartas colecionáveis introduzido em 1996, baseado no jogo de RPG Cyberpunk 2020; foi lançado junto a um popular jogo de realidade virtual chamado Webrunner, que permite aos jogadores ingressar ao mainframe duma perversa organização futurista. Em adição Iron Crown Enterprises lançou o RPG chamado Cyberspace, agora fora de edição.

Em 1990, em uma inusual união entre a realidade e a ficção do cyberpunk, o Serviço Secreto dos EUA chegou às instalações de Steve Jackson Games e confiscaram todos seus PCs baixo a Operaçao Sundevil, que foi um massivo golpe aos hackers e crackers de PC. Isto se deveu a que– supostamente – o livro de GURPS Cyberpunk poderia ser usado pra preparar crimes via PC. Esta, por efeito, não foi a principal razão pra blitz, mas trás o evento já foi muito tarde pra corrigir a impressão do público.[9] Mais tarde Steve Jackson Games ganhou o processo contra o Serviço Secreto, ajudados pela Electronic Frontier Foundation, de mente mais ampla. Este evento alcançou algo de notoriedade, o que se estendeu também ao livro. Todas as edições publicadas de GURPS Cyberpunk contém, uma citação na capa que diz “O livro que foi confiscado pelo Serviço Secreto dos EUA!”. Em seu interior o livro exibe um resumo da blitz e suas conseqüências.

2004 trouxe numerosas publicações novas de RPG’s cyberpunk, destaque entre elas Ex Machina, um jogo mais cinematográfico com 4 cenários completos e focado em atualizar o lado divertido do gênero a temas correntes dentro da ficção cyberpunk. Estas mudanças incluem um maior ângulo político, transferindo o alinhamento do gênero e inclusive incorporando temas trans-humanos. 2006 viu a largamente esperada publicação de Cyberpunk V.3 de Talsorian Games, a seqüela de Cyberpunk 2020, mas muitos a viram mais como uma edição trans-humanista ou pós-cyberpunk que realmente é cyberpunk.

Os jogos de RPG também hão produzido uma das mais originais tomadas do gênero na forma das séries de jogos Shadowrun de 1989. Aqui, o cenário é um distópico futuro próximo; Mas também incorpora elementos da fantasia e literatura, como magia, espíritos, duendes e dragões. As facetas cyberpunk de Shadowrun foram modeladas em grande parte baseadas nos escritos de William Gibson, e a FASA, que o publicaram originalmente, hão sido acusados por alguns de copiar o trabalho de Gibson sem sequer mencionar sua influência. Gibson, enquanto tanto, há mostrado seu desagrado pela inclusão de elementos de fantasia dentro dos cenários que ele ajudou a desenvolver. Mas Shadowrun há introduzido muitos ao gênero, e segue sendo popular entre os jogadores.

O jogo de RPG Torg, publicado por West End Games também incluiu uma variante do cenário (ou cosmos) cyberpunk chamado Cyberpapado. Este cenário foi inicialmente uma distopia religiosa medieval que repentinamente sofreu um surgimento tecnológico. Em vez de corporações e governos corruptos, o Cyberpapado foi dominado pelo “Falso Papado de Avignon”. Em lugar da Internet, os hackers navegam pela “GodNet”, uma red comum de computadores com simbolismo religioso, lar de anjos, demônios e outras figuras bíblicas. Outro “cosmos” a parte do jogo Torg foi Nippon Tech, o qual incorporava outros aspectos do cyberpunk como corporações dominantes com assassinos profissionais, mas não inclue redes de computadores como parte fundamental do cenário.

O cyberpunk também há sido usado em jogos de aventura pra computadores, destacam o agora freeware Beneath a Steel Sky, publicado por Revolution Software, Neuromancer, publicado por Interplay em 1988, Bloodnet, publicado por Microprose em 1993 e Hell: A Cyberpunk Thriller, por Gametek em 1994. O jogo de ação e aventura Neuromancer está baseado diretamente no romance, incluindo Chiba City, alguns dos personagens, hacking de bases de dados e plataformas cyberespaciais.

A LITERATURA CYBERPUNK

Thomas Pynchon

Thomas Ruggles Pynchon, Jr. (Long Island, 8 de Maio de 1937) é um dos mais originais escritores norte-americanos vivos. Famoso por criar livros longos e complexos – às vezes com centenas de personagens e dezenas de histórias paralelas -, ele é um dos principais expoentes do romance pós-moderno, juntamente com William Gaddis, John Barth, Donald Barthelme, Don Delillo e Paul Auster.

Ganhador do National Book Awards, seu nome é constantemente citado como concorrente ao Prêmio Nobel de Literatura. Em 1988, foi premiado pela Fundação MacArthur. O crítico literário Harold Bloom nomeou Pynchon um dos quatro romancistas anglófonos “canonizáveis” de seu tempo – ao lado de Don DeLillo, Philip Roth e Cormac McCarthy.

Sua ficção abrange diversos campos, como física, matemática, química, filosofia, parapsicologia, história, mitologia, ocultismo, música pop, quadrinhos, cinema, drogas e psicologia, unindo-os de maneira picaresca, humorística, absurda, poética e sombria. A preocupação central da obra de Pynchon é explorar a acumulação e a inter-relação entre estes diferentes conhecimentos, que resultariam em uma realidade entrópica tangível apenas pela paranóia. Ele também é conhecido pela reclusão em que vive, o que gerou diversos rumores sobre sua real identidade. Nunca concedeu entrevistas e as únicas fotos conhecidas dele datam de sua juventude.

Pynchon terminou o ensino básico na Oyster Bay High School com honras acadêmicas em 1953. Passou então a freqüentar o departamento de Engenharia da Universidade de Cornell, uma das universidades da Ivy-League, mas abandonou o curso no segundo ano para juntar-se à marinha americana. Em 1957, retorna a Cornell para cursar Inglês. Seu primeiro conto, “A Small Rain”, foi publicado através da revista literária da universidade, Cornell Writer, na qual ele era editor-sênior, em maio de 1959, mesmo ano em que se formou.

Passou então a escrever seu primeiro romance, enquanto trabalhava como escritor técnico para a Boeing. V., seu livro de estréia, foi publicado em 1963 e ganhou o prêmio de melhor romance do ano da Fundação William Faulkner. Em 1989 recebeu o prêmio da Fundação MacArthur.

A partir da publicação de seu terceiro e mais famoso livro, O Arco-Íris da Gravidade (1973), Pynchon tornou-se notório por sua fuga da exposição pública. Poucas fotos suas são conhecidas. Antes de Mason & Dixon ser publicado em 1997, ele foi localizado e filmado pela CNN. Irritado com essa invasão de privacidade, Pynchon concordou em dar uma entrevista em troca do filme ser mantido em segredo. Quando questionado sobre sua natureza reclusiva, respondeu “Acho que ‘recluso’ é uma palavra-código usada por jornalistas, e significa ‘não gosta de falar com repórteres'”.

Pynchon vive em Manhattan com sua mulher e agente Melanie Jackson e seu filho Jackson Pynchon.

A gama de influências de Pynchon é enorme, mas é possível perceber ao menos algumas principais.

  • No início de sua carreira, o estilo fluente e coloquial apresenta fortes traços da geração beat.
  • Tanto em V. quanto em O leilão do lote 49 existem personagens que remetem às transformações comportamentais ocorridas em meados do século XX – como “A Turma Muito Doida” ou a banda inglesa “Os Paranóicos”.
  • A cultura do jazz – explicitada no bar “V Note”, de V. e nas diversas referências a Thelonious Monk em Against the Day.
  • Em O Arco-Íris da Gravidade ainda se percebe ecos de William S. Burroughs (especialmente no que se refere às situações absurdas e à “Zona”), mas o estilo denso da prosa e a pretensão universalista da narrativa apontam para James Joyce e seu Ulisses.
  • Boa parte da caracterização psicológica dos personagens de O Arco-Íris da Gravidade leva em conta estudos sobre a obra de Jung e Pavlov.
  • As elipses de enredo lembram William Gaddis e seus diálogos cegos.
  • V. (1963), vencedor do prêmio da Fundação William Faulkner – no Brasil, editado pela Paz & Terra
  • O Leilão do Lote 49 (1966), vencedor do prêmio da Fundação Richard e Hilda Rosenthal – no Brasil, editado pela Cia das Letras. Atualmente, fora de catálogo.
  • O Arco-Íris da Gravidade (1973), National Book Award de ficção, escolha unânime do Prêmio Pulitzer recusada pela banca de organizadores, William Dean Howells Medal da American Academy of Arts and Letters em 1975 (recusado) – no Brasil, editado pela Cia das Letras.
  • Slow Learner (1984), coleção de contos – não existe edição em português.
  • Vineland (1990) – no Brasil, editado pela Cia das Letras
  • Mason & Dixon (1997) – no Brasil, editado pela Cia das Letras.
  • Against the Day (2006) – não traduzido