Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta

Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk necessária e primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de “Clube da Luta”. Seu primeiro livro, que foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher, (reunindo os astros Brad Pitt e Eduardo Norton), se transformou em uma obra de culto de tamanhas proporções que várias das idéias do autor contidas no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais a serem seguidos. Um fenômeno cultural que no Brasil encontrou sua vazão violenta no episódio do estudante de medicina que entrou no cinema durante uma sessão do filme e atirou contra várias pessoas e, segundo ele, motivado pelos ideais do filme. Uma rápida “googleada” e se percebe que, mais do que debater os valores literários da obra, existem centenas de sites dispostos a encontrar sentido e referência nos “mandamentos” de princípios do que chamam de Evangelho de Tyler Durden, o personagem anti-capitalista que no cinema foi representado por Brad Pitt.

Certo é que não se pode reduzir esta obra de Palahniuk, tão somente, a um livro de idéias violentas. Não obstante sua trama – Jack, um investigador em uma companhia de seguros que, não agüentando mais sua rotina comezinha sem significados e emoções e conhecendo Tyler, um maluco que gosta de resolver tudo na base da porrada, fundam o tal Clube da Luta, um local onde homens brigam entre si para extravasar toda a fúria que suas vidas rotineiras lhes causam. Mas a coisa começa a sair do controle, e o que era pra ser apenas uma seção de “psicanálise dolorida” passa a se transformar numa organização terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo – existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder e ostentação. “Clube da Luta” é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente.

Chuck Palahniuk teve, assim como as tramas de seus livros, uma vida insólita. Jornalista de profissão, Palahniuk já foi artista de rap, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. O acusado está no corredor da morte. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. O autor adora conversar sobre sua quase obsessão em fazer humor com episódios trágicos, sobre as referências anticonsumo presentes em suas histórias, sobre sua escrita enxuta e direta, e suas narrativas repletas de escatologia. Um exemplo notório disto é um conto do autor chamado “Guts” (vísceras), presente no livro “Haunted”, de 2005 e que foi publicado em março de 2004 na revista Playboy americana. No conto, com sua peculiar descrição direta e irônica, o autor narra episódios – verídicos, segundo ele – de obsessão masturbatória de três adolescentes dispostos a ir cada vez mais fundo para ampliar o seu espectro de prazer nesta prática. De inserção de cenouras no ânus até filetes de cera endurecida no orifício peniano, as taras realmente caminham para o extremo, passando por masturbação com asfixia e culminando para o jovem que se masturba dentro da piscina, sentado sobre o duto de sucção a lhe aspirar o ânus. Sem calcular o potencial de que é capaz tal duto, ficamos finalmente sabendo o porquê do “guts” do título. Em 2003, durante sua turnê para promover o romance “Diary”, o autor leu o conto para diversas platéias nos Estados Unidos. Mais de 75 desmaiaram ao ouvir a leitura. Confesso que quando o li não cheguei a tanto, mas é totalmente compreensível o motivo de tal fato. Quem quiser tirar a prova, pode conferir a tradução do conto Guts.

Depois de “Clube da Luta”, que é de 1996, o autor lançou “Survivor”, em 1999, que aqui no Brasil recebeu o nome de “Sobrevivente”, lançado pela editora Nova Alexandria. “Sobrevivente” compartilha com “Clube da Luta” o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa, começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas apenas para serem “funcionários perfeitos”. O personagem conta em prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade para trabalhar em casas de família – nas horas vagas aliciando moças e dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado. O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o indivíduo pode ser moldado – seja pela igreja através da culpa e êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios; pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo protagonista seqüestra um avião.

Em “Invisible Monsters”, de 1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas. Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado “doentio” em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor depois que Palahniuk estreou na literatura com “Clube da Luta”.

2001 é o ano de “Choke”, publicado pela Rocco no Brasil como “No Sufoco”, onde um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro.

O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra, entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora. Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela Humanidade.

Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem.

Quando em 2002, o autor lançou “Lullaby, a novel” (aqui no Brasil lançado pela editora Rocco com o nome “Cantiga de Ninar”), Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em “Cantiga de Ninar” Carl Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de realizar uma série de artigos sobre o que chamam de “Síndrome da Morte Infantil Súbita”. Durante a investigação ele descobre uma ligação sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças, de antologia “Pomas e rimas ao redor do mundo”, aberto na página 27 onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo. Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra, namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a raça humana.

O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros “musicômanos”, que se entretém com modelos prontos e alienantes de diversão (“Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo. Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção.”).

Em “Cantiga de Ninar” o autor diminui um tanto, por exemplo, sua descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita.

Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado. Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o bastante tal qual os que se motivam por “ideais” como os propagados em “Clube da Luta” e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento – pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento (como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs espalhados pelo mundo.

Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que necessário saber até que nível esta “fobia consumista” do autor não encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal, não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela mais nova “modernidade literária”), também gera seus subprodutos e dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos adiantado de produção: “Sufoco”, “Survivor”, “Diary”, “Invisible Monsters” e “Lullaby”. Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.

The Voice Brasil e o racismo

Claudia Leite, Carlinhos Brown, Daniel e Lulu santos não viram cadeira para índio no The Voice Brasil e se arrependem. Para mim foi uma merda. Quando viram que era uma indígena a coisa mudou. Queriam ter dado valor porque ele era um ídio. 

Vai se foder! Sem noção isso. É uma espécie de racismo, uma bosta isso.

Uma pena ter visto isso, porque, porra, Lulu Santos e Carlinhos Brown, tão cultos, passar essa imagem fodida foi uma vergonha.

Mais poderá ser encontrado no site abaixo e na internet em geral.

http://falaleonardo.com/2012/09/23/resenha-estreia-do-the-voice-brasil-e-o-caso-do-indio-yuri-maizon/

Perfil de Paulo Coelho na ABL Academia Brasileira de Letras

Biografia

Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 24 de agosto de 1947. Filho do engenheiro Pedro Paulo Coelho e de Lígia Coelho. Fez seus estudos no Rio de Janeiro. É casado, desde 1981, com a artista plástica Christina Oiticica.

Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou com diretor e autor de teatro, jornalista e compositor. Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da musica brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como “Eu nasci há dez mil anos atrás”, “Gita”, “Al Capone”, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Foi diretor da companhia discográfica CBS e do jornal Express Underground, professor de teatro e secretário de redação do jornal O Globo. Fundou a Revista 2001.

Atualmente, tem uma coluna semanal em O Globo, e em outros 48 jornais brasileiros. Escreve também para jornais do México, Argentina, Chile, Bolívia, Polônia, Itália, Espanha, Venezuela, Grécia, Taiwan, România, Alemanha e mais dez países.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

Em 1982, editou ele próprio seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher por considerá-lo “de má qualidade”.

Em 1986, fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, na Espanha, e, a partir dessa experiência marcante, escreveu O Diário de um Mago – O Peregrino, em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos se sucederam: Brida (1990), As Valkírias (1992), Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (1994), Maktub (coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de S. Paulo, 1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika Decide Morrer (1998), e O Demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos (2003), O Gênio e as Rosas – ilustrado por Mauricio de Souza (2004) e O Zahir (2005).

Paulo Coelho conseguiu ter três títulos ao mesmo tempo nas listas de mais vendidos na França, Brasil, Polônia, Suíça, Áustria, Argentina, Grécia, Croácia. De acordo com a revista francesa Lire, foi o segundo escritor mais vendido do mundo em 1998. Autor de um trabalho polêmico, tem críticos apaixonados – a favor em contra. O escritor italiano Umberto Eco elogiou Veronika Decide Morrer na revista alemã Focus. Sua obra foi traduzida em 56 línguas e editada em mais de 150 países. Fato notável em sua vida foi o de ter sido o primeiro escritor não muçulmano que visitou o Irã desde a revolução islâmica de 1979.

Fez também a adaptação de O Dom Supremo (Henry Drummond) e Cartas de Amor de um Profeta (Khalil Gibran).

O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países. Tem sido elogiado por pessoas tão diferentes como o Prêmio Nobel de Literatura Kenzaburo Oe, o prêmio Nobel da Paz Shimon Peres, a cantora Madonna e Julia Roberts, que o consideram seu livro favorito. A edição ilustrada pelo famoso desenhista Moebius (autor, entre outros, dos cenários de O Quinto Elemento e Alien) já foi publicada em vários países. The Graduate School of Business of the University of Chicago recomenda o romance no seu currículo de leitura. Também foi adotado em escolas da França, Itália, Brasil, Estados Unidos, dentre outros países.

Já foi fonte de inspiração de vários projetos – como um musical no Japão, peças de teatro na França, Bélgica, EUA, Espanha, Portugal, Taiwan, Turquia, Itália, Suíça. É tema de duas sinfonias: na Itália, uma peça clássica pelo italiano Irlando Danieli para o Scala de Milão, e nos EUA, onde a BMG Classics lançou o CD “A Sinfonia do Alquimista”, pelo compositor Walter Taieb, inspirada em seu enredo.

Os direitos de filmagem de O Alquimista foram adquiridos pela Warner Brothers, que está desenvolvendo o roteiro do filme Onze Minutos pela Hollywood Gang Production e Verônika Decide Morrer pela Muse Productions (VS); e Monte Cinco pela Capistrano Productions.

Paulo Coelho pertence ao Board do Instituto Shimon Peres para a Paz, é Conselheiro Especial da UNESCO para “Diálogos Interculturais e convergências espirituais” e membro da diretoria da Schwab Foundation for Social Entrepreneurship, que distribuiu anualmente um prêmio de U$ 1 milhão para empreendedores sociais.

Mantém o Instituto Paulo Coelho, uma instituição sem fins lucrativos, financiada exclusivamente pelos direitos autorais do escritor. A idéia central não é fazer caridade, mas dar oportunidade às camadas menos favorecidas e excluídas da sociedade brasileira. Desta maneira, o Instituto concentra sua verba em: a) Infância; b) Terceira Idade.

Neste momento, o Instituto Paulo Coelho apóia com ajuda financeira pessoas menos favorecidas de Terceira Idade, e é co-patrocinador do projeto Creche Escola Meninos da Luz, Lar Paulo de Tarso (favela Pavão-Pavãozinho, Rio de Janeiro), que cuida de 270 crianças.

Principais prêmios e condecorações
Prix Lectrices d’Elle (França, 1995)
Knight of Arts and Letters (França, 1996)
Flaiano International Award (Itália, 1996)
Super Grinzane Cavour Book Award (Itália, 1996)
Golden Book (Iugoslávia, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000 e 2004)
Finalist for the International IMPAC Literary Award (Irlanda, 1997 e 2000)
Comendador de Ordem do Rio Branco (Brasil, 1998)
Crystal Award – World Economic Forum (1999)
Golden Medal of Galicia (Espanha, 1999)
Chevalier de l’Ordre National de la Legion d’Honneur (França, 2000)
Crystal Mirror Award (Polônia, 2000)
Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
Club of Budapest Planetary Arts Award 2002 as a recognition of his literary work (Germany, 2002)
Best Fiction Corine International Award 2002 for The Alchemist (Germany, 2002)
Golden Bestseller Prize from the largest circulation daily “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
Ex Libris Award for Eleven Minutes (Serbia, 2004)
Nielsen Gold Book Award for The Alchemist (UK, 2004)
Order of St. Sophia for contribution to revival of science and culture (Ukraine, 2004)
Order of Honour of Ukraine (Ukraine, 2004)
The Budapest Prize (Hungary, 2005)
Goldene Feder Award (Germany, 2005)
Direct Group International Author Award (2005)

 

Bibliografia

Arquivos do Inferno. Ed. Shogun, 1982.
O Manual Prático do Vampirismo. 1985.
O Teatro na Educação. Ed. Forense Universitária autores, 1973.
O Diário de um Mago – O Peregrino. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1987.
O Alquimista. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
Brida. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1990.
O Dom Supremo (adaptação do livro de Henry Drummond) Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1991.
As Valkírias. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1992.
Na Margem do Rio Pedra Eu Sentei e Chorei. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Maktub (coletânea de seus melhores textos na Folha de S. Paulo). Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.
Palavras Essenciais. Ed. Vergara & Riba, 1995.
O Monte Cinco. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.
O Manual do Guerreiro da Luz. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1997.
Cartas de Amor de um Profeta (adaptação do livro de Khalil Gibran). Rio de Janeiro: ed. Ediouro, 1997.
Veronika Decide Morrer. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1998.
As Confissões do Peregrino (biografia escrita pelo jornalista espanhol Juan Arias a partir de seu depoimento). Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1999.
O Demônio e a Srta. Prym. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2000.
Histórias para Pais, Filhos e Netos (coletânea de contos tradicionais). Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2001.
Onze Minutos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.
O Gênio e as Rosas. Ilustrado por Maurício de Souza. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2004.
O Zahir. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2005.
A Bruxa de Portobello. São Paulo: Ed. Planeta, 2006.

 

Discurso de Posse

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. Dessa maneira, São Paulo define a condição humana em uma de suas epístolas: a glória do mundo é transitória. E, mesmo sabendo disso, o homem sempre parte em busca do reconhecimento pelo seu trabalho.
Por quê? Um dos maiores poetas brasileiros, Vinícius de Moraes, diz em uma de suas letras de música:

“E no entanto é preciso cantar
mais que nunca é preciso cantar.”
Vinícius de Moraes é brilhante nestas frases. Lembrando Gertrud Stein, no seu poema “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa”, apenas diz que é preciso cantar. Não dá explicações, não justifica, não usa metáforas. Quando me candidatei a esta Cadeira, ao cumprir o ritual de entrar em contato com os membros da Casa de Machado de Assis, ouvi do acadêmico Josué Montello algo semelhante. Disse-me ele: “Todo homem tem o dever de seguir a estrada que passa pela sua aldeia.” Por quê?

O que existe nessa estrada?

Que força é essa que nos empurra para longe do conforto daquilo que é familiar, e nos faz enfrentar desafios, mesmo sabendo que a glória do mundo é transitória? Creio que esse impulso se chama: a busca do sentido da vida. Por muitos anos procurei nos livros, na arte, na ciência, nos perigosos ou confortáveis caminhos que percorri uma resposta definitiva para essa pergunta. Encontrei muitas, algumas que me convenceram por anos, outras que não resistiram a um só dia de análise; entretanto, nenhuma delas foi suficientemente forte para que agora eu pudesse dizer: o sentido da vida é este.

Hoje estou convencido que tal resposta jamais nos será confiada nesta existência, embora, no final, no momento em que estivermos de novo diante do Criador, compreenderemos cada oportunidade que nos foi oferecida – e então aceita ou rejeitada.

Em um sermão de 1890, o pastor Henry Drummond fala desse encontro com o Criador. Diz ele:

“Neste momento, a grande pergunta do ser humano não será: “Como eu vivi?” Será, isto sim: “Como amei?”
O teste final de toda busca é a dimensão de nosso Amor. Não será levado em conta o que fizemos, em que acreditamos, o que conseguimos.

Nada disso nos será cobrado, mas sim nossa maneira de amar o próximo. Os erros que cometemos nem sequer serão lembrados. Não seremos julgados pelo mal que fizemos, mas pelo bem que deixamos de fazer. Pois manter o Amor trancado dentro de si é ir contra o espírito de Deus, é a prova de que nunca O conhecemos, de que Ele nos amou em vão.”

Lendo a vida e obra daqueles que, antes de mim, ocuparam a Cadeira 21, independentemente de acreditarem ou não naquele encontro com o Criador, este é o primeiro elemento mais presente: amor. Todos buscaram um sentido para suas vidas, mas, enquanto o procuravam, souberam transformar seus passos em manifestações de amor ao próximo. E aí o amor é entendido como algo mais amplo do que o simples ato de gostar. Martin Luther King lembrava que os gregos possuem três palavras para designar esse sentimento: a primeira é Eros, o amor saudável e necessário entre dois seres humanos, que se buscam, se encontram, ou se desencontram. A segunda palavra é Philos, a paixão que nos empurra ao encontro da sabedoria, dos amigos, da filosofia, dos legados que nos deixaram as gerações anteriores. Finalmente existe a palavra Ágape, o amor maior, aquele a que – como bem lembra Martin Luther King – Jesus se referia quando disse: “Amai vossos inimigos.” Um amor que está além do ato de gostar, porque não podemos gostar de quem nos agride, nos ofende, é injusto em seus comentários, leviano em suas acusações, preconceituoso em seu julgamento. Não podemos gostar, mas podemos amar e, através do amor, entender que por detrás de cada atitude mesquinha e destruidora está um imenso desejo de ser compreendido, aceito, apreciado.

Então, a essência de Ágape está não apenas nos que aqui me precederam nesta Cadeira 21, mas em todos, em todas as cadeiras desta Casa, deste auditório, em todas as cadeiras do mundo. Basta apenas reunir coragem suficiente para lutar por seus sonhos, e – de novo me apoio em uma expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo – “combater o bom combate, e manter a fé.”

Em 1986, quando fazia o Caminho de Santiago em busca de uma espada, a mesma espada que daqui a pouco me será de novo entregue, simbolicamente, pelo acadêmico Josué Montello, eu compreendi pela primeira vez o sentido dessa expressão.

O Bom Combate é aquele travado porque o nosso coração pede. Nas épocas heróicas, no tempo dos cavaleiros andantes, isso era fácil, havia muita terra para conquistar e muita coisa para fazer. Hoje, porém, o mundo mudou, e o Bom Combate veio dos campos de batalha para dentro de nós mesmos.

O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem dentro de nós com todo o seu vigor – na juventude – temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar. Depois de muito esforço, terminamos aprendendo, e então já não temos a mesma coragem. Por isso, nos voltamos contra nós, e nos transformamos em nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou frutos de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre têm tempo para tudo e para todos. As que nada fazem estão sempre cansadas, não dão conta do pouco trabalho que precisam realizar, e se queixam constantemente que o dia é curto demais. Na verdade, elas têm medo de saber onde vai dar a misteriosa estrada que passa pela sua aldeia.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos. Olhamos para além das muralhas do nosso mundo organizado, onde a ciência e a filosofia já têm todas as respostas, onde todas as dúvidas já foram resolvidas pelas ideologias, conceitos e preconceitos. Olhamos e vemos as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, sentimos o cheiro de suor e pólvora. Então dizemos, do alto de nossas torres de marfim: “Eles não sabem o que eu sei.” Com essa atitude arrogante, jamais percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para esses não importa nem a vitória nem a derrota, mas apenas olhar o mundo como se fosse uma pergunta – não uma resposta – e através dessa pergunta tentam dignificar suas vidas.

Raul Seixas descreve bem a alegria no coração dos guerreiros, ao escrever:

Prefiro ser
Uma metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Ficamos surpresos quando alguém de nossa idade diz querer ainda isso ou aquilo da vida. Mas, na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o preço dessa paz foi nossa renúncia à luta por tudo que considerávamos interessante, e por tudo que nos entusiasmava fazer. Quando encontramos a paz, temos um curto período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e a infestar o ambiente em que vivemos. Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir essa crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E, num belo dia os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, a morte que nos livre de nossas certezas, de nossas ocupações, e da paz das tardes de domingo.
Nenhum dos ocupantes desta Cadeira 21 experimentou – graças a Deus – essa terrível paz. O teatrólogo Dias Gomes, em seu discurso de posse, chamou-a de “A cadeira da Liberdade”. O economista Roberto Campos a chamou de “Cadeira do Ecletismo”. Eu preferiria chamá-la, entretanto, de “Cadeira da Utopia”. Utopia em seu sentido clássico, referindo-me ao momento ideal da história da civilização na qual todas as conquistas do homem seriam consolidadas entre seus semelhantes; o país imaginário do escritor inglês Thomas Morus, no qual um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. O fundador da Cadeira 21, José do Patrocínio, herói da Abolição da Escravatura, diz em um dos seus discursos. Cito:

“Dentro em três dias vai começar a história moderna do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros da nossa terra. Não é demasiado otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos. As estrelas do sul dentro em um quarto de século não invejarão o fulgor da constelação do norte.”

=Um quarto de século se passou, e outro, e muitos outros. Apesar da abolição da escravatura, todos nós sabemos que até hoje o sonho de José do Patrocínio ainda não se tornou realidade. Entretanto, ele nos legou sua utopia, e nós continuamos a lutar por ela. Sucedeu-o o poeta Mário de Alencar, descrito por todos como um homem tímido e recluso, cujo modelo de vida era o corajoso Sócrates. Suas obras só nos chegaram por causa da dedicação de seus filhos. Tinha como ideal a beleza pura, e comentava em um dos seus versos:

“Goza mulher teus dias
que as puras alegrias
vêm da ilusão.”

De novo a idéia utópica de um mundo no qual é possível, apesar da ilusão, permitir-se o prazer das grandes alegrias. O mesmo acontecia com o poeta Olegário Mariano, que o sucedeu: embora mais extrovertido em seu comportamento – afinal, são dele várias letras de músicas, uma das quais ainda cantamos: “Cai, cai, balão” – leva a sua utopia do terreno literário para o campo político, como antes fizera José do Patrocínio. Luta por um Brasil moldado no ideário de Getúlio Vargas.

Quero fazer uma pequena observação aqui: não me cabe, neste discurso de posse, julgar as afinidades partidárias dos ocupantes desta Cadeira, mas o empenho sincero que tiveram em procurar uma opção melhor para o Brasil, levando em conta suas convicções pessoais.

Como os seus predecessores, também Olegário Mariano quer seguir um sonho impossível. Ele mantém em seu horizonte os ideais utópicos da existência. Como nos versos a seguir. Cito:

“Vida! Quero viver todas as tuas horas, As que prendi na mão e as que nunca alcancei.”

Álvaro Moreyra, o cronista do Rio, é o próximo ocupante, um dos precursores do novo teatro brasileiro, que se declara adepto da utopia comunista. Deixa importante legado literário, que inclui um estudo sobre o teatro espanhol na Renascença, escrito em 1946, e a peça “Adão e Eva e outros membros da família (1929)”, que até hoje faz parte do repertório de muitas companhias teatrais. Em seu trabalho poético, de novo o mesmo louvor utópico à vida, que o acompanhou até nos dizeres de seu epitáfio:
O epitáfio de Álvaro Moreyra é o seguinte:

“Acreditei na Vida, e a Vida em mim. Depois, desandamos a rir de nós mesmos – os dois.”
O crítico Adonias Filho, que sucede Álvaro Moreyra, parte para uma utopia exatamente oposta: ex-integralista, defende o golpe militar de 1964. Mas é tão íntegro em suas convicções que merece o respeito de Jorge Amado, militante de campo exatamente oposto, que faz questão de recebê-lo nesta Casa. Provocador, irônico, Adonias Filho declara em um dos seus textos:

“Ainda se discute a utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão. Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca os leria depois…”

De novo o pêndulo da Cadeira 21 oscila para uma utopia oposta: é a vez de Dias Gomes entrar para a Academia Brasileira de Letras, trazendo em seu teatro e na sua vasta bagagem literária o sonho de um Brasil redimido pela vitória do oprimido sobre o opressor. Seu nome torna-se mundialmente conhecido quando uma de suas peças, “O Pagador de Promessas”, é transformada em filme e ganha a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França. Dono de uma linguagem moderna, é levado pelas circunstâncias a escrever para a televisão, e o faz de maneira inovadora, criando obras que até hoje permanecem no imaginário do povo, como “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”. Em uma de suas peças, “O Santo Inquérito”, a personagem Branca comenta sobre o abismo que separa o sonho da realidade:

“Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo, é na esperança de que vocês entendam … Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio.”

Com sua morte trágica, prematura, que privou o Brasil contemporâneo de uma de suas inteligências mais brilhantes, o pêndulo torna a oscilar e, em uma eleição onde a discussão sobre utopias foi a tônica, Roberto Campos consegue a maioria necessária para ocupar a Cadeira 21.

Lembro-me de, ainda jovem, ir para as ruas protestar contra sua política econômica – embora na época não tivesse sequer idéia do que isso significava. Fernando Sabino, porém, cunhou uma expressão primorosa: “Todo homem é incendiário aos vinte anos, e bombeiro aos quarenta.”

Aos quarenta anos, quando resolvi comprar o meu primeiro computador, vi um Brasil paralisado pela Lei da Informática, caminhando a passos largos em direção – não ao futuro, mas ao passado. Essa lei, que Roberto Campos tanto combatera, e que antes era uma abstração para mim, agora se transformava em algo concreto: estava me privando de um instrumento de trabalho. Ainda durante minha transição de incendiário a bombeiro, tive oportunidade de ler muitos artigos seus, e – mesmo a contragosto, já que sempre somos mais sectários do que ousamos admitir – terminei por lhe dar razão. O meu suposto inimigo de antes transformava-se em um homem capaz de defender com coerência e responsabilidade a sua utopia, buscando aí todas as tribunas possíveis.

Minha admiração chegou a tal ponto que, sabendo de uma noite de autógrafos de seu livro “Lanterna de Popa”, fui até a Gávea para encontrá-lo. Uma chuva torrencial impediu muitas pessoas de comparecer, e eu tive a oportunidade de privar, por meia hora, da sua intimidade e inteligência fulgurante. Firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, polêmico e provocador, Roberto de Oliveira Campos marcou a história do Brasil moderno. Correndo sempre o risco de não ser compreendido, era capaz de lutar até o fim por tudo aquilo que julgava melhor para nossa Pátria. Poucos foram os que se aplicaram em identificar profundamente o pensamento de Roberto Campos, e, entre estes encontra-se o jornalista Olavo Luz. Em sua biografia “Roberto Campos, o homem por detrás do mito”, Olavo nos deu uma dimensão humana desse Economista, Professor, Embaixador, Ministro de Estado, Senador, Deputado, e Acadêmico. Roberto Campos viveu entre o amor e o ódio.

Despertava a fúria raivosa dos contendores e a paixão extremada, quase uma religião, dos admiradores. Um episódio na vida do meu antecessor merece especial atenção: Corriam os chamados “anos de chumbo”, cujo prolongamento Roberto Campos tanto condenou, defendendo o retorno do poder à sociedade civil, após o governo Castelo Branco, que chamava de “arrumação da casa”. Carlos Lacerda, também um brilhante político e, naquele momento, em campo oposto ao então Ministro Extraordinário do Planejamento, cunhou uma frase histórica:

“O senhor Roberto Campos irrita a todos: mata os ricos de raiva e os pobres de fome”.
Impassível, Roberto Campos respondeu com uma outra frase histórica, que seria também uma declaração honrada de armistício:

“A violência da flecha dignifica o alvo”.
Muitas vezes, em momentos em que me sentia julgado com severidade excessiva pela crítica, me recordava dessa frase. E me lembrava de outro sonho, do qual eu não estava disposto a desistir: entrar, um dia, para a Academia Brasileira de Letras.

Há cinco anos, o acadêmico Eduardo Portella, durante o lançamento de “O Monte Cinco” na França, me se eu consideraria a possibilidade de uma candidatura. Perguntei se estava falando sério; ele disse que sim. Pouco tempo depois, Maria Eugenia Stein, amiga de longa data, resolveu promover um encontro com o então Presidente da Academia, Arnaldo Niskier. Retirei o sonho do meu coração, convidei-o para tomar um chá em minha casa, conversei abertamente sobre minhas pretensões, e tornei a guardar meu sonho em lugar onde pudesse contemplá-lo de vez em quando.

No dia 9 de outubro de 2001, eu participava do Festival de Autores e Cineastas, em Montecarlo. Conversava despreocupadamente com o diretor americano Sidney Pollack, quando meu telefone celular tocou: Roberto Campos havia morrido.

Pedi licença a Pollack, caminhei até a praia, fiquei contemplando o Mediterrâneo. Nos momentos em que precisamos tomar uma decisão muito importante, é melhor confiar no impulso, na paixão, porque a razão geralmente procura nos afastar do sonho – justificando que ainda não é chegada a hora. A razão tem medo da derrota. Mas a intuição gosta da vida, e dos desafios da vida. Eu também gosto, de modo que resolvi me candidatar, e confiei em meus amigos da Academia. Pessoas mais próximas me perguntavam: “Mas está mesmo na hora? Por que você não deixa isso para mais adiante?” Eu respondia: “Como é que você sabe que “mais adiante” é a hora certa?”

E segui em frente.

Vez por outra me lembrava de um episódio de minha adolescência: Com um grupo de amigos da Academia de Letras do Colégio Santo Inácio – onde cursava o ginasial – vimos até aqui para assistir a uma palestra. Foi preciso vestir terno e gravata, tomar o bonde, viajar muito tempo para chegar ao centro da cidade. Não me lembro da palestra, nem do palestrante – mas a primeira impressão desse lugar jamais saiu de minha cabeça.

Hoje, quase 40 anos depois, estou nesta tribuna, fazendo meu discurso de posse. O que era uma utopia de adolescente virou – no início da década de 90 – uma verdadeira heresia. Mas, como acontece com algumas heresias, esta também se transformou em realidade. Lutei por esse sonho, confiei em meus amigos, combati o bom combate e mantive a fé. Aprendi com Jorge Amado, o maior escritor brasileiro do século XX, o insubstituível, o grande, o generoso, o digno Jorge Amado, que as utopias são possíveis.

E hoje aqui com vocês, celebramos juntos.

Antes de terminar, gostaria de citar outros dois escritores que nunca conheceram a glória, mas que realizaram seu trabalho com dignidade e dedicação. Um deles jamais sonhou que um dia seu nome seria pronunciado nesta tribuna, e talvez alguns considerem isso anátema, mas não posso deixar passar a oportunidade: trata-se de José Mauro Vasconcellos. Jamais li um livro seu, mas não posso perder este momento único para agradecê-lo por ter levado seu trabalho aos quatro cantos do mundo, ajudando a mostrar às mais diferentes culturas o que existe na alma intensa e comovente do povo brasileiro.

O outro escritor, um professor de matemática, escondido atrás de um pseudônimo misterioso, povoou minha imaginação infantil com lendas do deserto, dos céus e da terra, das mil histórias sem fim que o povo árabe conta, e que, mais tarde, estariam na gestação de meu livro mais conhecido: “O Alquimista.” Trata-se de Júlio César de Mello e Souza, conhecido por todos os seus leitores como Malba Tahan. É de sua autoria a história que agora narro, com minhas palavras, e que tão bem reflete a frase de São Paulo sobre a glória do mundo:

“Na antiga Roma, na época do imperador Tibério, vivia um homem muito bom, que tinha dois filhos: um era militar, e quando entrou para o exército, foi enviado para as mais distantes regiões do Império. O outro filho, versado em letras, virou um poeta famoso, que encantava Roma com seus versos.

“Certa noite, o homem teve um sonho. Um anjo lhe aparecia para dizer que as palavras de um de seus filhos seriam conhecidas e repetidas no mundo inteiro, por todas as gerações vindouras. Acordou agradecido e chorando, porque a vida era generosa, e havia lhe revelado uma coisa que qualquer pai teria orgulho de saber.

“Pouco tempo depois, morreu ao tentar salvar uma criança que ia ser esmagada pelas rodas de uma carruagem. Como tinha se comportado de maneira correta e justa em toda a sua vida, foi direto para o céu, e encontrou-se com o anjo que lhe aparecera em sonhos.

“- Você foi um homem bom – disse-lhe o anjo. – Viveu sua existência com amor, e morreu com dignidade. Posso realizar agora seus desejos.

“- A vida também foi boa para mim – respondeu o homem. – Quando você me apareceu em sonho, senti que todos os meus esforços estavam justificados. Porque os versos de meu filho serão passados de geração em geração. Nada tenho a pedir para mim; entretanto, todo pai se orgulharia de testemunhar a imortalidade de alguém que ele cuidou quando criança e educou quando jovem.

“O anjo tocou em seu ombro, e os dois foram projetados para um futuro distante. Em volta deles apareceu um lugar imenso, com milhares de pessoas, que falavam uma língua estranha.

“O homem chorou de alegria.

“- Eu sabia que os versos do meu filho eram bons e imortais – disse para o anjo, entre lágrimas. – Toda Roma se encantava com eles, e sei algumas de suas poesias de cor: gostaria que me dissesse qual delas estas pessoas estão repetindo.

“- Os versos de seu filho poeta foram muito populares em Roma – disse o anjo. – Todos gostavam, e se divertiam com eles. Mas, quando o reinado de Tibério acabou, seus versos também foram esquecidos. Estas palavras são de seu filho que entrou para o exército.

“O homem olhou surpreso para o anjo, que continuou:

“- Seu filho foi servir num lugar distante. Era também um homem justo e bom. Certa tarde, um dos seus servos ficou doente, e estava para morrer. Seu filho, então, ouviu falar de um Rabi que curava os doentes, e andou dias e dias em busca daquela pessoa. No caminho, descobriu que o homem que procurava era o Filho de Deus.

Encontrou outras pessoas que haviam sido curadas por Ele, aprendeu seus ensinamentos, e, mesmo sendo um centurião romano, converteu-se ao seu credo. Até que certa manhã chegou perto do Rabi.

“Contou-lhe que tinha um servo doente. E o Rabi se prontificou a ir até sua casa. Mas o centurião era um homem de fé, e olhando no fundo dos olhos do Rabi, disse não ser necessário.

“O anjo tornou a mostrar as pessoas e, de repente, todas se levantaram:

“- Estas são as palavras do seu filho soldado – disse o anjo ao homem. – São as palavras que ele disse ao Rabi naquele momento, e que nunca mais foram esquecidas:

“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa, mas dizei uma só palavra e meu servo será salvo”.

SIC TRANSIT GLORIA MUNDI. A glória do mundo é transitória, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos – como o centurião romano – que deixam as marcas mais duradouras. Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente. Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.

O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.

Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que levam escritores a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Muito obrigado.

JT LeRoy

I always said, I don’t know who I am, so how can I own an identity?
…everything you need to know you can find in my books.

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Quando JT LeRoy surgiu com este primeiro livro, aos 20 anos de idade, foi um espanto. Jovem, genial e tão esquisito quanto JD Salinger, ele foi logo traduzido em vários idiomas e adotado por personalidades tão díspares quanto Madonna e o cineasta Gus Van Sant, do qual se tornou amigo e colaborador. Sarah, de fundo autobiográfico, é a história de uma criança graciosamente andrógina – o narrador – cuja mãe, prostituta em paradas de caminhoneiros, veste-o como mulher para que também se prostitua. Esse personagem tão improvável quanto engraçado, tão triste e trágico quanto patético, afunda então num reino delirante e perversamente idílico, no qual é explorado pelo violento cafetão Leloup, de quem procura fugir para viver no mundo menos infeliz de outro cafetão, o boa praça Glad Gratefull. JT LeRoy criou neste primeiro e genial livro um submundo memorável e terrível, tão acolhedor quanto sofrido e bizarro, tão belo e poético quanto apavorante, e sem dúvida surpreendentemente original.

”Maldito Coração” contém os primeiros textos, que se afirmava serem autobiográficos, do estranho autor norte-americano JT LeRoy, que se apresentava no jet set internacional como uma figura andrógina e perturbadora, amigo e parceiro de personalidades tão Díspares quanto Madonna, o cineasta Gus Van Sant e alguns ícones da moda. No momento em que o mundo se surpreende com a revelação de que LeRoy não existe – a verdadeira autora se chama Laura Albert e a pessoa que se apresenta como ele é uma mulher, Savannah Knoop – a Geração Editorial (que também publicou seu romance “Sarah”) reafirma seu compromisso com a obra e mantém a publicação, tendo em vista a qualidade de seus textos. Em “Maldito Coração”, JT LeRoy nos conta a história da trágica infância de uma criança transformada em prostituto infantil e drogada, conduzida pela mãe – uma prostituta juvenil – numa fantástica viagem pelas estradas dos Estados Unidos. Um texto inquietante, engraçado, brutal, sinistro, que descreve a perturbadora relação entre uma mãe e seu filho criança e, depois, adolescente. Histórias chocantes de amor abusivo e disfunção sexual, de coração partido e inocência perdida. Mais uma vez, a imaginação e o lirismo fantástico de LeRoy alteram seu suposto passado sombrio para algo completamente estranho e mágico. Realidade ou fantasia, não importa: a obra é fascinante.

Leroy fora supostamente um jovem garoto de programa de beira de estrada que passara do ambiente rural de Virginia Ocidental para a vida de um sem-teto viciado em drogas em São Francisco. Resgatado quando adolescente pelo casal Laura Albert e Geoffrey Knoop e tratado por um psicólogo, ele teria conseguido transformar sua trágica juventude numa próspera carreira de escritor. JT Leroy publicou três livros de ficção aclamados pela crítica, chamando a atenção pelo retrato cabal da prostituição infantil e do uso de drogas.

Leroy lançou livros, teve obras filmadas, e depois descobriu-se que ele não existia. Era um pseudônimo de uma escritora que recorria a uma enteada para desempenhar o papel de “Leroy” em público. “Ele” esteve no Brasil em 2005, na Flip (Festa Literária de Paraty), e deu entrevistas que exploravam sua aparência andrógina, quase transexual. Em 2006 a verdade saiu nos jornais.

J. T. Leroy tem um livro, adaptado para o cinema, com o título “The Heart is Deceitful Above All Things” – “O Coração é Enganador Acima de Tudo”. O que nos traz aos versos de Pessoa: “O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”.  Emoções podem ser verdadeiras mesmo produzidas por uma vivência não real – o cinema está aí para isso, não é mesmo? Para que recebamos por duas horas o espírito daquele personagem interpretado por Dustin Hoffmann ou Fernanda Montenegro, soframos com ele, riamos com ele, identifiquemo-nos com seus menores trejeitos faciais, com as menores inflexões de sua voz. São falsas, essas emoções que nos violentam na sala escura? Não acho. São as mesmas de um escritor que as produz conscientemente em si próprio, num gabinete silencioso, a sós diante do computador. Guimarães Rosa dizia: “De repente, o diabo me cavalga”. Não o Diabo cristão: mas o “Daimon” grego, o espírito criador que pede para dizer algo. Se lhe inventamos um nome e uma biografia, aí são outros quinhentos.

Nos tribunais americanos está rolando um processo judicial envolvendo a obra autobiográfica do escritor J. T. Leroy, que estreou em 2000 com o livro “Sarah” (publicado no Brasil pela Geração Editorial), onde contava sua infância sofrida como filho de uma prostituta de beira de estrada que atendia caminhoneiros. O personagem público de JT Leroy é interpretado por Savannah Knoop, meia-irmã de Geoffrey Knoop. Uma fotografia de Savannah na inauguração de uma loja de roupas em São Francisco, em 2003, foi descoberta na internet. Cinco pessoas íntimas de Leroy identificaram Savannah como a pessoa que conheciam por JT Leroy. Entre elas sua agente literária, Ira Silverberg, e Lilly Bright, produtora do filme “The heart is deceitful above all things” (que estréia no Brasil no dia 20, com o nome de “Maldito coração”) , baseado num livro de contos de 2001.

Nyoka Lowery, designer de chapéus que aparece na fotografia ao lado de Savannah, disse que a conhece há anos e a identificou em outra fotografia na internet, no site de uma empresa de roupas em São Francisco, Nisa. Umay Mohammed, dona da Nisa, disse pelo telefone que Savannah Knoop era uma amiga e modelo de seu site.

Contactada por telefone, Savannah apenas afirmou, antes de desligar:

— Não preciso disto em minha vida no momento — disse ela, que não respondeu a mensagens pedindo mais comentários sobre o assunto.

Escritores como Dennis Cooper, Mary Gaitskill e Mary Karr apoiaram a carreira literária de Leroy, assim como diversos editores de Manhattan e celebridades do cinema e da música pop, como Courtney Love, Tatum O’Neal, Billy Corgan, Shirley Manson e Carrie Fisher. Jornalistas (incluindo, em novembro de 2004, este repórter) também escreveram crédulos perfis sobre o jovem escritor de sucesso, inclusive com entrevistas ao vivo. O “New York Times” chegou a publicar, em setembro de 2005, um artigo assinado por JT Leroy num suplemento de domingo, “T: Travel”.

O desmascaramento soma-se à hipótese de que Laura Albert é a real autora dos livros. Essa suposição começou a existir em outubro, quando a revista “New York” publicou um artigo de Stephen Beachy. O jornalista retratava Laura, de 40 anos, e Geoffrey Knoop, de 39, como malsucedidos músicos de rock que planejaram o personagem de Leroy para ter acesso aos círculos literários e, depois, a celebridades. O plano teria começado com fax, e-mails e telefonemas de Laura, falando com sotaque de Virgínia Ocidental como se fosse JT Leroy. O artigo ainda contava que Laura teria pedido a um amigo para datilografar manuscritos com evidentes semelhanças temáticas em relação ao trabalho posteriormente publicado por Leroy. Segundo a teoria de Beachy, quando este nome se tornou famoso, era necessário um ator para interpretar o papel. Mas ele não sabia quem era esse ator.

Beachy descobriu que as vendas do primeiro romance de Leroy, “Sarah”, de 2000, foram pagas para a irmã de Laura Albert, Joanna Albert, e que outros pagamentos a Leroy foram feitos a uma empresa de Nevada, Underdogs Inc. A presidente da companhia é a mãe de Laura, Carolyn F. Albert. Contactada por telefone, ela não quis comentar sobre o assunto. O pagamento para o artigo de Leroy também foi feito para a Underdogs.

Depois da publicação do artigo de Beachy, o “Times” começou a examinar as circunstâncias do texto escrito por Leroy na “T: Travel”, sobre uma viagem para a Disneylândia em Paris, com quatro pessoas. Mas recibos enviados por Leroy mostravam um itinerário para apenas três pessoas. Funcionários da Disneylândia e de dois hotéis de Paris identificaram Laura Albert na fotografia como a pessoa apresentada como JT Leroy. Segundo os funcionários, Laura disse que tinha feito uma operação para trocar de sexo e era agora uma mulher. Ela disse ainda que viajava com seu marido e o filho pequeno.

No número de telefone e nos e-mails que Leroy havia dado aos editores do “Times”, foi encontrado Peter Cane, um advogado de Manhattan. Cane não quis fornecer o passaporte de Leroy para confirmar sua identidade e o fato de ter viajado para a Europa. Mais tarde, Cane enviou um e-mail de Leroy em resposta às dúvidas sobre Savannah Knoop: “Como um ser humano com características do sexo oposto, sujeito a ataques, uso substitutos para proteger minha identidade”. Leroy já havia argumentado ter traços femininos para explicar a confusão sobre sua identidade.

Não se sabe que efeito o desmascaramento de Savannah Knoop terá em seus leitores, que agora enfrentam a questão de se o que lhes atraía eram os livros ou a história por trás deles. A falsa identidade também pode ter repercussões no mundo editorial: Leroy tem contrato com a Viking para um novo romance, e Ira Silverberg, sua agente, disse que seus livros estão à venda em 20 países. Carolyn Coleburn, diretora de publicidade da Viking, disse simplesmente:

— Nós apoiamos nossos autores.

Os produtores do filme sentiram-se lesados. Julgavam estar comprando uma história autobiográfica; se os fatos do livro eram ficção, aquilo mudava tudo. Mas aí Laura Albert foi mais fundo. Revelou que J. T. Leroy era na verdade um “alter ego”, uma dupla personalidade real, alguém que tinha existência própria e vivia dentro de sua mente. Sua mãe testemunhou, no tribunal, que a filha tinha graves depressões, foi internada várias vezes, e era de uma timidez patológica: chegou a ficar três anos sem sair do quarto. Nesse quadro de neurose e desepero, J. T. Leroy emergiu (diz a escritora) como um respiradouro, uma válvula de escape. E foi ele quem passou a se comunicar com o mundo, por escrito.

Leroy, era um ex-prostituto infantil, ex-sem-teto, ex-criança abandonada e com uma história comovente, ele tinha tudo para ser invenção de um autor excêntrico, já que não dava entrevistas nem tirava fotografias. Aos poucos foi se revelando e ganhando admiração da crítica literária americana, da “Spin Magazine” ao “The New York Times“. Entrou na lista dos mais vendidos e eu não sabia de nada disso quando comprei “Sarah” atraído pela bela capa que, agora soube, é de autoria de Gus Vans Sant. Também descobri agora que a música “Go, Cherry Go” do Garbage é em homenagem a ele e Cherry era um de seus pseudônimos quando prostituto.

JT Leroy, este jovem repaz de aparência andrógina, que de tão tímido já chegou a vomitar quando dava uma entrevista a jornalistas no salão literário de Veneza, na Itália.

Sarah e The Heart Is Deceitful Above All Things de JT LeRoy são tão estranhos quanto sua história. Em Sarah, Jeremiah Terminator LeRoy escreve uma narração de um menino que cercado por pisteiras vê naquele vida de desilusões e violência, um mundo encantado. Algo totalmente antagônico com o que é pensado por nascidos em berços mais nobres. Sua mãe (Sarah), veste-o de menina e o leva à vida com que ele tanto sonhava. A fixação do garoto por sua mãe (Sarah) é tão grande que ele adota o nome dela o livro inteiro, apesar disso, não confunde o leitor.

Glad, o cafetão que manda no pedaço, usa o tamanho do pênis de guaxinim para premiar a melhor pisteira. O sonho de Sarah (“o” Sarah) é conseguir o maior de todos. Por isso foge a um outro bar de beira de estrada onde terá mais serviço e assim voltar ao bar de Glad com fama e garantir o maior pênis de guaxinim entre todas as pisteiras. Parece fácil, mas diversos fatos ocorrem fazendo com que Sarah sofra por suas escolhas.

Shirley Manson do Garbage fez uma baladinha um tanto esquisita inspirada na história de JT LeRoy, chamada Cherry Lips.

Quanto ao outro livro, The Heart Is Deceitful Above All Things tornou-se um filme dirigido por Asia Argento e exibido um pouco antes da entrevista de LeRoy em São Paulo, desconheço tanto o livro, o filme, quanto a entrevista. Mas se LeRoy for tão excêntrico e manter a mesma linha de Sarah, eu terei de ler o livro, a entrevista, e assistir ao filme. Quando se acha um bom escritor (mesmo que pareça uma escritora) é bom sugar tudo que ele tem a oferecer.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo (“Uma delícia”) e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos (“Não é esquisito? Adorei”).

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de “Sarah” se dá quando ele (a essa altura “ela”) conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. “Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa”, diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna (“ela se alterna entre legal e fria comigo”), Gus Van Sant (autor da foto da capa de “Sarah”) e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música “Cherry Lips (Go Baby Go!)” em sua homenagem _Cherry Lips era também seu “nome de guerra”_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _”não o conheço, não tenho muito a dizer dele”_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de “família”. É com essa dupla que o autor de “Sarah” tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da “Folha” Erika Palomino. “Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo”, disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, “Sarah” será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos “há muito tempo”, tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy –
Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma “streetwise” (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy –
Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente “ouço” o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse “assédio”. É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme “The Heart Is Deceitful Above All Things” (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy –
Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como “i-D”, “Spin”, “New York Press” etc. É verdade?
JT LeRoy –
Hum… Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy –
(Pausa) Bem… Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy –
Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: “play” (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy –
O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi “The Heart Is Deceitful Above All Things”, uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy –
O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em “Sarah”). Pode-se dizer que é uma seqüência de “Sarah”.

Também fiz o roteiro de um episódio de “Deadwood” (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. “Deadwood” não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação “Blue’s Clues”, da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy –
Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: “Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!”.

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy –
Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro “The Liar’s Club”. Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy –
(Risos) Deixe-me pensar… Alguma coisa, muita coisa.

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A controvertida escritora Laura Albert retornou com o seu primeiro artigo a ser publicado desde o alvoroço causado pela notícia de que era ela a autora dos livros publicados sob o pseudônimo de JT LeRoy, que alcançaram tantos louvores e publicidade.

Seu artigo, “Judeus de Esquis” aparece no segundo número da revista premiada Lemon, especializada em cultura pop. Nesse artigo, Albert sugere que “o segredo da sobrevivência é a adaptabilidade.”

No mesmo exemplar da revista, de forma independente do artigo de Albert, aparece um editorial escrito pelo principal redator de Lemon, Robert Bundy e intitulado: “Sim, Virgínia, JT LeRoy existe”, que é reproduzido integralmente abaixo. “Trata-se de uma atualização do clássico editorial jornalístico em favor do Papai Noel, escrito por Francis P. Church em 1897,” disse Kevin Grady, o editor principal de Lemon e seu diretor de criatividade. “Ficamos bastante chocados com toda a confusão gerada pela revelação de quem JT LeRoy realmente era.”

Albert declarou que Lemon é “um trabalho de amor e uma obra de arte.” Lemon é publicada duas vezes por ano e foi criada por Grady e Colin Metcalf, também responsáveis pela publicação GUM sobre arte e projetos, aclamada pela crítica. O número atualmente nas bancas, cujo tema geral é “Espionagem”, inclui Andy Warhol, Sonic Youth, Mike Mills, Stefan Sagmeister, Jessica Craig-Martin e outros. Lemon se encontra disponível internacionalmente em Borders, Barnes and Noble, em Tower Records e em outras lojas.

I have a dream – EU TENHO UM SONHO Discurso de Martin Luther King (28/08/1963)

“Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.
Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”.

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, “Quando vocês estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

“Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!”

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

“Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.”

Paulo Coelho

Paulo Coelho (Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1947) é um escritor, compositor, modelo e ator brasileiro.

Nascido numa família de classe média católica, aos sete anos Paulo Coelho ingressa em um colégio jesuíta da então capital do Brasil.

Desde muito novo, gostava de escrever e mantinha um diário. No colégio, participava de concursos de poesia e cursos de teatro. No entanto, seu pai queria que ele fosse engenheiro, e sua mãe desestimulava Paulo a seguir a carreira de escritor. As brigas com os pais eram constantes e Paulo teve muitas crises de depressão e raiva na adolescência, tendo sido internado três vezes em uma clínica de repouso, onde foi tratado com eletrochoques.

Na década de 1960, adere ao movimento hippie, ao mundo das drogas e ao ocultismo e satanismo. Profissionalmente, exerce a profissão de ator em algumas peças, e escreve e produz outras. Exerce também a função de jornalista em publicações ditas alternativas, quando conhece Raul Seixas, então executivo de uma produtora musical. Os dois se tornam parceiros em diversas músicas que exercem influência no rock brasileiro (mas consta na biografia de Paulo Coelho, “O Mago“, que Raul Seixas compusera sozinho algumas delas mas colocara o nome do amigo Paulo). Nessa época, Paulo Coelho envolve-se com Marcelo Motta e torna-se um seguidor de Aleister Crowley e da chamada “Sociedade Alternativa”, a qual apresenta a Raul e que lhe renderia problemas com o governo militar. Compõe também para diversos intérpretes, tais como Elis Regina, Rita Lee e Rosana Fiengo.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

A edição do seu primeiro livro foi em 1982, Arquivos do Inferno, que não teve repercussão desejada. Lançou o seu segundo livro O Manual Prático do Vampirismo em 1985, que logo mandou recolher considerando o trabalho de má qualidade. Conforme suas próprias palavras, confessa: “O mito é interessante, o livro é péssimo”.

Em 1986, Paulo Coelho fez a viagem de peregrinação pelo Caminho de Santiago. Percorreu quase 700 quilômetros a pé do sul da França até a cidade de Santiago de Compostela na Galiza, experiência que relata em detalhes no livro O Diário de um Mago, editado em 1987. No ano seguinte, publicou O Alquimista, que – apesar de sua lenta vendagem inicial, o que provocou a desistência do seu primeiro editor – se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos; O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Chegou ao primeiro lugar da lista dos mais vendidos em 18 países e vendeu, até o momento, 41 milhões de exemplares.

Nos anos subseqüentes foram lançados os seguintes livros : Brida [1] (1990), As Valkírias [1] (1992), Nas Margens do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei [1] (1994), Maktub [1] (1994), O Monte Cinco [1] (1996), Manual do Guerreiro da Luz [1] (1997), Veronika Decide Morrer [1] (1998), O Demônio e a Srtª Prym [1] (2000), Histórias para Pais, Filhos e Netos (2001), Onze Minutos [1] (2003), O Gênio e as Rosas (2004), O Zahir [1] (2005) e A Bruxa de Portobello (2006).

Como escritor, apesar das críticas, ocupa as primeiras posições no ranking dos livros mais vendidos no mundo. Vendeu, até hoje, um total de 92 milhões de livros[2], em mais de 150 países[3], tendo suas obras traduzidas para 66 idiomas[4] e sendo o autor mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos[5], ultrapassando até mesmo Jorge Amado, cujas vendas somam 54 milhões de livros[5].

Sua penúltima obra, O Zahir, foi lançada primeiramente no Irã, para que lá pudesse ser registrada como obra local e que fossem processados aqueles que fizessem cópias ilegais do livro em língua persa[carece de fontes?]. Para escrever O Zahir, Paulo Coelho instalou-se por uma temporada no Casaquistão, país onde a obra se desenvolve.

No fim de 2006 o autor lançou seu mais novo livro A Bruxa de Portobello, que figura na lista dos mais vendidos no Brasil desde então. A história é construída apenas por depoimentos das personagens fictícias, respeitando a parcialidade de cada uma.

Paulo Coelho escreve seus livros em um apartamento na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, e possui uma casa para retiro na França, na região dos Pireneus.

Em 2007, Paulo Coelho fez uma partipação na novela Eterna Magia, representando Mago Simon, representação humana do grande Dagda, deus supremo da mitologia celta.

Não deixou de causar grande surpresa a eleição, em 25 de julho de 2002, de Paulo Coelho para a academia. A instituição tinha um histórico de rejeitar autores de sucesso, ditos “populares” – e dela ficaram fora Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Mário Quintana e outros tantos autores reconhecidos.

Mas o autor, que se candidatara outras vezes, foi eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo acadêmico Arnaldo Niskier como o oitavo ocupante da cadeira nº 21, cujo patrono é Joaquim Serra

Apesar de sua popularidade, Paulo Coelho é também alvo de fortes críticas de vários segmentos da sociedade, que abarcam tanto o mérito espiritual quanto literário de sua obra. Algumas opiniões desaprovam os seus livros e os qualificam como “literatura esotérica de auto-ajuda”. Muitos de seus textos possuem erros de concordância e gramaticais, muitas vezes corrigidos em edições posteriores ou em sua versão para outros idiomas – minimizando a crítica estrangeira. A falta de fidelidade quanto aos fatos torna-se evidente quando cotejados com situações verídicas, como o transpor de distâncias não factíveis no tempo determinado quando em peregrinação. A mesma crítica também contesta seu ingresso na Academia Brasileira de Letras.

Em setembro de 2007, a ONU nomeou o escritor Paulo Coelho seu novo Mensageiro da Paz, ao lado da princesa jordaniana, Haya, do maestro argentino-israelense Daniel Barenboim e da violonista japonesa Midori Goto. O anúncio foi feito durante a cerimônia de comemoração do Dia Internacional da Paz na sede da ONU em Nova Iorque presidida pelo secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon.

“Aceito com gosto esta responsabilidade e me comprometo a fazer o máximo para melhorar o futuro desta e das próximas gerações”, declarou o escritor brasileiro ao saber de sua nomeação. Os Mensageiros da Paz são designados pessoalmente pelo secretário-geral das Nações Unidas, com base em seu trabalho em campos como artes plásticas, literatura ou esporte, e seu compromisso de colaborar com os objetivos da ONU.

Obras do autor

  • Arquivos do inferno (1982)
  • Manual prático do vampirismo (1986) [recolhido pelo autor]
  • O diário de um mago (1987)
  • O Alquimista (1988)
  • Brida (1990)
  • O dom supremo (1991)
  • As valkírias (1992)
  • Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994)
  • Maktub (1994), coletânea de suas melhores colunas publicadas na Folha de São Paulo
  • Frases (1995), compilação de textos
  • O Monte Cinco (1996)
  • O manual do guerreiro da luz (1997)
  • Veronika decide morrer (1998)
  • Palavras essenciais (1999)
  • O demônio e a Srta. Prym (2000)
  • Histórias para pais, filhos e netos (2001), coletânea de contos tradicionais
  • Onze minutos (2003)
  • O Gênio e as Rosas (2004)
  • O Zahir (2005)
  • A Bruxa de Portobello (2006)
  • Ser como o rio flui (2007)
  • O vencedor está só (2008)
  • O mago… (2008)


Principais prêmios e condecorações

  • “I Premio Álava en el Corazón” (Espanha, 2006)
  • “Wilbur Award” (Estados Unidos, 2006)
  • Premio Kiklop pelo O Zahir na categoria “Hit of the Year” (Croácia, 2006)
  • Premio “DirectGroup Inrternational Author” (Alemanha 2005)
  • “Goldene Feder Award” (Alemanha, 2005)
  • “The Budapest Prize” (Hungria, 2005)
  • “Order of Honour of Ukraine” (Ucrânia, 2004)
  • “Order of St. Sophia” (Ucrânia, 2004)
  • “Nielsen Gold Book Award” pelo O Alquimista (Inglaterra, 2004)
  • Premio “Ex Libris Award” pelo o livro Onze Minutos (Serbia, 2004)
  • Premio “Golden Bestseller Prize” do jornal “Večernje Novosti” (Serbia, 2004)
  • Oficial de Artes e Letras (França, 2003)
  • Premio Bambi de Personalidade Cultural do Ano (Alemanha, 2001)
  • Premio Fregene de Literatura (Itália, 2001)
  • “Crystal Mirror Award” (Polônia, 2000)
  • “Chevalier de L’Ordre National de la Legion d’Honneur” (França, 2000)
  • “Golden Medal of Galicia” (Espanha, 1999)
  • “Crystal Award” World Economic Forum (1999)
  • “Comendador de Ordem do Rio Branco” (Brasil, 1998)
  • Finalista para o “International IMPAC Literary Award” (Irlanda, 1997)
  • “Golden Book” (Yugoslavia ’95, ’96, ’97, ’98)
  • “Super Grinzane Cavour Book Award” (Itália, 1996)
  • “Flaiano International Award” (Itália ’96)
  • “Knight of Arts and Letters” (França ’96)
  • “Grand Prix Litteraire Elle” (França/95)
  • “Mensageiro da Paz”, pela ONU (2007)